A Dinamarca reconstruiu uma cidade. Os EUA querem um mercado

Dois modelos de reconstrução, duas lógicas opostas — e uma fronteira que o plano americano dissolve por desenho.

Economia

Elian Morvane
Elian Morvanehttps://www.arcananews.com/
Elian Morvane é autor e cronista do Arcana News, escrevendo atualmente na Revista Arcana News, sem deixar de colaborar também em peças noticiosas e em leituras estratégicas de política, economia e sociedade.

CONTEXTO · Geopolítica · Ucrânia · Reconstrução Pós-Guerra

Quando um Estado concentra sessenta por cento da sua ajuda à reconstrução de um país estrangeiro numa única cidade, não está a fazer política humanitária. Está a fazer política externa por outros meios.

Como está a ser reconstruída a Ucrânia?

Mykolaiv é o caso mais documentado de reconstrução urbana na Ucrânia. O que revela sobre os modelos em competição vai além da escala.

A Dinamarca escolheu Mykolaiv. A cidade portuária no sul da Ucrânia — com cerca de meio milhão de habitantes antes da guerra — tornou-se um dos casos mais documentados de reconstrução urbana no conflito. Não por ser o mais grave, mas porque foi sendo executado com uma consistência rara. Desde março de 2022, quando Zelensky falou ao parlamento dinamarquês e pediu uma parceria direta com a cidade, a Dinamarca investiu quase 250 milhões de dólares na região: infraestruturas básicas, energia solar, formação profissional, desminagem, pequenas empresas.

Em abril de 2022, as forças russas destruíram o aqueduto que abastecia Mykolaiv com água do Dnipro. O sistema ficou seco durante três meses. As autoridades municipais passaram a bombear água salgada de um estuário — solução de recurso que acabou por corroer centenas de quilómetros de canalizações e provocou um dos colapsos de infraestrutura civil mais graves do conflito. A população caiu para menos de 180.000 pessoas.

A intervenção dinamarquesa começou aí, na água, mas não ficou por aí. A ajuda corre através de organizações sem fins lucrativos e agências internacionais — Danish Refugee Council, PNUD, entre outras — sem canalização direta para o Estado ucraniano nem para empresas dinamarquesas. A Dinamarca tem interesses no sul da Ucrânia, sobretudo em energia eólica e navegação. O mandato do programa exclui formalmente a sua promoção.

Em 2023 houve uma crise. Um vídeo com a filha do diretor da empresa municipal de águas, a atirar notas de um Mercedes, circulou amplamente. A empresa não era beneficiária direta, mas os seus subcontratantes eram. A Deloitte auditou o caso no âmbito da Iniciativa Anti-Corrupção da União Europeia: não encontrou fraude, mas apontou falhas na supervisão financeira. A Dinamarca manteve o programa.

A cidade regressou aos 470.000 habitantes. A água potável deverá ser restabelecida este mês. Painéis solares foram instalados em escolas e hospitais. Os campos agrícolas vizinhos foram parcialmente desminados.

A reconstrução da Ucrânia não segue uma lógica única. É mais um conjunto de iniciativas que coexistem do que um plano coerente, e Mykolaiv é um dos pontos onde uma delas foi levada longe o suficiente para poder ser observada. A administração Trump propôs o que chamou “Prosperity Plan”: um fundo com gestão privada, potencialmente superior a 500 mil milhões de dólares, parcialmente desenhado pela BlackRock, com investimento em tecnologia, centros de dados, inteligência artificial, mineração, energia. A ideia é tratar a Ucrânia como mercado, não apenas como beneficiária — com retorno esperado sobre o capital investido.

O governador regional de Mykolaiv disse que a ajuda de hoje abre os mercados de amanhã. Pode ser. Mas os dois modelos não diferem apenas em escala: o dinamarquês mantém uma separação explícita entre assistência e interesse comercial; o americano dilui essa separação desde o início. Num país ainda em guerra, isso não é irrelevante.

A comparação com o Plano Marshall aparece sempre. Serve para dar uma ideia de escala, mas não explica muito mais. O Plano Marshall foi uma operação de Estado para Estado, com objetivos geopolíticos claros, financiada por um único governo com uma doutrina definida. O que existe agora é outra coisa: programas bilaterais, propostas de investimento privado, ajuda multilateral europeia, iniciativas sectoriais — lógicas que coexistem, nem sempre articuladas.

Mykolaiv não resolve esse problema. Permite apenas observar um modelo em funcionamento. O que isso produz a dez anos, na relação entre a Ucrânia e quem a financia, ainda não está formulado com rigor.


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