NOTÍCIA
Dois governadores democratas tomaram, nas últimas semanas, decisões que desafiam o núcleo duro do lobby climático nos EUA, numa altura em que a pressão sobre a fiabilidade energética e o custo da eletricidade se torna politicamente difícil de ignorar.
Democratas americanos recuam em políticas climáticas perante risco de falhas na rede e subida de preços.
Em Nova Iorque, a governadora Kathy Hochul aprovou um novo gasoduto para alimentar Nova Iorque e Long Island — uma infraestrutura que o seu antecessor, Andrew Cuomo, tinha bloqueado por motivos ambientais. A decisão surge após avisos repetidos do operador da rede elétrica de que o Estado pode enfrentar falhas de abastecimento já no próximo verão, devido ao encerramento de centrais nucleares e a gás sem alternativas em tempo útil.
A limitação da capacidade de transporte de gás tem agravado preços e colocado em risco a estabilidade do sistema. Durante a vaga de frio de 2022, Nova Iorque esteve perto de perder pressão no sistema de gás — uma situação que, segundo o regulador federal, poderia ter deixado milhões de consumidores sem aquecimento durante meses. Hochul justificou a aprovação do projeto com “necessidades de segurança energética” e defendeu uma estratégia “all-of-the-above” que combine renováveis, gás e outras fontes.
Ao mesmo tempo, no estado da Pensilvânia, o governador Josh Shapiro recuou da adesão ao Regional Greenhouse Gas Initiative (RGGI), um programa regional que taxava as emissões de CO₂ das centrais térmicas. O recuo ocorreu no âmbito de um acordo orçamental com legisladores republicanos e afasta, para já, a implementação de um sistema que poderia aumentar significativamente os custos energéticos no Estado.
A Pensilvânia tem registado uma subida de 50% nas tarifas elétricas residenciais nos últimos cinco anos — bastante acima da média nacional — e o programa cap-and-tax, segundo várias estimativas, teria adicionado mais 24% a 36% às faturas até 2030. O operador PJM, responsável pela rede elétrica de grande parte do Nordeste, alertou ainda que o encerramento acelerado de centrais fósseis deixaria a região vulnerável a falhas generalizadas como as quase verificadas durante a onda de frio de 2022.
As duas decisões são vistas como sinais de pragmatismo em estados onde a pressão política para garantir energia acessível e fiável se sobrepõe a metas climáticas ambiciosas. Embora continuem a defender transições energéticas graduais, Hochul e Shapiro distanciam-se de uma ala ambientalista que exige cortes rápidos na produção e transporte de combustíveis fósseis.
No plano nacional, o debate reabre fissuras no Partido Democrata: o discurso “all-of-the-above”, outrora dominante entre democratas moderados, tem hoje maior eco entre republicanos. Mas a preocupação crescente com a resiliência da rede elétrica e com o peso da inflação energética está a obrigar governadores democratas a reconsiderar prioridades — especialmente nos estados onde os riscos de apagões ou escalada tarifária já se traduziram em custos políticos noutros ciclos eleitorais.
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