ENSAIO – Política / Sociedade
Arcana News — Almocei há três semanas com um homem que conheci há vinte anos. Na altura, ele era funcionário médio num ministério cujo nome já ninguém se lembra.
Eu era jornalista freelancer, mal pago, a tentar perceber como funcionava aquilo a que se chama “poder”.
Encontrámo-nos por acaso num café em Santos, começámos a falar, e durante dois anos almoçámos juntos uma vez por mês. Ele explicava-me coisas. Eu ouvia.
Não vou dizer o nome dele. Primeiro porque não me deu autorização. Segundo porque não interessa. O que interessa é que há três semanas voltámos a almoçar, no mesmo café em Santos — que entretanto mudou de dono três vezes mas mantém o mesmo cheiro a óleo de bacalhau e a mesma luz fraca que cai sobre as mesas —, e percebi ao fim de dez minutos que ele já não se lembrava de mim.
Não é que tivesse esquecido completamente. Quando lhe disse “Lembras-te quando almoçávamos aqui todas as semanas?”, ele sorriu educadamente e disse “Ah sim, sim, claro.” Mas era o sorriso de quem não tem a certeza mas não quer admitir. Fez perguntas genéricas. “E tu, continuas no jornalismo?” Como se nunca tivesse sabido.
Ora, há vinte anos este homem era funcionário médio. Hoje é secretário de Estado. Ou era. Ou está prestes a ser outra vez, depende de como corre a formação do novo governo.
Os jornais publicam fotografias dele. Tem assessores. Quando chegou ao café, chegou cinco minutos atrasado e com aquela pressa cuidadosamente calibrada de quem quer que saibas que está a fazer-te um favor ao estar ali.
E eu, que há vinte anos era jornalista mal pago, continuo a ser escritor mal pago. Mudei de profissão no papel mas não na prática. Continuo a não ter assessores. Continuo a chegar aos sítios a horas porque não tenho desculpa para não chegar.
O que me fascinou — e é sobre isto que quero escrever, porque acho que ninguém escreveu sobre isto exatamente desta maneira — não foi o facto de ele me ter esquecido. Isso seria normal, previsível, humano. O que me fascinou foi perceber, ao longo daquele almoço horrível, que ele tinha esquecido não apenas quem eu era, mas como se conversa com alguém sem estar a calcular alguma coisa.
A geometria da conversa
Vou tentar explicar isto devagar porque é subtil.
Há vinte anos, quando almoçávamos, a conversa tinha uma geometria específica. Ele falava, eu ouvia, às vezes eu fazia perguntas, ele respondia ou não respondia dependendo da pergunta. Mas havia sempre um momento — geralmente quando já tínhamos acabado de comer e estávamos apenas a beber café — em que a conversa deixava de ser transaccional e se tornava genuína. Ele dizia coisas que provavelmente não devia dizer. Eu dizia coisas estúpidas e ele corrigia-me sem condescendência. Discordávamos. Ficávamos em silêncio confortável enquanto pensávamos.
Havia, em suma, uma distância normal entre duas pessoas que falam. Não demasiado perto — não éramos amigos íntimos, não partilhávamos confidências sobre as nossas vidas privadas. Mas também não demasiado longe. Estávamos ali, naquela mesa, a tentar perceber coisas em conjunto. A distância era talvez de um metro. A distância de uma mesa de café. Distância suficiente para ver a outra pessoa com clareza mas não tanto que te faça berrar.
Há três semanas, a geometria era completamente diferente. Ele estava sentado a cinquenta centímetros de mim — mais perto fisicamente que há vinte anos, porque o café novo tem mesas mais pequenas. Mas a distância real, a distância que interessava, era de quilómetros. Talvez de países diferentes.
Tudo o que ele dizia era calculado. Não de forma consciente, percebe? Não era como se houvesse uma voz na cabeça dele a dizer “cuidado com esta frase”. Era pior que isso. Era como se a sua forma natural de falar tivesse sido completamente substituída por uma forma de falar que existe apenas para audiências.
Dei comigo a fazer um exercício bizarro: tentava imaginar o que ele teria dito sobre o mesmo assunto há vinte anos, e comparar com o que estava a dizer agora. Por exemplo, falávamos sobre uma medida política qualquer. Há vinte anos, ele teria dito: “Olha, isto é complicado. Há três grupos que querem coisas contraditórias, e se fizeres X contentas A mas lixas B, e se fizeres Y é o contrário.” Era informação directa, sem floreados.
