Mamdani toma posse no metro: política no subsolo

Economia

Elian Morvane
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Elian Morvane é autor e cronista do Arcana News, escrevendo atualmente na Revista Arcana News, sem deixar de colaborar também em peças noticiosas e em leituras estratégicas de política, economia e sociedade.

NOTÍCIA · Mundo · EUA · Política Local.

Zohran Mamdani vai tomar posse a 1 de janeiro (e não numa sala nobre, nem num palco de bandeiras, nem numa varanda de discursos), mas no subsolo — na antiga estação de metro da Câmara Municipal de Nova Iorque, a Old City Hall, desativada desde 1945.

A escolha é simbólica e, ao mesmo tempo, cuidadosamente teatral: um lugar fechado ao público há décadas, bonito como uma ideia antiga, e perfeito para dizer — sem o dizer — que a cidade pode voltar a ambicionar obras que mudem a vida de quem trabalha.

A cerimónia, marcada para a noite de passagem de ano, será privada e discreta. (Discreta, pelo menos, na forma: porque, na substância, é um gesto feito para ser visto.)

Estarão presentes apenas a família e alguns conselheiros próximos. A tomada de posse será oficializada por Letitia James, que já reagiu com entusiasmo, sublinhando que o metro “liga todos” e encarna aquilo por que o novo presidente da Câmara diz lutar: uma cidade onde todos possam prosperar. A mensagem, no fundo, é simples: a sua administração quer começar onde a cidade se move — e onde, para muitos, a cidade pesa.

A estação escolhida não é um cenário neutro.

Inaugurada em 1904, faz parte do conjunto das primeiras estações do metro de Nova Iorque (um tempo em que a cidade parecia acreditar que o futuro podia ser construído com pedra, ferro, luz e trabalho).

Mamdani descreveu-a, perante a imprensa norte-americana, como um “monumento físico” a uma cidade que ousava ser bela e fazer “grandes coisas” capazes de transformar a vida dos trabalhadores. (Há aqui uma frase escondida: se antes se construía assim, por que razão hoje nos contentamos com menos?)

Essa escolha encaixa diretamente numa das bandeiras maiores da sua campanha: os transportes públicos gratuitos.

Não é apenas uma promessa de gestão; é uma promessa de desenho social. (E convém notar isto: há promessas que são um número — e há promessas que são uma visão. Esta, pelo menos, tenta ser uma visão.) Fazer a posse no coração subterrâneo do sistema de transporte da cidade é uma forma de declarar prioridade sem abrir um dossier. É dizer “o meu poder começa aqui”, mesmo que, na prática, o poder se exerça depois noutros pisos — os de cima, os do orçamento, os da polícia, os da habitação, os da saúde, os da escola.

Cerca de 13 horas depois da cerimónia na estação, decorrerá a tomada de posse pública em frente à Câmara Municipal. Aí, já com a rua, luz e multidão, a oficialização ficará a cargo do senador Bernie Sanders. Espera-se uma afluência significativa — fala-se em cerca de 40 mil nova-iorquinos. (Quarenta mil é um número. Mas também é uma espécie de barómetro: uma cidade comparece, ou não comparece, quando quer acreditar.)

A Old City Hall, por sua vez, é famosa por duas coisas que se cruzam bem com a política: beleza e inacessibilidade.

Foi encerrada em 1945 porque a sua forma curva deixou de permitir a circulação das novas carruagens.

A engenharia, a modernização, o peso do progresso — tudo isso empurrou a estação para o passado. Hoje, a entrada é permitida apenas em visitas especiais e oficiais. Quem quiser espreitar (como quem vê uma memória passar), consegue fazê-lo ficando no metro da linha 6 depois da última paragem em Brooklyn Bridge, enquanto a composição faz a manobra de retorno. E o que se vê, dizem, não é apenas uma estação: são vitrais coloridos, lustres de bronze e paredes decoradas com azulejos. (Uma estética quase religiosa para um serviço público — como se o quotidiano dos trabalhadores merecesse.)

É por isso que o gesto de Mamdani funciona em vários níveis ao mesmo tempo. Por um lado, é um aceno à história material da cidade: um tempo em que o investimento público era, além de útil, ambicioso e, por vezes, belo. Por outro, é um recado político contemporâneo: a infraestrutura não é um assunto técnico; é um projeto de igualdade ou de desigualdade, dependendo de como se faz e de para quem se faz. E, por fim, é uma coreografia mediática. (Porque hoje a política também se governa com imagens: ou as cria, ou fica refém das dos outros.)

A presença de Letitia James na cerimónia privada e a de Bernie Sanders na cerimónia pública também não são detalhes de agenda; são sinais. Um, mais institucional, mais jurídico, mais “ordem do Estado”. Outro, mais ideológico, mais mobilizador, mais “rua”. (E o novo presidente parece querer começar com as duas chaves no bolso: a do sistema e a do movimento.)

O que fica por ver é o que acontece depois do simbolismo: se a estação antiga serve apenas para a fotografia e para o discurso, ou se será realmente o início de uma agenda onde os transportes públicos deixam de ser um custo inevitável e passam a ser — como prometeu — uma ferramenta de justiça social. Porque há uma diferença grande entre escolher um lugar que representa “uma cidade que ousava” e conseguir, no presente, fazer com que a cidade volte a ousar sem se partir ao meio.

Por agora, a tomada de posse faz-se no subsolo, com vitrais e bronze, num espaço fechado desde 1945. É uma forma de dizer que a cidade não começa no gabinete — começa na deslocação diária, na escada, no cais, no atraso, na fila, na carteira que não chega para tudo. (E talvez seja isso que torna o gesto eficaz: não é um luxo; é uma lembrança de que a política, se quiser ser séria, tem de começar onde as pessoas estão.)

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Imagem: by, Nout Gons via pexels


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