A retórica de Trump e soberania da Gronelândia não é uma estratégia de segurança — é uma posição maximalista concebida para extrair concessões que o tratado de 1951 não garante automaticamente: direitos sobre minerais críticos, soberania formal sobre bases militares e, possivelmente, a aceleração da independência da Gronelândia face à Dinamarca. A exigência de “posse” é juridicamente desnecessária. É politicamente útil.
O acordo de defesa de 1951 entre os EUA e a Dinamarca — emendado em 2004 para incluir a Gronelândia como signatária — já confere a Washington direitos amplos de instalação e operação de bases militares no território. No auge da Guerra Fria, os EUA mantinham mais de dez mil soldados e dezassete instalações na ilha. Hoje, operam uma única base, Pituffik, gerida pela Força Espacial para vigilância de mísseis e defesa antimíssil. A presença militar americana na Gronelândia não diminuiu por falta de direitos legais. Diminuiu por decisão estratégica e orçamental. A afirmação de Trump de que “é preciso a posse para defender” foi classificada como “conversa absurda” pelo seu próprio ex-conselheiro de segurança nacional, John Bolton.
O que justifica, então, a escalada?
O mecanismo real
A resposta está em dois fatores que o tratado de 1951 não resolve: minerais e independência.
A Gronelândia possui reservas documentadas de terras raras, urânio, zinco e outros recursos críticos para as cadeias de abastecimento tecnológico e militar. A China controla entre 60 e 70% da produção global de terras raras e usou esse controlo como instrumento de pressão económica em 2024. Washington tem um interesse estrutural em diversificar o acesso a esses recursos — e o tratado de defesa não confere direitos de exploração mineira. O Memorando de Entendimento assinado em 2019, durante o primeiro mandato de Trump, incluía precisamente a prospeção conjunta de recursos críticos. A exigência de “posse” é, em parte, uma forma de contornar a negociação bilateral sobre minerais, que teria de ser feita diretamente com Nuuk — não com Copenhaga.
O segundo fator é a independência. A Gronelândia tem um movimento de autodeterminação ativo: em 2023, aprovou um esboço de constituição republicana; em março de 2025, o partido de centro-direita Demokraatit — favorável a uma transição gradual — venceu as eleições parlamentares. A Lei de Autogoverno de 2009 reconhece o direito à autodeterminação e define um processo negociado para a independência. Uma Gronelândia independente seria um interlocutor diferente de uma Dinamarca membro da NATO e da União Europeia. Washington teria uma margem de negociação muito superior — sobre bases, minerais e presença militar — com um Estado novo e economicamente dependente do que com um aliado estabelecido, com obrigações jurídicas europeias. A pressão sobre Copenhaga serve, entre outras coisas, para acelerar essa separação.
O que a escalada produziu
A sequência entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026 é reveladora. Trump intensificou a retórica, incluiu ameaças tarifárias sobre aliados europeus e recusou reunir-se diretamente com os líderes dinamarqueses e gronelandeses durante semanas. Negociou, em vez disso, com o secretário-geral da NATO, Mark Rutte — que não tem qualquer autoridade sobre a soberania territorial dinamarquesa. O resultado foi um “enquadramento de acordo futuro” cujo conteúdo concreto permanece opaco. O porta-voz da NATO confirmou que Rutte não propôs qualquer compromisso sobre soberania. A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, declarou que não foi informada de qualquer cedência e que a soberania “não é negociável”. O primeiro-ministro gronelandês, Jens-Frederik Nielsen, foi mais direto: “a soberania é uma linha vermelha”.
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