Agora, sobre o mesmo tipo de assunto, ele disse: “É uma questão que requer análise cuidadosa de todos os stakeholders envolvidos, e estamos comprometidos com um processo inclusivo que permita encontrar soluções que sirvam o interesse público.” Repara: ele não disse nada. Juntou palavras que soam bem mas que não significam nada. E o mais perturbador é que parecia genuinamente não perceber que não tinha dito nada.
O homem que não está na sala
A certa altura, perguntei-lhe directamente: “Mas tu, pessoalmente, o que achas?” Ele olhou para mim com uma expressão estranha. Durou talvez dois segundos. Foi a única vez durante todo o almoço em que o vi hesitar, em que a máquina de falar deixou de funcionar suavemente.
Depois disse: “Bem, pessoalmente, acho que temos de ponderar várias perspectivas.” E continuou.
Fiquei a pensar naqueles dois segundos. O que tinha acontecido ali? Porque é que uma pergunta tão simples — o que tu achas — tinha causado um momento de… não sei como chamar. Não era confusão. Era mais como se eu tivesse perguntado algo numa língua que ele já não falava.
Lembrei-me de uma coisa que uma mulher me disse há anos. Ela trabalhava numa empresa grande, tinha subido na hierarquia, e a certa altura disse-me: “O problema não é que os chefes sejam maus ou estúpidos. O problema é que deixam de existir como pessoas. Tornam-se o cargo. E uma vez que és o cargo, já não podes ter opiniões — apenas posições.”
Na altura, achei que era exagero. Agora acho que é literalmente verdade, e muito mais assustador do que parece.
Porque repara: não é que o meu amigo de há vinte anos (posso chamá-lo amigo? não sei, mas vou chamá-lo assim) estivesse a esconder a sua opinião real. É que genuinamente já não tinha opinião real sobre nada que importasse profissionalmente. Não porque fosse cobarde. Mas porque vinte anos de treino em nunca dizer o que pensas genuinamente sobre nada acaba por atrofiar a capacidade de pensar genuinamente sobre seja o que for.
É como aquelas pessoas que mentem tanto que deixam de saber o que é verdade. Excepto que aqui não é mentira. É pior. É a substituição completa do pensamento genuíno por aquilo a que podemos chamar “pensamento adequado”. E uma vez que só tens pensamento adequado, deixas de ser capaz de reconhecer a diferença.
A solidão específica do poder
Vou contar outra coisa que aconteceu naquele almoço.
A certa altura, ele recebeu uma chamada. Pediu desculpa, atendeu. Eu devia ter feito o que as pessoas bem educadas fazem — olhar para o prato, fingir que não estou a ouvir. Em vez disso, observei-o.
A voz dele mudou completamente. Não só o tom — mais imperativo, mais rápido — mas a própria estrutura das frases. Estava a falar com alguém da sua equipa, pelo que percebi. E a forma como falava era… como é que hei-de dizer… era a forma como se fala com ferramentas. Não com maldade. Mas com aquela impaciência funcional de quem está a usar algo para atingir um fim.
Desligou, pediu desculpa outra vez, voltámos à conversa. Tentei imaginar como seria a vida dele. Acordar de manhã. O telefone já está a tocar. Reunião. Outra reunião. Almoço onde não podes comer porque estás ocupado a calcular o que dizer. Reunião. Chamadas. Jantar com pessoas que também estão a calcular o que dizer. Casa. Emails até à uma da manhã. Dormir. Acordar. Repetir.
Onde é que fica o espaço para ser humano?
E não estou a falar de luxos. Não estou a falar de tempo para ir ao cinema ou ler livros ou ter hobbies. Estou a falar de coisas muito mais básicas. Tempo para olhar pela janela sem propósito. Tempo para ter um pensamento que não leva a lado nenhum. Tempo para mudar de opinião sem que isso seja registado e usado contra ti. Tempo para simplesmente não saber o que pensas sobre algo.
Quando é que ele tinha esse tempo? E se não tinha, como é que ainda era pessoa?
A resposta terrível é: provavelmente não tinha, e provavelmente já não era. Não no sentido em que tu e eu somos pessoas. Era uma coisa diferente. Uma espécie de interface humano para um cargo. O corpo ainda estava ali, a voz ainda funcionava, mas a pessoa tinha sido evacuada há anos e substituída por um conjunto de protocolos comportamentais adequados a alguém na sua posição.
Isto parece cruel, e talvez seja. Mas tenho de dizer, porque acho que é importante: eu não o culpo. Acho até que ele não tinha escolha. Ou melhor: teve escolha uma vez, há vinte anos, quando aceitou o primeiro cargo com verdadeira responsabilidade. Depois disso, cada passo seguinte era apenas lógica. Sobrevivência. Adaptação.
