Linha editorial: ANÁLISE · Guerra da Ucrânia · Rússia · IA Militar
Num momento que nenhuma câmara filmou, algures sobre território ucraniano, um operador russo de drone carregou numa tecla. O Lancet já estava em voo, já tinha o alvo enquadrado, já estava na fase terminal da aproximação. O que o operador fez foi soltar o controlo. Ativou uma função que os técnicos da empresa chamam “Ira” — e que, segundo a sua descrição posterior, simplesmente “toma conta e faz o trabalho.”
Nos segundos seguintes, se o relato corresponde ao que o hardware sugere, nenhum humano conduziu o engenho. Não se trata apenas de engenharia militar: trata-se de perceber como a adaptação, o custo e a escala passaram a fazer parte do mesmo método.
Como é que a Rússia constrói drones autónomos baratos em escala
Uma rede neuronal treinada em padrões de contraste e movimento terá decidido o ângulo de impacto — ou algo próximo disso, num processo que não deixa registo acessível.
O nome civil do software é IRRA.
Serve para monitorizar infraestruturas energéticas, detectar anomalias térmicas em pipelines, identificar hotspots em incêndios florestais.
A mesma coisa que guia um drone de inspecção ao longo de uma linha de alta tensão parece guiar agora um engenho explosivo para o compartimento de munições de um veículo blindado.
Se o código foi modificado para uso militar, ninguém o confirmou publicamente.
A hipótese de que não precisou de o ser é, ela própria, o que torna o caso perturbador.
A narrativa dominante sobre inteligência artificial e guerra imagina laboratórios, supercomputadores, físicos doutourados a resolver problemas de alinhamento, uma competição entre grandes potências onde vence quem tiver mais capacidade de computação e mais talento recrutado nas melhores universidades.

Faz sentido se se olhar para a guerra como extensão da política de investigação e desenvolvimento. Não faz sentido se se olhar para o que está a acontecer num raio de cinquenta quilómetros à volta de Bakhmut.
O que está a acontecer é uma experiência evolutiva em tempo real. A pressão de seleção é simples e brutal: o que não funciona mata quem o usa, o que funciona é copiado antes de a semana acabar.
Num ambiente assim, a elegância técnica é um luxo que ninguém pode pagar — e essa inversão está a reescrever silenciosamente o que significa desenvolver armamento autónomo.
O Molniya — relâmpago, em russo — nasceu numa garagem. Não metaforicamente. Foi desenhado e montado por engenheiros voluntários civis que trabalhavam fora de qualquer estrutura formal de defesa, sem orçamento de estado, sem cadeia de aprovisionamento garantida, sem contrato com o Ministério da Defesa.
O primeiro protótipo custou o equivalente a trezentos dólares. Espuma rígida, contraplacado, motor eléctrico, electrónica disponível em qualquer fornecedor de robótica civil.
A premissa era fazer um drone de asa fixa barato, de longo alcance, simples o suficiente para ser produzido em massa sem depender de componentes que as sanções podiam cortar. Mesmo nesta plataforma elementar havia um guia autónomo.
Os ucranianos tinham melhorado sistematicamente os sistemas de interferência de sinal ao longo de 2023 e 2024, forçando os operadores russos a enfrentar janelas de comunicação cada vez mais curtas e imprevisíveis.
Quando o sinal é cortado, o drone tem de saber o que fazer.
A solução foi uma rede de visão computacional treinada para identificar objectos em movimento por contraste visual — nada mais do que isso. Se a comunicação falha na fase terminal, o sistema continua sem o operador. E a fase terminal é precisamente quando a interferência electrónica é mais intensa.
Em Setembro de 2025, num único mês, foram registados aproximadamente dois mil e duzentos lançamentos de Molniya-2.
No mesmo período, cerca de quatrocentos lançamentos de Lancet — que custa por volta de cinquenta mil dólares por unidade.
O Molniya com óptica melhorada e conectividade por satélite fica em cinco mil.
Os números de lançamento decorrem directamente desta diferença.
A Rússia tem uma empresa chamada Kronshtadt Group que, durante anos, publicou apresentações impressionantes sobre drones de longo alcance com decisão assistida por IA, conceitos de enxame, sistemas de consciência situacional por realidade virtual.
Em 2021, o seu diretor executivo descreveu o Orion como estando em desenvolvimento faseado de capacidades autónomas.
Nas exposições de defesa, maquetas de sistemas de controlo de enxames capazes de coordenar dez plataformas em simultâneo, com redistribuição dinâmica de tarefas durante o voo e transferência de liderança entre unidades quando uma é abatida.
Em Agosto de 2025, analistas do setor descreviam a Kronshtadt a caminho da falência.
Dívidas, fornecedores com ações judiciais, investidor desaparecido.
Os drones Orion continuavam a ser abatidos sobre a Ucrânia sem evidência de manobras evasivas, sem protecção activa.
Análises técnicas de exemplares recuperados pelas forças ucranianas revelaram dependência extensa de componentes comerciais americanos e ausência das capacidades de computação de bordo necessárias para processamento de IA em tempo real.
