Notícias, análises e ensaios sobre a história de Portugal e do mundo. Aprofunde acontecimentos, figuras e contextos que ajudam a compreender o presente à luz do passado.
António Lobato resistiu sete anos e meio numa prisão da Guiné-Conacri. Uma operação secreta libertou-o. Depois, o Estado Novo mandou-o contar uma fuga que nunca aconteceu.
A Nova Inglaterra calvinista, a Virgínia anglicana, a Maryland católica, a Pensilvânia quaker: as treze colónias nasceram de tradições religiosas rivais entre si. É essa diversidade, gerida também em plena guerra da independência, que explica a cláusula constitucional que proíbe qualquer teste religioso para cargos públicos.
Os Estados Unidos celebram o 4 de Julho, mas a independência foi votada a 2. Entre Boston, Filadélfia, Lexington e a Carolina do Sul, seis lugares decidiram, por via política e pela força das armas, a separação de treze colónias de uma coroa a quase seis mil quilómetros de distância.
A memória histórica europeia já não pertence apenas aos arquivos. Está nos manuais escolares, nos museus, nas datas oficiais e nas disputas políticas. A forma como a Europa ensina o passado tornou-se uma questão democrática.
A História como tecnologia de poder mostra como a disciplina, o arquivo, a memória, a escrita, os símbolos e a narrativa organizam a autoridade política muito antes de se tornarem interpretação do passado.
Em 2013, a Síria declarou à OIAC ter destruído a totalidade dos seus stocks de armas químicas. Em março de 2017, a bomba M4000 foi utilizada em ataques com sarin em Latamné. A confirmação institucional chegou em abril de 2020. O que o intervalo revela não é uma falha de procedimento. É o limite estrutural de qualquer regime de verificação que depende da cooperação do Estado que está a ser verificado.
Em 2007, a China aprovou legislação que subordina ao Estado todas as reencarnações de líderes budistas em território chinês. Um partido que nega vidas anteriores exige o monopólio sobre a sua autenticação. A eficácia da resposta tibetana depende de uma variável que nenhuma declaração institucional controla: se os governos que hoje rejeitam interferência estatal sustentarão essa posição quando confrontados com o candidato concreto e os custos de uma rutura com Pequim.
Weiquan significa "defender direitos". Em dicionários japoneses aparece em katakana com uma definição correcta e inteiramente alheia ao que a palavra pesa — os escritórios invadidos, as licenças revogadas, a contracção de quem a ouve num sítio errado. A tradução fez o que as traduções fazem: transferiu o conteúdo semântico e deixou na fronteira o peso contextual que não tem equivalente. O que ficou intraduzível não era excesso. Era o núcleo.
Em 1559, a Igreja publicou uma lista de livros proibidos. Não era um acto de obscurantismo isolado: era o reconhecimento de que a prensa de Gutenberg tinha redistribuído o controlo sobre o conhecimento escrito de forma que nenhuma instituição conseguia reverter. A história da escrita não é uma progressão de liberdade. É uma sequência de monopólios — cada um deles contestado pela ferramenta seguinte.
Na noite antes da Páscoa, em igrejas por toda a América, adultos que nunca foram baptizados vão dobrar os joelhos sobre pedra fria e receber água sobre a cabeça. Receberão depois uma vela acesa. A cerimónia é a mesma há dezasseis séculos. Este ano, o número de pessoas que a pede é o mais alto em décadas. A Igreja não sabe bem explicar porquê. A resposta está provavelmente fora da Igreja.