ENSAIO – Paquistão
Quando as grandes potências deixam de se falar, o mundo descobre quem atende a chamada. Em março de 2025, atendeu o Paquistão — um país que mal se governa a si próprio.
O chefe do Estado-Maior do exército paquistanês não é, formalmente, um negociador de paz. O General Asim Munir comanda as forças armadas de um país com cento e quarenta ogivas nucleares, uma economia em gestão assistida pelo Fundo Monetário Internacional e uma fronteira com o Afeganistão que nenhum governo em Islamabad alguma vez controlou por completo. Em março de 2025, o General Munir estava a telefonar a Washington — não em nome de Paquistão, mas em nome de uma janela de oportunidade entre os Estados Unidos e o Irão que nenhuma potência ocidental conseguiu abrir.
Que este homem, neste país, estivesse a fazer esse telefonema diz mais sobre o estado do sistema internacional do que qualquer cimeira que possa ou não acontecer depois.
O Paquistão não é um candidato óbvio para árbitro de nada. É um Estado que funciona com dois centros de poder em tensão permanente: o governo civil eleito e o exército que o tolera enquanto não o incomoda. A sua democracia tem eleições regulares e primeiros-ministros que saem de cena antes de terminar o mandato, frequentemente com ajuda institucional não declarada. A sua economia depende de empréstimos externos que chegam sempre na condição de reformas que criam instabilidade política que exige novos empréstimos. É um país que negoceia a sua própria sobrevivência em rodadas sucessivas com credores internacionais, e faz isso há décadas sem que o sistema colapse completamente — o que, visto de certa forma, é uma competência.

Essa competência é, precisamente, o que o torna útil agora.
O Paquistão tem relações com Washington porque precisa de Washington — financeiramente, militarmente, diplomaticamente. Tem relações com Teerão porque partilha uma fronteira de novecientos quilómetros com o Irão e porque os dois países têm décadas de gestão discreta de tensões que não chegaram a guerra. Tem relações com Riade porque recebe trabalhadores que mandam remessas e porque a Arábia Saudita tem sido, em momentos de crise, o mutuante de último recurso que o FMI não é. Tem relações com Ancara e com o Cairo porque pertencem ao mesmo conjunto de países que se descrevem, com alguma imprecisão, como o mundo muçulmano de rendimento médio — nem ricos o suficiente para comprar aliados, nem pobres o suficiente para serem ignorados.
Esta rede não é poder. É acesso. E acesso, quando as potências não se falam, tem um valor que nenhuma potência pode comprar — porque nenhuma delas o tem.
Em março de 2025, depois de semanas de pressão americana sobre o programa nuclear iraniano e de um Teerão que oscilava entre a ameaça e o recuo, Islamabad começou a funcionar como câmara de compensação. O Primeiro-Ministro Shehbaz Sharif falou com o Presidente iraniano Masoud Pezeshkian numa conversa de várias horas. O Ministro dos Negócios Estrangeiros Ishaq Dar falou com os seus homólogos iraniano, emiradense, iraquiano e europeu. O General Munir, cuja função institucional não inclui diplomacia, falou com Washington.
Em dez dias, os dois principais dirigentes civis do Paquistão haviam contactado mais de vinte líderes mundiais.
Nada disto é novo na forma — a diplomacia por telefone existe desde que o telefone existe. O que é novo é quem telefona. Nas crises do século passado que mobilizaram mediação internacional, a lista de intermediários era previsível: as Nações Unidas, a União Europeia, os Estados Unidos quando não eram parte do problema, a Rússia quando queria complicar a solução. A arquitetura do pós-guerra tinha os seus árbitros designados, com secretariados e orçamentos e legitimidade institucional.
Essa arquitectura não desapareceu. Está apenas a ser contornada — não por sabotagem, mas por inutilidade. As grandes estruturas multilaterais foram construídas para um mundo de blocos relativamente estáveis e conflitos com geometrias reconhecíveis. A crise entre Washington e Teerão não tem essa geometria: é simultaneamente um conflito bilateral, um problema regional, uma questão de proliferação nuclear e uma disputa sobre a ordem do Médio Oriente que envolve actores que as instituições de 1945 não foram desenhadas para gerir. Nesse vazio, entram os países que têm acesso onde as instituições não chegam.
O Paquistão, a Turquia e o Egito — os três nomes que circulam como possíveis anfitriões de negociações formais — têm em comum algo que raramente é descrito como vantagem: são Estados em dificuldade permanente que aprenderam a transformar a sua vulnerabilidade em posição negocial.
A Turquia de Erdogan é membro da NATO e comprador de equipamento militar russo. Exporta drones para a Ucrânia e mantém linhas abertas com Moscovo. Negocia com Washington e com Teerão e com Tel Aviv e com o Cairo, muitas vezes em simultâneo, muitas vezes sobre assuntos que envolvem interesses contraditórios. Esta posição é descrita, nos meios ocidentais, como ambiguidade ou falta de princípios. É, também, o motivo pelo qual Ancara é sempre uma das primeiras a ser chamada quando alguém precisa de um interlocutor que chegue a todos os lados.
