Tóquio, em Mandarim

Como a comunidade chinesa em Tóquio tenta reconstruir, fora do continente, a língua pública que a censura tornou elíptica e defensiva

Economia

Elian Morvane
Elian Morvanehttps://www.arcananews.com/
Elian Morvane é autor e cronista do Arcana News, escrevendo atualmente na Revista Arcana News, sem deixar de colaborar também em peças noticiosas e em leituras estratégicas de política, economia e sociedade.

Wu Guoguang faz uma pergunta que a sala ouve em silêncio: se os emigrados chineses em Tóquio podem ter liberdade no Japão, por que razão não podem tê-la na China?

Wu foi preso depois de Tiananmen. É investigador em Stanford. Conhece a diferença entre uma pergunta que não pode ser dita e uma que não pode ser pensada. A segunda não deixa rasto.

Uma língua que perdeu a capacidade de formular certas perguntas não sabe que as perdeu — não há ausência visível, só chão que parece plano.

A sala da Universidade Meiji está cheia. Isso também diz alguma coisa.

Há um problema que os tradutores japoneses de textos políticos chineses conhecem e raramente discutem: a palavra weiquan.

Uma língua sem território

Em mandarim, weiquan significa “defender direitos”. Nos dicionários japoneses aparece em katakana — transliterado, não traduzido — com uma nota: “termo da China continental para defesa de direitos legais, frequentemente em contexto de activismo político”. Correcta. Inútil.

Weiquan, em Pequim, não é conceito. É escritórios invadidos de madrugada. São licenças revogadas sem processo. São nomes que desaparecem de registos. Quando um advogado diz weiquan em Pequim, o peso da palavra está no que não se diz — na contração de quem a ouve num sítio errado, no silêncio que se segue.

Em katakana, essa memória some. A tradução fez o que as traduções fazem: transferiu o sentido e deixou na fronteira o peso que não tem equivalente. O que ficou para trás não era excesso. Era o núcleo.

Liang Qichao percebeu o problema ao contrário.

Quando chegou a Tóquio em 1898 — depois de falhar a tentativa de reformar a dinastia Qing, com a execução como alternativa ao exílio — o que encontrou foi uma língua com palavras que o mandarim não tinha. O japonês do período Meiji construíra vocabulário político com urgência: um país a modernizar-se deliberadamente, a fabricar os conceitos de que precisava. Liang não importou ideias. Importou estrutura para as pensar. Jingji. Minzhu. Kexue. Zhengzhi. Palavras que hoje parecem naturais no mandarim e que eram, na viragem do século, invenção. O trabalho de alguém que percebeu que a reforma política que tentara em Pequim não tinha falhado apenas por razões de poder — tinha falhado também porque o mandarim disponível não tinha palavras precisas para o que a reforma precisava de dizer. As ideias circulavam. Sem palavra exata, não eram debatíveis. Eram sentidas.

Xu Zhiyuan está a escrever uma biografia de Liang há vários volumes. Em 2020, as restrições de viagem da pandemia deixaram-no retido no Japão. O biógrafo de quem construiu vocabulário político em Tóquio escreve agora em Tóquio. Sem editora no continente. Sem praça pública. Numa cidade onde os seus livros existem em mandarim e a cidade à volta lê outra coisa.

Os livros raramente conseguem narrar o que fizeram ao escritor enquanto os escrevia. Este vai ter dificuldade em escapar a isso.

A livraria que Xu fundou em Ginza tem o nome de um livro de Walter Benjamin. Benjamin foi também um teórico da tradução — pensou o que se perde constitutivamente quando uma língua tenta cruzar para outra, e por que razão essa perda não é acidente. A língua de chegada recebe o que pode receber. O resto fica na fronteira.

Em 1940, Benjamin morreu numa pensão nos Pirenéus, na noite em que a fronteira fechou.

A livraria tem livros em mandarim. A cidade lê japonês. Encontros acontecem em mandarim sobre assuntos que no continente requerem outra preparação. O que antes eram conversas em privado — não por gosto mas por hábito aprendido — tornou-se agenda pública.

Mas uma conversa privada e uma conversa pública não são a mesma coisa com mais pessoas. A privada pode ser incompleta, contraditória, pode mudar de posição a meio sem que isso exija justificação. A pública pede articulação. Pede que a língua saiba o que diz. A língua que chegou de Pequim aprendeu a funcionar em privado sob pressão — aprendeu a ser elíptica, a deixar espaços que o interlocutor de confiança preenchia. Essa habilidade tornou-se problema: a língua que aprendeu a não dizer completamente tem de reaprender a dizer. Não é questão de vontade. É competência que o desuso degradou.

Li Jinxing é advogado. Em Julho de 2015, o seu escritório foi invadido e a licença revogada. Quando começa a organizar encontros para emigrados em Tóquio, o que observa não é entusiasmo. É hesitação específica: pessoas que debatem bem em privado e bloqueiam em público, antes de acabar a frase. O filtro viajou com elas. A autocensura instalada ao longo de anos não sai por mudança de país — é reflexo anterior ao pensamento, e reflexos precisam de trabalho para sair, não de intenção.

O que não funciona nestes encontros é revelador. Há participantes que descrevem com precisão o que aconteceu — analisam, contextualizam — mas travam quando a conversa exige julgamento: não apenas “isto aconteceu” mas “isto está errado e aqui está porquê”. A língua aprendeu a descrever com alguma liberdade. Aprendeu muito menos a julgar em voz alta.

E há um segundo limite. Vários participantes relatam que familiares no continente foram contactados depois de eventos públicos no estrangeiro. Uma visita. Uma pergunta. Uma presença que não precisa de palavras para comunicar o que comunica. A língua que se reconstrói em Ginza circula, e o que circula chega a lugares onde tem consequências para quem ficou.

A língua nunca saiu completamente. Parte ficou — nos corpos das pessoas que ficaram, e essas pessoas são acessíveis. Liang levou a língua para Tóquio em 1898 sem esse tipo de cordas. A língua que parte hoje parte com elas.

O problema que Wu identifica na palestra é fundamentalmente linguístico, embora raramente seja descrito assim. Muitos chineses no continente não conseguem imaginar alternativa ao sistema actual não por convicção mas por falta de vocabulário preciso para a pensar. A alternativa ao partido foi apresentada — não como argumento mas como pressuposto de toda a informação disponível — como equivalente ao colapso. Um pressuposto não aparece como afirmação. Aparece como chão. Não se contesta o chão. Caminha-se nele sem o ver.

Se a língua disponível não tem palavras para pensar o chão como construção — como algo feito, que pode ser feito de outra forma —, o chão permanece invisível. Independentemente de qualquer argumento.

Foi exatamente isto que Liang percebeu em Tóquio. E o que construiu não foram programas. Foram palavras com peso suficiente para tornar certas perguntas pensáveis com a precisão que o debate exige. As palavras que inventou regressaram à China. Mas regressaram como invenções negociadas, não como continuação do que existia. O lugar de chegada teve de aprender a usá-las, com resistências e deformações e usos que Liang não previu.

O que a comunidade de Ginza está a construir, se construir algo durável, regressará da mesma forma. Não como a língua que partiu.

Weiquan em katakana. Correcto. Esvaziado.

O que fica na fronteira deposita-se. Está nas conversas que continuam depois de a sala fechar, nas palavras que alguém usa e que o interlocutor ouve sem sentir, no gesto de quem pousa um livro em mandarim numa prateleira de Ginza e sabe — sem que isso precise de ser dito, porque não pode ser traduzido — exatamente quanto pesa.


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