Não podes ser pessoa genuína e sobreviver no topo de uma organização grande. Não porque as organizações sejam más por natureza. Mas porque o peso de tantas expectativas, tantos olhares, tantas interpretações de cada palavra tua, acaba por te transformar naquilo que precisas de ser para sobreviver. E aquilo que precisas de ser não é pessoa. É representante. Símbolo. Interface.
A ilusão do acesso
Há uma palavra que detesto e que se tornou omnipresente: “acessível”. Diz-se que um político é acessível. Que uma empresa é acessível. Que um sistema é acessível.
O que isto significa, geralmente, é que construíram uma interface bonita. Há um número de telefone que podes ligar (e ficar em espera vinte minutos). Há um email que podes enviar (e receber resposta automática). Há redes sociais onde podes comentar (e ser ignorado ou bloqueado). Há até, às vezes, eventos onde podes encontrar a pessoa importante (durante três minutos, num protocolo cuidadosamente controlado).
E chamamos a isto “acesso”. Como se isto fosse proximidade. Como se clicar “enviar” numa mensagem que ninguém vai ler fosse o mesmo que falar com alguém.
O meu almoço com o meu antigo amigo foi exactamente isso. Eu tinha acesso. Estava sentado a cinquenta centímetros dele. Podia vê-lo, ouvi-lo, falar com ele. Mas não havia ali ninguém para aceder. Ou melhor: havia alguém, mas esse alguém estava atarefado demais a gerir a sua própria apresentação para estar realmente presente na conversa.
E aqui está a coisa verdadeiramente perturbadora: acho que ele pensava que estava a ser genuíno. Acho que, na sua cabeça, aquilo era uma conversa real. Ele estava ali, a fazer esforço, a dedicar-me tempo precioso da sua agenda sobrecarregada. O que mais eu podia querer?
Não consegue ver — já não consegue ver — a diferença entre estar fisicamente presente e estar realmente presente. Entre falar e comunicar. Entre dizer palavras e dizer algo.
O preço que não se vê
Depois do almoço, fiquei a pensar se devia escrever sobre isto. Há algo indelicado em expor alguém desta maneira. Mas depois pensei: isto não é sobre ele especificamente. É sobre todos eles. E mais: é sobre um sistema que transforma sistematicamente pessoas em não-pessoas, e depois finge que isto é normal.
Porque repara no truque: tratamos isto como se fosse o custo necessário do poder. “Ah, claro, ele está stressado, tem muita responsabilidade, não tem tempo para conversas genuínas.” Como se isto fosse apenas questão de gestão de tempo. Como se, se ele organizasse melhor a agenda, pudesse voltar a ser pessoa.
Mas não é isso. Não é questão de tempo. É questão de estrutura. O cargo — qualquer cargo com verdadeiro poder — requer que deixes de ser pessoa. Porque pessoas têm dúvidas, mudam de ideias, dizem asneiras, admitem ignorância, sentem coisas contraditórias. E nenhuma destas características é compatível com a forma como o poder funciona.
Então ou deixas de ter essas características, ou finges tão bem que deixaste de as ter que acabas efectivamente por deixar. De qualquer forma, o resultado é o mesmo: uma pessoa foi evacuada e um protocolo foi instalado no seu lugar.
E o que me assusta não é que isto aconteça. O que me assusta é que aceitamos isto como normal. Até esperamos isto. Um político que admite dúvida é fraco. Um líder que muda de opinião é inconsistente. Um gestor que mostra vulnerabilidade não inspira confiança.
Então treinamo-los para não ter dúvida, para não mudar de opinião, para não mostrar vulnerabilidade. E depois espantamo-nos que se tornem monstros. Ou não monstros — isso seria demasiado dramático e daria demasiado crédito. Tornam-se apenas… vazios. Cascas que falam bem e decidem coisas e não estão realmente vivos de forma reconhecível.
Sobre distâncias
Há uma frase de que gosto, não me lembro onde a li: “A distância entre duas pessoas que falam não é medida em metros mas em palavras honestas.”
Há vinte anos, eu e o meu amigo estávamos fisicamente a um metro um do outro e emocionalmente talvez à mesma distância. Falávamos honestamente dentro dos limites razoáveis de duas pessoas que não são íntimas mas se respeitam.
Há três semanas, estávamos fisicamente a cinquenta centímetros mas emocionalmente em planetas diferentes. Ele falava-me como se eu fosse audiência. Eu tentava falar com ele como se fosse pessoa. E nenhum de nós conseguia realmente chegar ao outro.
