O Preço do Reconhecimento
A cultura underground não morre por falta de público. Morre quando a cidade que a tolerava percebe quanto ela vale — e cobra.
Havia um bar no Cais do Sodré, em Lisboa, que não tinha nome visível na fachada. Quem sabia, sabia. Quem não sabia passava à frente sem notar. Era essa invisibilidade — não intencional, apenas económica — que tornava o lugar possível. A renda era baixa porque a rua era má. A rua era má porque ninguém queria estar ali. E, porque ninguém queria estar ali, havia espaço para quem não tinha outro sítio.
Esse bar já não existe. No seu lugar há uma cervejaria com iluminação de design e uma lista de cocktails que cita bairros de Lisboa como se fossem sabores. O turismo não destruiu o bar — valorizou a rua, e a renda destruiu o bar. A sequência é tão previsível que já tem nome em várias línguas. Em Lisboa, aconteceu mais depressa do que em quase qualquer outra capital europeia, porque a cidade passou de ignorada a desejada num intervalo de tempo demasiado curto para que quase tudo se adaptasse.
A cultura underground — aquilo que uma cidade produz nas suas margens, com pouco dinheiro, sem licença de utilização em dia e sem esperança razoável de lucro — precisa de uma condição que raramente é nomeada: a indiferença do mercado imobiliário. Não precisa de pobreza, necessariamente. Precisa de zonas onde o capital ainda não chegou, onde a renda é baixa porque o valor percebido é baixo, onde a fealdade ou o perigo afastam quem procura conforto e atraem quem procura liberdade.
Nova Iorque, no início dos anos 80, era ainda uma cidade marcada pela crise fiscal e pelo desinvestimento da década anterior. Havia bairros inteiros abandonados, edifícios que ninguém queria, e uma administração preocupada em recuperar a cidade sem conseguir controlar tudo o que acontecia em caves e armazéns do Meatpacking District ou do Lower East Side. O que emergiu dessas condições de negligência — a cena das drag queens, os clubes queer sem sinal na porta, as performances que misturavam dança de vanguarda com cabaret e ironia — não foi apesar da degradação urbana. Foi, em larga medida, por causa dela.
Lisboa teve o seu próprio período de negligência produtiva. A Mouraria dos anos 90, o Intendente da viragem do século, o Cais do Sodré antes de 2010 eram lugares onde o investimento público e privado chegava tarde ou chegava mal. Essa rarefação criou espaço — físico, regulatório, económico — para que algo acontecesse. Aconteceu. Não com a mesma escala nova-iorquina, nem com a mesma documentação, nem com o mesmo reconhecimento internacional imediato. Mas aconteceu, com a mesma lógica: arte barata num sítio barato, para uma comunidade que não tinha acesso aos sítios caros.
O problema com o reconhecimento é que chega sempre tarde e cobra sempre caro.
Quando os jornais internacionais começaram a escrever sobre Lisboa como destino criativo, em meados da década de 2010, o que descreviam já estava a desaparecer. As fotografias dos murais, das tascas, das ruas com roupa estendida entre janelas: eram arqueologia a fingir de reportagem. O objeto do desejo existia ainda, mas as condições que o tinham produzido estavam a ser eliminadas pelo mesmo desejo que o celebrava.
Isto não é um processo específico de Lisboa. É a forma como as cidades tratam a sua própria cultura marginal: ignoram-na enquanto ela se forma, reconhecem-na quando está formada e monetizam-na até ao ponto em que as condições que a tornaram possível deixam de poder ser reproduzidas. O ciclo tem a elegância de uma armadilha bem desenhada. A cultura underground não é destruída por quem a odeia — é destruída por quem a ama tarde demais.
O desaparecimento das livrarias especializadas, dos clubes sem nome na porta, dos bares onde se ia porque não havia mais nenhum sítio — não é apenas uma perda sentimental. É uma perda funcional. Esses espaços não eram apenas lugares de consumo cultural: eram infraestrutura de comunidade para quem não cabia nas infraestruturas oficiais. A livraria LGBTQ+, o clube queer, o espaço de performance experimental numa cave sem licença: todos cumpriam uma função que a cidade formal não cumpria e que o mercado formal não tinha interesse em cumprir, porque o mercado não serve comunidades — serve segmentos.
Quando esses espaços desaparecem, o que lhes sucede não é o vazio. É a versão cara do mesmo produto. A cervejaria com cocktails que citam bairros de Lisboa não é o oposto do bar sem nome — é a sua mercadoria, produzida para um cliente diferente, vendida a um preço que exclui quem o original incluía. O espaço mantém-se. A função desaparece.
Em Lisboa, este processo tem uma visibilidade particular que outras cidades europeias não proporcionam com a mesma nitidez.
Lisboa é pequena o suficiente para que as transformações sejam rastreáveis à escala humana. Não é possível perder-se na imensidão de Londres ou Berlim — onde os bairros underground podem migrar para zonas mais periféricas e sobreviver durante décadas antes de serem completamente absorvidos. Em Lisboa, essa migração periférica chegou à margem da margem muito depressa. A Mouraria mudou. O Intendente foi reabilitado. O Cais do Sodré foi transformado. A Graça está sob pressão. O que sobra são territórios cada vez mais afastados do centro, com acessos cada vez mais difíceis para quem não tem carro, e com rendas que sobem mais depressa do que os autocarros chegam.
A cidade que atraiu o mundo pela sua capacidade de produzir cultura na marginalidade está agora a eliminar sistematicamente as condições que tornavam essa marginalidade possível. Não por má-fé, necessariamente. Por lógica de mercado — que é, no fundo, a linguagem urbana dominante das últimas duas décadas.
O que fica quando os espaços desaparecem não é nada. Fica a memória deles — que se transforma, por sua vez, em produto. As visitas guiadas ao Cais do Sodré histórico, as exposições sobre a Lisboa underground dos anos 90, os documentários sobre o que a cidade foi antes de ser o que é: são todas formas de consumir uma cultura depois de a ter tornado inacessível a quem a produziu.
Há qualquer coisa de perturbadoramente circular neste processo. A cultura underground precisa de invisibilidade para existir. O reconhecimento é a sua forma mais elegante de extinção. E, depois do reconhecimento, vem a musealização — que é o reconhecimento sem o risco, a forma sem a função, o arco-íris sem a chuva que o produz.
O bar sem nome no Cais do Sodré não vai voltar. Mas, algures na cidade — num sítio que ainda ninguém quer, numa rua que ainda não aparece nos guias, numa cave que ainda não tem renda de mercado — está a começar outra coisa. Durará enquanto durar a indiferença. E desaparecerá no momento em que alguém escrever sobre ela.
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