Documento do GPIAAF revela desconformidades no cabo e deficiências nos procedimentos da Carris. Entidade recomenda que os ascensores de Lisboa permaneçam suspensos até nova avaliação técnica.
Lisboa — 20 de outubro de 2025
O relatório preliminar do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF), divulgado esta segunda-feira, confirma falhas graves na manutenção do Elevador da Glória e a existência de tarefas de inspeção falsamente registadas. O documento indica que as operações de segurança reportadas pela Carris nem sempre correspondiam às tarefas efetivamente realizadas, e que alguns procedimentos críticos foram executados de forma não padronizada e sem supervisão adequada.
O relatório, que analisa o descarrilamento ocorrido a 3 de setembro e que causou 16 mortos e dezenas de feridos, destaca que as inspeções previstas para o dia do acidente e para o anterior foram dadas como concluídas, mas as evidências recolhidas não comprovam o período de tempo registado nas folhas de trabalho.
Além disso, o cabo de tração utilizado não cumpria as especificações técnicas exigidas pela Carris, nem estava certificado para o transporte de pessoas. Apesar disso, cabos idênticos estiveram em uso durante mais de 600 dias nos ascensores da Glória e do Lavra sem incidentes, o que impede, por agora, a determinação do seu papel direto no acidente. O GPIAAF sublinha que “a zona onde o cabo rompeu não era passível de inspeção visual sem desmontagem”, tornando impossível detectar antecipadamente sinais de anomalia.
Manutenção sem formação técnica nem supervisão efetiva
A manutenção do elevador da Glória é assegurada, há mais de 20 anos, por um prestador de serviços externo contratado pela Carris. Desde 2019, a empresa opera com uma equipa de apenas cinco técnicos, cujo processo de formação é baseado quase exclusivamente em transmissão prática de conhecimento entre colegas, sem formação teórica ou certificação específica sobre funiculares.
O relatório sublinha que os procedimentos técnicos da Carris não são atualizados há vários anos e que o prestador de serviços não dispõe de engenheiros especializados capazes de rever ou adaptar as normas à realidade atual da operação. A ausência de um corpo técnico próprio levou a que a supervisão se limitasse à fiscalização da Carris, sem acompanhamento direto sobre a execução das tarefas.
O sistema de qualidade do prestador, por sua vez, não garante a identificação de fragilidades nem promove a melhoria contínua. Está centrado em aspetos de higiene e segurança no trabalho, negligenciando a gestão de riscos técnicos e a análise de fiabilidade do equipamento.
Cabo irregular e ausência de certificação
Os peritos identificaram ainda que o cabo de tração e equilíbrio não respeitava os critérios da Carris para o ascensor e não estava certificado para uso em transporte de passageiros. Também não era adequado ao sistema de destorcedores existente.
Embora a rotura tenha ocorrido após 337 dias de utilização, os investigadores consideram que a falha do cabo resultou de uma acumulação de fatores mecânicos e de gestão, e não apenas do material utilizado.
Uma análise macroscópica das extremidades do cabo revelou roturas progressivas e múltiplos tipos de fratura, que indicam uma degradação gradual ao longo do tempo. O GPIAAF espera que as perícias metalográficas em curso esclareçam as causas concretas da rutura.
Cenário do acidente e dados técnicos
No momento do acidente, as duas cabinas transportavam 60 pessoas no total — 27 na cabina superior e 33 na inferior —, valores abaixo da lotação máxima de 42 passageiros por veículo.
Os ascensores haviam realizado 53 viagens nesse dia, com uma velocidade estimada de impacto entre 41 e 49 km/h. O choque entre as cabinas ocorreu 33 segundos após o início da preparação para a viagem e 20 segundos depois de iniciado o movimento.
Ambos os veículos estavam equipados com quatro câmaras de vigilância e sensores de aceleração, o que permitiu reconstituir com precisão a sequência de eventos.
Carris poupou 600 mil euros em manutenção
O relatório aponta ainda que, entre 2021 e 2023, a Carris reduziu cerca de 600 mil euros em custos de manutenção, uma poupança que, segundo o GPIAAF, poderá ter comprometido a robustez do sistema de segurança.
As deficiências detetadas incluem falhas de inspeção, ausência de controlo interno e documentação incongruente com a execução real dos trabalhos.
Recomendações imediatas do GPIAAF
O GPIAAF recomenda que os ascensores da Glória e do Lavra permaneçam suspensos até que uma entidade especializada em funiculares realize uma reavaliação completa das fixações dos cabos, travões e componentes estruturais.
A Carris deve ainda rever o seu sistema interno de gestão de segurança e aquisição de componentes, assegurando conformidade com o normativo europeu.
Entre as recomendações dirigidas ao Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT), o relatório propõe a criação de um novo quadro legislativo e técnico para garantir que todos os sistemas históricos de transporte público — como elétricos e funiculares — cumpram regras equivalentes às aplicadas noutros países da União Europeia, sob supervisão independente.
Impacto e enquadramento
O acidente do Elevador da Glória é considerado o mais grave da história recente dos transportes urbanos portugueses. A dimensão das vítimas — 16 mortos e mais de 20 feridos, incluindo turistas — coloca sob escrutínio as práticas de manutenção de património histórico classificado e a responsabilidade de gestão da Carris como operadora pública.
A investigação continua em curso. As conclusões finais deverão ser publicadas nos próximos meses.
Ficha técnica
Redação Arcana News
Com base em relatório preliminar do GPIAAF — Relat_Prelim_Inv20250903_v1.0pub