Quando saímos do café, ele apertou-me a mão — aquele aperto de mão profissional, firme mas breve — e disse “Temos de repetir isto.” Sorriu. O sorriso estava calibrado para transmitir calor genuíno mas não compromisso real.
Respondi “Sim, temos.” E ambos sabíamos que não íamos repetir.
Fiquei na rua a vê-lo ir embora. Entrou num carro com motorista. O carro arrancou. E pensei: ele vai passar o resto do dia dentro de carros com motorista, a ir de sítio em sítio, a falar com pessoas que também estão dentro das suas próprias bolhas, e nenhuma dessas conversas vai ser real. E ao fim do dia vai para casa, e lá também provavelmente não consegue ser real, porque já não se lembra como se faz.
E não há nada a fazer quanto a isto. Não porque as pessoas más tenham ganho. Mas porque o próprio sistema — a forma como o poder funciona, a forma como as organizações funcionam, a forma como temos de nos comportar para sobreviver dentro delas — requer este sacrifício. Requer que algumas pessoas deixem de ser pessoas para se tornarem símbolos, interfaces, representantes.
E nós, do lado de fora, podemos criticar. Podemos dizer que deviam resistir, manter a sua humanidade, não se deixar corromper. Mas isto é confortável moralismo de quem nunca esteve na posição deles. Porque se estivéssemos, provavelmente faríamos exactamente o mesmo. Não porque somos fracos. Mas porque o sistema não oferece alternativa real.
Uma despedida incompleta
Há uma coisa que queria ter dito naquele almoço e não disse.
Queria ter dito: “Lembras-te quando eras pessoa? Lembras-te de como era pensar um pensamento genuíno? Lembras-te de como era não estar sempre a calcular? Porque eu lembro-me de te ver fazer isso, e gostava de saber se alguma parte de ti ainda se lembra.”
Não disse porque seria cruel. Porque ele provavelmente não se lembra. Ou pior: lembra-se vagamente mas essa memória não se conecta a nada real no seu presente, é apenas um artefacto emocional vago de outra vida.
Em vez disso, comemos bacalhau à Gomes de Sá (que ele mal tocou, porque tinha reunião às três), falámos de coisas que não importavam, e despedimo-nos educadamente na porta.
E agora, três semanas depois, escrevo isto, e não sei bem porquê. Talvez porque acho que ninguém fala sobre isto exactamente desta maneira. Falamos muito sobre corrupção de poder. Sobre políticos que mentem, que roubam, que traem a confiança pública. E isso é importante.
Mas raramente falamos sobre esta outra coisa: a forma como o poder simplesmente evacua as pessoas. Não as corrompe — isso implicaria que ainda lá está alguém para ser corrompido. Simplesmente substitui-as. Instala protocolos onde antes havia pensamento. Instala performance onde antes havia personalidade. E fá-lo tão suavemente, tão gradualmente, que a própria pessoa não percebe quando deixou de ser pessoa.
E talvez isto seja inevitável. Talvez não haja forma de organizar sociedades de milhões de pessoas sem criar estes cargos que requerem este sacrifício. Talvez alguns tenham de deixar de ser pessoas para que o sistema funcione.
Mas se for esse o caso, pelo menos devíamos ser honestos sobre isso. Devíamos dizer aos jovens ambiciosos que querem mudar o mundo: “Sim, podes ter poder. Mas o preço é tu. Não o teu tempo. Não a tua privacidade. Tu. A coisa que agora pensa e sente e duvida. Essa coisa vai ser substituída por uma versão gerível de ti que sabe dizer as coisas certas mas já não sabe pensar coisas reais. Ainda queres?”
Alguns diriam que sim. E isso é legítimo. Mas pelo menos saberiam ao que iam.
Quanto ao meu amigo — se ainda posso chamar-lhe isso —, espero que seja feliz. Ou pelo menos que aquilo que o substituiu seja capaz de sentir algo parecido com felicidade. Mas honestamente não sei se é. Não sei se tem espaço na agenda para emoções que não servem propósito estratégico.
Na próxima vez que virem um político na televisão, ou um CEO numa entrevista, ou qualquer pessoa em posição de verdadeiro poder, façam uma experiência: tentem imaginar o que é estar dentro daquela cabeça. Não os pensamentos oficiais que estão a verbalizar. Mas os pensamentos reais. Os privados. Os não geridos.
Conseguem? Ou é só… vazio? Protocolos a correr? Uma máquina de gerar frases adequadas?
Se for o segundo, não é culpa deles. É só o preço de estarem onde estão.
E se vos assusta — bem, a mim também assusta.
Mas aparentemente é assim que funciona.
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Imagem: by bestjooohn, via pixabay


