Três lajes de pedra na Catedral de Cantuária guardam a lista de todos os arcebispos desde Agostinho, no ano 597.
Durante catorze séculos, um pedreiro gravou nomes de homens. Em janeiro deste ano, dois meses antes da cerimónia de instalação, um pedreiro gravou um nome diferente. O ato em si — cinzel, pedra velha, nome novo — é provavelmente o momento mais honesto de toda esta história. Sem câmaras, sem sermão, sem orquestra. Apenas a resistência do mármore.
Na quarta-feira, 25 de março de 2026, Sarah Elisabeth Mullally, 63 anos, foi entronizada arcebispo de Cantuária. Houve cajado e mandato real e cadeira gótica e príncipes e coro africano e rezas em Urdu. E houve — neste detalhe que os relatos quase não mencionam — crianças de escolas locais que abriram a Porta Oeste da catedral quando a arcebispo bateu três vezes. A instituição mais antiga do protestantismo anglófono pediu entrada. Uma criança abriu a porta.
Há algo nessa imagem que resiste à celebração fácil.
*
A questão óbvia sobre Sarah Mullally é: porque é que demorou tanto.
A Igreja de Inglaterra ordena mulheres sacerdotes desde 1994, bispos desde 2014. O arcebispado de Cantuária era o teto que faltava. Mullally quebrou-o. O argumento estava feito há décadas; faltava apenas o momento e a pessoa.
Mas a questão mais interessante é outra: que Igreja é esta que a recebe.
A Comunhão Anglicana é uma confederação de 85 milhões de pessoas em 165 países. O seu centro de gravidade mudou. A maioria dos anglicanos vive hoje em África, partes da Ásia e América Latina. As congregações em Inglaterra — o país onde a Igreja nasceu, o país cuja monarquia a lidera nominalmente — são menores do que eram antes da pandemia. A trajetória é conhecida, e não é ascendente.
Mullally torna-se arcebispo de uma Igreja que encolhe em casa. E torna-se líder espiritual de uma Comunhão cuja maioria não a elegeu, não seria capaz de a eleger, e em muitos casos não aceita os princípios que a sua nomeação representa.
*
Quando a nomeação foi anunciada, uma aliança conservadora de anglicanos — com peso sobretudo em África — declarou “tristeza” e reiterou que a Bíblia exige um episcopado exclusivamente masculino. Não foi uma voz marginal. Foi a expressão de uma tensão que divide a Comunhão Anglicana há mais de duas décadas: o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a ordenação de mulheres e de pessoas LGBTQ+ são linhas de fratura entre o Norte progressista e o Sul que não reconhece nessa progressão uma virtude.
Clube de Leitura Arcana
Grátis: leitura integral disponível.
O registo é gratuito, não exige dados de pagamento e após validação dá acesso imediato à leitura integral dos textos antigos e futuros no Arcana News.
O predecessor de Mullally, Justin Welby, resignou no final de 2024 por causa do modo como a Igreja tratou um escândalo de abuso sexual. Mullally herda uma instituição fragilizada nos dois flancos: em crise moral em Inglaterra, em crise de coesão no resto do mundo.
O que a cerimónia da quarta-feira celebrou — com toda a sua pompa deliberadamente multicultural, com as rezas em língua Bemba da Zâmbia, com o Evangelho em espanhol, com o Coro Africano de Norfolk — foi também uma tentativa de representar uma unidade que não existe. A diversidade encenada é, em si mesma, um diagnóstico.
*
Há um paralelismo histórico que Lisboa conhece melhor do que a maioria.
Durante séculos, Portugal governou um império espalhado por quatro continentes a partir de uma cidade pequena à beira de um estuário. As decisões tomavam-se em Lisboa; as consequências viviam-se noutro lado. Quando o império acabou — de forma violenta, tardia, e sobretudo mal gerida — ficou a questão de como uma instituição construída para ser centro se reconstrói sem a periferia que a tornava centro.
A Igreja de Inglaterra não perdeu um império político. Mas a Comunhão Anglicana que criou moveu-se para longe da sua tutela. O anglicanismo africano não precisa de Cantuária para crescer. Cresce apesar de Cantuária, às vezes contra ela. Mullally torna-se chefe espiritual de uma comunhão onde a maioria discorda das suas posições fundamentais — sobre género, sobre sexualidade, sobre o que a Bíblia autoriza.
Não é um problema administrativo. É uma contradição existencial que nenhuma arcebispo, homem ou mulher, progressista ou conservadora, consegue resolver por decreto ou por sermão.
Leitura integral disponível.Este artigo apresenta um excerto. A versão completa está disponível após entrada gratuita.
O registo é gratuito, não pede dados de pagamento, e dá acesso imediato à leitura integral deste texto e dos futuros no Arcana News.
Entrar (se já tem conta) · Criar conta (gratuito)


