CONTEXTO · Segurança · Europa · Ciberespionagem / China / NATO
O relatório anual do serviço de informações militares holandês, publicado em abril de 2026, contém uma afirmação que não passou despercebida aos analistas de segurança europeus: as capacidades de ciberespionagem chinesas são agora tão sofisticadas quanto as dos Estados Unidos. A formulação é do vice-almirante Peter Reesink, diretor do MIVD. Não é uma avaliação de um serviço periférico — a Holanda é um dos países europeus mais consistentemente diretos nas suas avaliações públicas de ameaças de Moscovo e Pequim.
Europa entre duas ameaças.
O que o relatório documenta não é apenas uma mudança de escala. É uma mudança de categoria.
Duas ameaças, dois tempos
O relatório do MIVD mantém a Rússia no topo da hierarquia de ameaças à segurança europeia — a maior e mais direta ameaça à paz e estabilidade do continente. A formulação é consistente com avaliações anteriores e com a posição da maioria dos serviços de informações europeus. O que muda é o que está a acontecer em paralelo.
A China opera num registo diferente. Não posiciona forças junto às fronteiras europeias. Não tem reivindicações territoriais sobre países da NATO. O que tem é um programa de ciberespionagem dirigido às indústrias de defesa ocidentais — focado na obtenção de tecnologia e na identificação de vulnerabilidades — e uma cooperação crescente com a Rússia que o relatório descreve como tendo aprofundado ao longo do último ano.
A distinção entre as duas ameaças é real e tem consequências para a forma como cada uma deve ser gerida. A ameaça russa é direta, territorial, e opera num horizonte temporal que o relatório quantifica: Moscovo poderia estar preparada para um conflito militar com a NATO dentro de um ano após o fim das hostilidades na Ucrânia. A ameaça chinesa é estrutural, tecnológica, e opera num horizonte mais longo — a acumulação de conhecimento sobre vulnerabilidades e capacidades ocidentais que só produz efeitos visíveis quando e se for utilizada.
O problema não é que a Europa não reconheça nenhuma das duas. É que reconhece uma muito melhor do que a outra.
O défice de perceção europeia
O relatório do MIVD coloca a Europa numa posição incómoda: o seu próprio serviço de informações militares descreve a ciberespionagem chinesa como operando ao nível dos EUA em sofisticação, e a cooperação Rússia-China como um fator que amplifica a ameaça russa. A posição média europeia não acompanha esta avaliação.
Analistas ouvidos na sequência da publicação do relatório descrevem a Europa como anos atrás de aliados como o Japão e a Austrália na avaliação da ameaça chinesa. O foco continua predominantemente na Rússia. A China é tratada, na maior parte das capitais europeias, como uma ameaça indireta — relevante para aliados do Indo-Pacífico, gerível através de instrumentos económicos e diplomáticos no contexto europeu.
Esta assimetria de perceção tem uma lógica própria. A Europa tem fronteira com a Rússia — ou com países que a têm. Não tem fronteira com a China. A ameaça russa é mensurável em divisões, aeronaves e mísseis. A ameaça chinesa é mensurável em acessos não autorizados a sistemas, em propriedade intelectual extraída, em vulnerabilidades mapeadas que ainda não foram exploradas. Uma é visível no noticiário. A outra raramente aparece antes de produzir efeitos.
O relatório holandês nomeia explicitamente um fator adicional: as fraturas na relação entre os EUA e a Europa no último ano aumentaram a exposição europeia a ameaças de segurança. A lógica é direta — uma Europa com menor certeza sobre o compromisso americano com a sua defesa coletiva é uma Europa com maior necessidade de capacidades de avaliação e resposta próprias. E é também uma Europa com menor acesso à partilha de informações de um aliado que tem, historicamente, uma visão mais desenvolvida da ameaça chinesa.
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O que a cooperação Rússia-China acrescenta
O relatório do MIVD identifica a cooperação entre Moscovo e Pequim como um fator que amplifica a ameaça russa — não apenas como dado de relacionamento bilateral, mas como elemento com consequências operacionais para a segurança europeia.
O Exército de Libertação Popular tem interesse na experiência de combate russa na Ucrânia — no que funcionou, no que falhou, e no que a guerra moderna em território europeu exige em termos de doutrina, logística e capacidade de degradação de sistemas de defesa. A Rússia beneficia de exportações chinesas que sustentam a sua indústria de armamento num contexto de sanções ocidentais. A relação não é simétrica nem isenta de tensões próprias, mas produz, para cada uma das partes, algo que não teriam sem ela.
Para a Europa, a cooperação Rússia-China significa que as duas ameaças — a direta e a estrutural — não são independentes. Uma Rússia com acesso a componentes e tecnologia chinesa é uma Rússia com maior capacidade de sustentar o esforço militar. Uma China com acesso à experiência de combate russa é uma China com melhor compreensão de como as forças armadas ocidentais respondem sob pressão real. O relatório do MIVD afirma que a Rússia pode contar com a China como aliada. Essa frase, num documento de avaliação de informações militares, não é retórica.
O que o relatório holandês representa no contexto europeu
A Holanda tem sido, nos últimos anos, um dos países europeus mais diretos nas suas avaliações públicas de ameaças — tanto russas como chinesas. O relatório do MIVD não é o primeiro documento europeu a sinalizar a sofisticação crescente da ciberespionagem chinesa, mas é um dos mais explícitos na equiparação das capacidades chinesas às americanas.
Essa explicitidade tem um custo político próprio. A China é um parceiro comercial relevante para a maioria dos países europeus. A tensão entre interesses económicos e avaliações de segurança não é nova — é a razão pela qual analistas descrevem a Europa como ainda a ver oportunidades económicas na China como sobrepondo-se a preocupações de segurança. O relatório do MIVD não resolve essa tensão. Torna-a mais difícil de ignorar.
O diretor do MIVD declarou que a Europa é vulnerável e que nem sempre consegue ver todas as ameaças que a China produz. A formulação é incomum para um documento de avaliação pública — é uma admissão de limite de capacidade, não apenas uma descrição de ameaça externa. O que Reesink está a dizer, nas entrelinhas, é que o problema não é só o adversário. É também a capacidade europeia de o ver com clareza suficiente para responder antes de os efeitos se tornarem visíveis.
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