O fosso entre o que a empresa dizia e o que o sistema fazia era verificável em cada intercepção.
O que separa a Kronshtadt do Molniya não é a tecnologia disponível.
A Kronshtadt desenvolveu sistemas em ciclos longos, dentro de estruturas formais de aquisição, com contratos estatais como única receita, sem validação em combate real antes da produção em série.
O Molniya foi testado na frente antes de receber financiamento estatal — primeiro provar que funciona sob interferência e desgaste reais, depois produzir em massa.
O Estado russo, centralizador por reflexo, descobriu empiricamente que não consegue inovar em condições de guerra através das suas estruturas habituais. Não ajustou a doutrina. Absorbeu o que os voluntários produziam e pagou a conta. Deste modo, a inovação em autonomia de combate migrou para fora do complexo militar-industrial formal.
O Estado, em vez de recuperar o controlo, aprendeu a financiar a improvisação de outros.
Os manuais de aquisição de defesa não tinham esta página.
A guerra de drones na Ucrânia criou condições de selecção com características muito específicas.
Os drones demasiado caros não podem ser usados em volume suficiente para saturar as defesas.
Os que dependem de comunicação por rádio são vulneráveis a interferência.
Os que requerem operadores altamente treinados criam um gargalo de pessoal que não resiste a baixas altas.
Os que têm ciclos de desenvolvimento longos chegam ao campo com especificações desactualizadas.
O que fica é barato o suficiente para ser consumível, robusto o suficiente para funcionar quando as comunicações colapsam, simples o suficiente para ser modificado com base no que aconteceu na semana anterior.
A IA que prospera aqui não tem nada a ver com os debates de alinhamento que ocupam as conferências de segurança em São Francisco. É visão computacional a correr num chip de quarenta dólares, treinada para distinguir um veículo em movimento do fundo por contraste de luminosidade, capaz de guiar um engenho explosivo sem intervenção humana nos últimos trinta segundos de voo — exactamente os trinta segundos em que a interferência electrónica é mais provável.
O V2U leva isto ao limite.
As versões interceptadas em Outubro e Novembro de 2025 não tinham modem. Nenhum componente de comunicação de qualquer tipo — ausência deliberada, segundo a análise técnica ucraniana, não omissão de custo.
As versões anteriores, de Junho e Julho, ainda tinham modems LTE. Sem modem, não existe sinal para interferir. O drone navega por altímetro laser e perfis de terreno pré-carregados, mantém voo rasante sem GPS, procura alvos com uma rede neuronal que corre localmente, sem ligação a servidor externo.
Quando um grupo de sete V2U detecta concentração de veículos, forma aparentemente um padrão circular de espera antes de iniciar ataques.
A hipótese mais consistente com as imagens recuperadas é que os drones identificam os outros elementos do grupo através de marcações visuais nas asas, lidas pelas câmaras de bordo — uma solução que eliminaria a dependência do espectro eletromagnético cortando simplesmente essa dependência da equação. É uma inferência, não uma confirmação. É também a que melhor explica o comportamento observado.
Isto aconteceu entre Junho e Novembro de 2025. De 705 componentes de hardware relevantes para IA identificados em sistemas não tripulados russos recuperados — processadores, memória, sensores — empresas com sede nos Estados Unidos são responsáveis por aproximadamente 69% da memória, 57% dos processadores e 38% dos sensores.
A China, que ocupa o centro da narrativa pública sobre fornecimento de tecnologia dual-use à Rússia, contribui com menos de 9% dos componentes de IA relevantes e não figura entre os principais fornecedores de hardware de computação de bordo.
A Suíça fornece mais de um quinto dos processadores recuperados.
Os Países Baixos, cerca de 8%.
O Japão concentra-se em sensores, com mais de 15% do total nessa categoria.
O módulo Nvidia Jetson Orin encontrado num V2U.
O Jetson TX2 encontrado num ZALA 421-16E.
Hardware feito para robótica autónoma, condução assistida, visão computacional industrial — não para data centers de treino de modelos de linguagem, não para os grandes clusters que os controlos de exportação foram desenhados para restringir. O Jetson Orin não é o H100. Encontra-se em distribuidores de electrónica especializada, em kits de desenvolvimento para engenheiros de robótica, em plataformas de prototipagem académica.
O seu controlo de exportação é categoricamente diferente — e essa diferença é por onde passa a autonomia de combate russa.
As sanções foram concebidas para um modelo de inovação específico: laboratórios centralizados, grandes clusters de computação, treino de modelos de fronteira que requerem hardware cuja visibilidade torna o rastreio possível. Afectam esse modelo.
A autonomia que está a ser usada em escala na Ucrânia foi construída com outra coisa — chips que equipam câmaras de segurança, sistemas de condução assistida, drones de inspecção industrial. Restringi-los implicaria cortar a maior parte da electrónica que equipa hospitais, aeroportos, fábricas e automóveis em todo o mundo. Não é uma opção política realista. E todos os que desenharam o regime de sanções sabiam-no.