O Egito de Sisi governa um país com cento e dez milhões de habitantes, uma economia em stress permanente e uma posição geográfica que o torna incontornável em qualquer configuração regional. O Canal de Suez é a sua alavanca mais óbvia — mas a alavanca mais subtil é que Cairo é a única capital árabe que fala ao mesmo tempo com Israel, com o Hamas em Gaza (através de mediação), com o Golfo, com Teerão e com Washington sem estar formalmente em guerra com nenhum deles. Esta ubiquidade não é mérito — é necessidade. O Egito não pode dar-se ao luxo de ter inimigos declarados quando precisa de todos.
O Paquistão é, dos três, o mais improvável e o mais revelador.
Há uma lógica interna nesta escolha que os comunicados diplomáticos nunca formulam com clareza: os melhores mediadores são os que têm mais a perder se a crise escalar. Não os mais poderosos — os mais expostos.
O Paquistão tem uma fronteira comum com o Irão. Tem uma população maioritariamente sunita com uma minoria xiita de dezasseis a vinte por cento — a tensão sectária é uma realidade gerida, não uma ficção. Tem relações com os Estados do Golfo que dependem parcialmente da percepção de que Islamabad não é um aliado incondicional de Teerão. E tem com Washington uma relação de dependência suficientemente clara para que qualquer aproximação ao Irão precise de ser calibrada. Este conjunto de pressões contraditórias, que seria paralisante para uma potência com escolhas, torna-o ideal como interlocutor para partes que também têm pressões contraditórias.
De um lado, Washington — que quer um acordo mas não pode pagar politicamente qualquer concessão que pareça capitulação. Do outro, Teerão — que precisa de alívio das sanções mas não pode assinar nada que o líder supremo designe como rendição. O mediador útil não é o que tem a solução. É o que permite que cada lado se mova sem chamar publicamente a isso movimento.
O Paquistão percebe esta dinâmica de dentro. Tem feito exactamente isso consigo próprio, durante décadas, nas suas negociações com o FMI, com Washington, com Nova Deli: mover-se sem que o movimento seja nomeado.
De Lisboa, este padrão tem uma ressonância específica.
Portugal fez algo estruturalmente semelhante durante décadas, na sua relação com a NATO e com as suas colónias africanas e com Washington e com Madrid. Era um país demasiado pequeno para impor, demasiado bem posicionado geograficamente para ser ignorado. Os Açores foram negociados como base americana em troca de silêncio diplomático sobre o colonialismo português — uma transacção que Washington aceitou porque precisava dos Açores mais do que precisava de coerência nos seus discursos sobre autodeterminação. Salazar percebeu isso e usou-o até ao limite.
A diferença é que Portugal jogava o seu trunfo num mundo com regras relativamente claras — a bipolaridade da Guerra Fria dava uma estrutura dentro da qual a margem de manobra era limitada mas previsível. O Paquistão joga o seu acesso num mundo sem estrutura clara, onde a margem de manobra é maior mas os riscos de errar o cálculo são proporcionalmente maiores.
E o Paquistão tem armas nucleares. O que significa que a sua própria instabilidade interna — o Estado dual de civis e militares, a economia em crise, a tensão sectária gerida — é ela própria uma variável no cálculo de qualquer negociação que envolva proliferação nuclear na região. Islamabad não é apenas o mediador. É também, silenciosamente, parte do problema que Washington tenta resolver quando fala com Teerão.
Esta ambiguidade não invalida a mediação. Pode até reforçá-la: o Irão sabe que o Paquistão nuclear nunca pode ser um aliado incondicional de uma política americana de pressão máxima sobre programas nucleares regionais.
Numa declaração divulgada em meados de março, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros paquistanês disse que o objectivo era “um processo, não um evento.” A frase tem o tom de quem aprendeu a gerir expectativas — e de quem sabe que os processos têm uma vantagem sobre os eventos: podem continuar mesmo quando parecem parados.
Os eventos têm datas. Os processos têm dinâmicas. E as dinâmicas, ao contrário das cimeiras, não falham — continuam, transformam-se, produzem resultados que nenhuma das partes antecipou quando começou a telefonar.
Se houver negociações entre Washington e Teerão, o que quer que aconteça em Islamabad ou em Ancara ou no Cairo não será o momento em que a paz foi feita. Será o momento em que ficou estabelecido que havia algo a negociar — o que é, nesta fase, o único progresso possível.
O resto depende de quão dispostos estão os dois lados a usar o corredor que países mais frágeis construíram. E essa disposição não se mede em declarações. Mede-se em silêncios — nas coisas que nenhum dos lados diz em público enquanto o Paquistão continua a telefonar.


