Entre militares, antigos opositores e novas figuras civis, o país procura estabilidade após a queda de Andry Rajoelina.
Madagáscar vive uma das suas fases mais delicadas desde a crise de 2009. Uma semana depois de Herintsalama Rajaonarivelo ter sido nomeado primeiro-ministro da transição, o coronel Michaël Randrianirina — presidente da chamada Refondation de la République — apresentou uma equipa de 29 ministros encarregada de reconstruir um país dividido, empobrecido e exausto de golpes e promessas.
O novo governo combina antigos protagonistas e rostos emergentes da sociedade civil. Entre as figuras mais mediáticas estão Hanitra Razafimanantsoa, antiga opositora e agora ministra de Estado; Christine Razanamahasoa, que regressa às Relações Exteriores depois de ter passado pela Justiça durante a primeira transição; e Fanirisoa Ernaivo, jurista que regressa do exílio em França para assumir a pasta da Justiça. A presença destas três mulheres, com percursos controversos e fortes ligações políticas, simboliza ao mesmo tempo continuidade e tentativa de reconciliação.
O coronel Randrianirina estabeleceu seis prioridades: garantir o acesso à energia e à água potável, reformar a saúde e a educação, gerar emprego para os jovens e relançar a solidariedade nacional. São metas que qualquer programa reformista poderia subscrever — mas que exigem recursos de que o Estado malgaxe dificilmente dispõe.
Na base militar do CAPSAT e nos bastidores de Antananarivo, fala-se de um equilíbrio precário entre generais e civis. O novo executivo surge como produto de uma negociação tensa entre os que derrubaram Rajoelina, os deputados que votaram a sua destituição e os líderes regionais que reclamam influência. Para alguns observadores, trata-se menos de uma “refondation” do que de uma recomposição de forças antigas sob novo nome.
A população, habituada à sucessão de crises, mostra-se cética. Muitos lembram que as promessas de unidade e moralização acompanharam cada viragem política desde a independência. A diferença está na paciência: o novo governo tem apenas dois meses para provar que o país não voltou a entrar no mesmo ciclo de esperança e frustração.
Com finanças públicas debilitadas, uma infraestrutura elétrica em colapso e o regresso das interrupções de energia — causa imediata da queda de Rajoelina —, o desafio será fazer muito com muito pouco. A sociedade civil e a juventude, que pediram nas ruas liberdade e justiça, não estão dispostas a esperar por milagres administrativos.
A “refondation” de Madagáscar será, afinal, o teste mais exigente da sua história recente: saber se um país pode reinventar-se sem repetir os seus fantasmas.
Arcana News, Redação
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