As escolas privadas de drones russas são uma das histórias mais funcionalmente reveladoras desta guerra.
Nasceram porque o Ministério da Defesa não conseguia treinar operadores suficientemente depressa, com currículos suficientemente atualizados, com hardware suficientemente próximo do que estava a ser usado na semana anterior na frente.
A burocracia militar tem ciclos de aprovação de currículo que se medem em meses.
A guerra electrónica evolui em dias.
O Projecto Arcanjo — fundado em 2022 por um empresário chamado Mikhail Filippov — estabeleceu centros de treino em vinte cidades russas e em territórios ocupados da Ucrânia. Cursos de dois a três meses. Currículo actualizado com base em relatos directos de operadores na frente — não em relatórios filtrados por cadeia de comando, mas em contacto directo entre instrutores e combatentes com experiência recente.
Quando um novo sistema de interferência ucraniano começa a ser eficaz, as contramedidas entram no currículo em semanas.
Os instrutores usam nas sessões práticas o Kvadrosim para operação e intercepção de drones, o complexo Glaz/Groza para coordenação de reconhecimento e ataque — as mesmas ferramentas que os operadores vão encontrar na frente.
Em Agosto de 2025, o Projecto Arcanjo formalizou uma parceria com o Grupo Kalashnikov para avaliar e seleccionar designs de drones submetidos por desenvolvedores independentes para produção em série. Escola, laboratório de validação e canal de aprovisionamento, tudo no mesmo sítio.
Esta velocidade não é replicável internamente por forças armadas convencionais.
As estruturas que tornam um exército fiável em tempo de paz — cadeia de comando, ciclos de aprovação, contratos plurianuais, manuais de instrução sujeitos a revisão formal — são optimizadas para previsibilidade, não para improviso contínuo.
O Ministério da Defesa russo reconheceu a limitação e respondeu institucionalizando a relação com quem a tinha contornado por conta própria.
Criou o Centro Rubicon em Agosto de 2024 a partir de unidades de voluntários já validadas em combate.
Em Dezembro do mesmo ano estabeleceu formalmente as Forças de Sistemas Não Tripulados com o Rubicon como formação principal.
O resultado não foi planeado por ninguém.
O Estado com capacidade de financiamento e produção em massa, acoplado a uma rede descentralizada de civis com velocidade que a burocracia não tem, ligados por fluxos de informação que funcionam porque ninguém tem incentivo para os bloquear.
A fronteira entre civil e militar tornou-se permeável de formas que nenhum manual de aquisição de defesa tinha previsto — e que nenhum adversário replica por decreto, porque não é uma política. É o resultado de uma falha institucional que foi aproveitada em vez de resolvida.
Há uma tentação de ler isto como prova de que a Rússia está a vencer a corrida à IA militar, de que as sanções falharam por completo, de que o Ocidente subestimou o adversário de forma decisiva.
A tentação é compreensível e em parte justificada. Mas esconde o que é mais difícil de aceitar.
O Molniya não é o produto de uma visão de longo prazo sobre o futuro da guerra autónoma. É o produto de engenheiros que precisavam de um engenho de ataque barato que funcionasse quando a interferência cortasse o sinal, que tinham acesso a ferramentas de código aberto e electrónica comercial, e que não precisavam de autorização para experimentar.
A autonomia que produziram é letal, construída à pressa, com componentes de quarenta dólares, por pessoas que resolviam um problema concreto sem ambição de fazer história.
O grau de sofisticação deixou de ser a pergunta relevante — porque o que esta guerra demonstra é que a barreira de entrada para autonomia de combate funcional é muito mais baixa do que a maior parte das análises assumia.
Não se precisa de um laboratório nacional de IA.
As ferramentas de visão computacional estão disponíveis em código aberto.
Os modelos pré-treinados estão disponíveis para download.
Os componentes chegam por encomenda postal de distribuidores que vendem para robótica académica e industrial.
Nenhum regime de sanções fecha estes canais sem fechar simultaneamente a maior parte da electrónica civil que equipa o mundo desenvolvido.
A distância entre um sistema de visão computacional para inspeção de pipelines e um sistema de guiamento para engenho explosivo é uma linha de código e uma decisão de emprego.
O software que detecta anomalias térmicas numa linha de alta tensão e o software que guia um Lancet para o compartimento de munições de um tanque podem ter o mesmo nome. Podem chamar-se Ira. O operador que carregou na tecla não estava a fazer história. Estava a fazer o que o sistema lhe permitia fazer, com o hardware que tinha disponível, no momento em que a interferência era mais provável.
A tecla existia porque um engenheiro civil tinha escrito o código, um voluntário tinha montado o hardware, o Estado tinha financiado a produção em série, e os componentes tinham chegado por cadeias de aprovisionamento que os controlos de exportação não alcançaram. Neste momento, sobre outro ponto da frente, outro operador está a fazer a mesma coisa — com hardware fabricado num país que acredita estar a conter esta capacidade.
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