Bombardeiros B-52 com o Japão desafiam Pequim

Economia

Elian Morvane
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Elian Morvane é autor e cronista do Arcana News, escrevendo atualmente na Revista Arcana News, sem deixar de colaborar também em peças noticiosas e em leituras estratégicas de política, economia e sociedade.

NOTÍCIA · Mundo · Ásia-Pacífico · Segurança e Defesa

Dois bombardeiros estratégicos B-52 da Força Aérea norte-americana cruzaram na quarta-feira o Mar do Japão em formação com caças japoneses, num exercício que Tóquio apresenta como resposta direta à escalada de pressão chinesa sobre o país e sobre Taiwan.

Dois B-52 dos EUA treinaram com F-35 e F-15 japoneses sobre o Mar do Japão, em plena disputa entre Pequim e Tóquio pelas declarações de Sanae Takaichi sobre Taiwan.

Segundo o Ministério da Defesa japonês, os B-52 voaram escoltados por três F-35 e três F-15 da Força Aérea de Autodefesa. O treino decorreu um dia depois de aviões russos e chineses realizarem uma patrulha conjunta nas imediações das ilhas do sudoeste japonês, numa demonstração de força que Tóquio lê como recado a um aliado central de Washington na Ásia.

Em comunicado, o governo japonês sublinhou que o exercício conjunto visa mostrar a “determinação firme” de Tóquio e Washington em não aceitar alterações unilaterais do statu quo pela força, fórmula que tem sido usada para criticar tanto as movimentações chinesas em torno de Taiwan como as incursões perto das ilhas Senkaku, administradas pelo Japão e reivindicadas por Pequim.

Exercício aéreo de alta visibilidade

O uso de bombardeiros estratégicos, capazes de transportar armamento convencional e nuclear, eleva o sinal político enviado pelos Estados Unidos. Não se tratou de um voo discreto, mas de uma presença cuidadosamente exibida na região, em contraste com o silêncio público que a Casa Branca tem mantido sobre o confronto verbal entre Pequim e a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi.

Analistas em Washington citados pela imprensa internacional sublinham que, mesmo com a prioridade dada por Donald Trump à assinatura de um acordo comercial com a China, o Pentágono procura deixar claro que a aliança com o Japão não é moeda de troca. Para Tóquio, ver bombardeiros americanos lado a lado com caças japoneses significa que, perante a pressão chinesa, não está isolada.

As declarações de Takaichi que irritaram Pequim

A crise começou no início de novembro, quando Takaichi afirmou que um eventual ataque chinês a Taiwan poderia arrastar o Japão para um conflito armado, seja para defesa própria, seja em apoio a aliados como os Estados Unidos.

Pequim considerou as palavras “intoleráveis”, classificou a líder japonesa como um regresso ao militarismo pré-guerra e exigiu uma retratação. Para a China, Taiwan é uma província rebelde e a questão da ilha é assunto interno; qualquer afirmação de envolvimento externo é vista como ingerência.

A própria Tóquio teve de gerir a turbulência. O Wall Street Journal noticiou que, numa conversa telefónica, Trump terá pedido a Takaichi que evitasse provocações a Xi Jinping no dossiê taiwanês, algo que o governo japonês negou. A primeira-ministra afirmou entretanto que as declarações reflectem uma linha de segurança nacional que já existia, apenas raramente explicitada, e recusou revogá-las, embora se tenha comprometido a não as repetir.

Pressão económica e manobras militares chinesas

A resposta chinesa não se tem ficado pelas palavras. Entre as retaliações ameaçadas contam-se restrições a produtos do mar japoneses e avisos aos turistas chineses para evitarem viagens ao Japão, agora justificados também com “riscos sísmicos” após o sismo registado esta semana ao largo da costa nordeste japonesa.

No plano militar, Pequim intensificou as operações nas proximidades do arquipélago. Autoridades japonesas relatam que caças chineses chegaram a apontar o radar de tiro a aviões japoneses enviados para os intercetar, um gesto considerado particularmente agressivo. Navios da Guarda Costeira chinesa e outras embarcações estatais continuam a aproximar-se com frequência das águas em torno das Senkaku.

A patrulha aérea conjunta sino-russa desta semana, que levou bombardeiros dos dois países a sobrevoar as rotas marítimas a sul do Japão, reforçou a sensação em Tóquio de que a aliança sino-russa procura testar os limites de resposta de um aliado americano.

Uma aliança que Washington não quer ver quebrada

Apesar de a atenção da Casa Branca estar centrada nas negociações comerciais com Pequim, vários especialistas recordam que a estratégia declarada de Trump passa por evitar guerras abertas mas preservar a supremacia americana no Indo-Pacífico.

Para William Chou, analista do Hudson Institute, as incursões chinesas, as ameaças económicas e a retórica contra Tóquio mostram que Pequim sente espaço para desafiar a estabilidade regional. O voo dos B-52 com caças japoneses, defende, funciona como lembrete de que o tratado de segurança entre os dois países continua ativo e que a dissuasão não é apenas retórica.

Em Tóquio, o governo procura equilibrar firmeza e prudência: recusa recuar nas declarações de princípio sobre Taiwan e segurança regional, mas sabe que qualquer incidente aéreo ou marítimo pode escalar rapidamente. Do lado chinês, a pressão serve tanto para advertir o Japão como para testar até onde vai a disposição de Washington em mostrar que, no Mar do Japão e em torno de Taiwan, continua presente.

Autor: Arcana News

Imagem: by Renata Meneses, via pexels

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