Por que razão os meios de comunicação perdem sempre a confiança do público

Economia

Alberto Carvalho
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Alberto Carvalho é cronista e editor convidado do Arcana News. Escreve sobre política, cultura e vida pública, com uma atenção permanente ao impacto social das decisões coletivas. Os seus textos combinam rigor crítico, clareza jornalística e uma voz literária própria, orientada por valores humanistas e democráticos.

O Contrato que Expira

A autenticidade mediática nunca foi uma propriedade dos meios de comunicação. Foi sempre um acordo temporário — e os acordos temporários têm data de validade.


Em abril de 1975, um ano depois da revolução, os jornais portugueses vendiam em quantidades que nunca mais voltaram a atingir. Não porque os títulos fossem melhores — muitos eram caóticos, partidários, editorialmente inconsistentes. Vendiam porque o público sabia, pela primeira vez em décadas, que o que lia não tinha passado por uma mesa de censura. A autenticidade daquelas páginas não residia na qualidade da escrita. Residia na ausência de uma interdição. Era um contrato negativo: este texto não foi proibido; portanto, pode ser verdade.

O contrato durou pouco mais de uma década. Quando a televisão comercial chegou a Portugal no início dos anos noventa, a imprensa escrita começou a perder a centralidade que a revolução lhe tinha devolvido. Não porque a televisão fosse mais rigorosa — não era. Mas porque oferecia um novo contrato: podes ver, não apenas ler; podes verificar com os próprios olhos. A imagem em movimento prometia uma proximidade que a página impressa não conseguia simular.

Depois vieram a internet, as redes sociais, os podcasts, as newsletters, as plataformas de vídeo. Cada vaga trouxe o mesmo argumento com vocabulário diferente: aqueles são os meios estabelecidos; nós somos a alternativa. E em cada vaga, o argumento funcionou — durante algum tempo.


A autenticidade mediática é sempre definida em oposição a algo. Não é uma qualidade intrínseca de um meio — não há nada no papel impresso, na voz de rádio, no vídeo de baixa qualidade ou na newsletter enviada por e-mail que seja genuíno por natureza. O que torna um formato autêntico é o momento histórico em que surge como alternativa àquilo em que o público já não confia. A credibilidade não é conquistada — é transferida por diferença.

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Isto explica um paradoxo que os estudos de media raramente formulam com clareza: quanto mais um formato alternativo tem sucesso, menos alternativo se torna, e portanto menos autêntico parece. O sucesso é o mecanismo da sua própria erosão. Uma publicação independente que começa com dois mil leitores e chega a duzentos mil não é a mesma publicação — não porque tenha mudado de princípios, mas porque a sua relação com o poder mudou. Tem anunciantes a satisfazer, ou investidores, ou simplesmente uma audiência suficientemente grande para que o silêncio sobre certos assuntos se torne economicamente racional.


Portugal é um laboratório útil para observar esta dinâmica com precisão invulgar, precisamente por causa da escala.

Num mercado mediático pequeno, as transições são rápidas e visíveis. Quando a SIC e a TVI quebraram o monopólio da RTP nos anos noventa, a televisão pública perdeu em poucos anos a posição que detinha desde os anos cinquenta. Não perdeu por incompetência — perdeu porque o público redefiniu o que contava como imparcial. A televisão do Estado era, por definição, a televisão do poder; as comerciais eram, por definição, a alternativa. O raciocínio era circular e não particularmente rigoroso. Funcionou na mesma.

O mesmo padrão repete-se agora na transição digital. As publicações online que surgiram na década de 2010 prometiam exatamente o que a rádio e a televisão tinham prometido antes delas: proximidade, rapidez, ausência das mediações burocráticas da imprensa tradicional. Algumas cumpriram a promessa. A maioria descobriu, ao fim de alguns anos, que a sustentabilidade económica exige exatamente as mediações que tinham prometido eliminar — publicidade, parcerias institucionais, dependência de algoritmos controlados por plataformas cujos interesses raramente coincidem com os do jornalismo de interesse público.


O que fica quando o contrato expira é uma questão que os meios de comunicação raramente se colocam a si próprios, porque a resposta é desconfortável.

O que fica é a audiência que foi construída sob esse contrato — e que tem expectativas formadas por ele. Uma publicação que começou como alternativa radical e cresceu até à dimensão de um meio estabelecido carrega consigo leitores que se reconhecem na identidade original, não na identidade atual. Quando esses leitores percebem a distância entre as duas, há três possibilidades: ficam por inércia, saem em busca da próxima alternativa, ou reconfiguram as suas expectativas. A terceira hipótese é rara. A segunda é o motor de cada novo ciclo de fragmentação.

Isto não é pessimismo sobre o jornalismo. É uma descrição do seu funcionamento histórico. Os ciclos de fragmentação e reconsolidação não são falhas do sistema — são o sistema. A legitimidade mediática nunca foi estável; foi sempre negociada, contestada e renegociada em função de quem detém o poder e de quem o questiona.


O problema específico do jornalismo independente europeu — e português em particular — é que opera neste ciclo com recursos estruturalmente inferiores aos das plataformas que definem as regras do jogo.

Os algoritmos do Google e das redes sociais não foram desenhados para favorecer o jornalismo de análise de médio prazo. Foram desenhados para maximizar o tempo de atenção, o que favorece o conteúdo que provoca reação imediata. Um despacho de análise estratégica compete, na mesma página de resultados, com um vídeo de trinta segundos sobre o mesmo tema. A profundidade não é uma vantagem algorítmica — é, muitas vezes, uma desvantagem.

Ainda assim, a história dos ciclos mediáticos sugere que a fragmentação não é apenas um problema — é também uma oportunidade estrutural. Cada vez que a reconsolidação se completa e o antigo alternativo se torna o novo estabelecido, abre-se espaço para o que vier a seguir. A questão não é se esse espaço vai existir. É quem o ocupa e com que contrato.


Há uma imagem que persiste de cada vez que se pensa nestas transições: a das redações vazias dos jornais que dominaram o século vinte. Não estão vazias por falta de leitores — os leitores continuam a querer informação, em quantidades sem precedente histórico. Estão vazias porque o contrato que as sustentava expirou antes de alguém ter conseguido renegociá-lo.

O próximo contrato está a ser escrito agora, em sítios que ainda não têm nome estabelecido, por publicações que ainda não ganharam dimensão suficiente para perder a autenticidade original. O que o define não é o formato — não é o podcast, a newsletter, o vídeo ou o despacho estratégico. É a relação com o poder que o formato estabelece. E essa relação tem sempre uma data de validade que só se torna legível depois de expirar. Quando a alternativa se torna instituição, a próxima alternativa já começou a formar-se. Não contra o poder — contra ela.

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