Uma “holding” sem fôlego.
A Impresa, dona da SIC e do semanário Expresso, confirmou que está a negociar a entrada do grupo italiano MediaForEurope (MFE), controlado pela família Berlusconi, no seu capital. O que até há poucos meses era apenas rumor passou a ser assumido oficialmente, revelando não só a urgência da operação, mas também a profundidade da crise que atravessa o conglomerado fundado por Francisco Pinto Balsemão.
O ponto crítico está na própria Impresa SGPS, a holding cotada em bolsa que controla a SIC e a Impresa Publishing. Sem receitas próprias relevantes, vive apenas dos dividendos das subsidiárias. Mas os números de 2024 mostram um quadro de colapso: a sociedade registou perdas superiores a 56 milhões de euros e apresenta um rácio de liquidez imediata quase inexistente — apenas três cêntimos por cada euro de dívida de curto prazo. A erosão do capital próprio e a dependência de financiamento informal junto de acionistas expõem uma estrutura fragilizada, que ameaça perder autonomia perante credores e potenciais investidores.
A SIC endividada para pagar dividendos
O paradoxo é evidente: a SIC, principal geradora de receitas do grupo, continua a apresentar resultados operacionais positivos, mas está a ser forçada a endividar-se para sustentar dividendos que a holding precisa desesperadamente. Em 2024, a estação de Carnaxide apresentou lucros de apenas 4,8 milhões de euros, mas distribuiu dividendos de 8,3 milhões à Impresa SGPS — quase o dobro do que realmente ganhou. A diferença foi coberta através de novas dívidas, agravando a alavancagem e colocando em risco os rácios financeiros da empresa.
Tentativas falhadas e a chegada de Itália
Antes da entrada em cena da MFE, a administração tentou captar capital junto de várias famílias empresariais portuguesas. Pedro Barreto, ex-administrador do BPI, percorreu gabinetes do Porto e de Lisboa em busca de investidores dispostos a injetar cerca de oito milhões de euros cada. O plano falhou. Apenas a família Soares dos Santos chegou a ponderar um investimento de mais de 50 milhões, mas exigia cortes na dívida e maior poder de decisão, condições que a família Balsemão não quis aceitar.
Com a recusa em Portugal, abriu-se a porta ao grupo fundado por Silvio Berlusconi, um gigante europeu que fatura perto de três mil milhões de euros e que mantém uma saúde financeira sólida. Em 2024, a MFE apresentou lucros superiores a 130 milhões de euros e reduziu a sua dívida em mais de 30%. O contraste com a Impresa não podia ser mais evidente.
Uma bomba-relógio acionista
O modelo de cascata acionista que a família Balsemão construiu — Impreger controla a Impresa SGPS, que por sua vez detém a SIC e o Expresso — mostra hoje os seus limites. O sistema depende de dividendos crescentes, mas a capacidade operacional está esgotada. Cortar dividendos significaria asfixiar a holding; manter o fluxo obriga a aumentar dívida, o que ameaça ativar cláusulas contratuais que permitem aos credores exigir reembolsos imediatos.
É este impasse que explica a pressa em fechar um acordo: sem entrada de capital externo, a Impresa corre o risco de perder o controlo financeiro no curto prazo.
Quem ficará a mandar?
A grande incógnita é o desenho final da operação. O comunicado oficial fala numa “participação relevante” da MFE, mas não esclarece se os italianos comprarão diretamente a SIC ou se entrarão no capital da própria Impresa SGPS. Em qualquer cenário, o poder da família Balsemão ficará reduzido, e a questão central passa a ser política e editorial: até que ponto a televisão generalista e o jornal que marcaram décadas de democracia portuguesa estarão condicionados por um grupo estrangeiro com forte tradição política?
Para já, o que está em cima da mesa é mais do que um simples negócio. Trata-se da sobrevivência de um dos maiores grupos de comunicação social do país, cujo destino dependerá, nas próximas semanas, da capacidade de negociar entre urgência financeira e preservação de independência editorial.


