Cinco Décadas Depois: Angola Entre a Paz e a Pobreza

Economia

Elian Morvane
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Elian Morvane é autor e cronista do Arcana News, escrevendo atualmente na Revista Arcana News, sem deixar de colaborar também em peças noticiosas e em leituras estratégicas de política, economia e sociedade.

Há cinquenta anos, uma bandeira subiu ao céu de Luanda como quem ergue o futuro. Foi no dia 11 de novembro de 1975, e o país acreditava poder nascer outra vez. Agostinho Neto falava de um “Homem Novo” — livre da submissão colonial, capaz de reconstruir a pátria com justiça e dignidade.
Hoje, Angola recorda esse sonho como quem folheia uma fotografia antiga: as cores mantêm-se, mas o tempo desbotou o brilho.

Angola, Cinquenta Anos Depois: A Paz e o bem-estar que não chegam a uma mesa.

Nas ruas de Viana e nos mercados de Huambo, a palavra independência já não se diz com a mesma força. Os mais velhos falam dela com ternura, os mais novos com uma distância que dói. Os seus rostos tem a serenidade de quem sobrevive, e a fadiga de quem nunca parou de tentar.

Angola viveu metade da sua vida independente em guerra — e o que veio depois foi uma reconstrução desigual. O petróleo trouxe luxo a poucos e ilusão a muitos. Em Luanda, as torres de vidro erguem-se sobre bairros sem esgoto; a riqueza escorre por canais que o Estado não controla. A economia cresce nos relatórios, mas encolhe nas panelas.

As crianças continuam a aprender em escolas sem janelas, e há hospitais onde falta tudo menos esperança.

Nos últimos anos, a luta contra a corrupção abriu fendas num sistema que parecia imutável. Mas a transparência não se decreta: constrói-se devagar, em cada contrato limpo e em cada sala de aula reabilitada. Angola está a aprender o difícil ofício de governar-se a si mesma — e talvez essa seja a sua verdadeira independência.

Entre as gerações mais novas, há um renascimento silencioso. Jovens músicos cantam sobre dignidade, agricultoras organizam cooperativas, estudantes sonham em não ter de partir. No interior, onde a terra ainda guarda as feridas da guerra, começam a surgir projetos comunitários de agricultura e microcrédito. São pequenos, frágeis, mas reais — e, como tudo o que nasce em África, teimosamente vivos.

Angola aprendeu a levantar-se. Falta agora aprender a repartir-se.
A paz, afinal, só é completa quando chega à mesa de todos.

Entre o otimismo e o desencanto, Angola continua a confrontar-se com o espelho das suas contradições: um território rico em petróleo, diamantes e terras férteis, mas com mais de 11 milhões de pessoas a viver em pobreza extrema.

Durante 26 dos seus 50 anos de independência, Angola viveu em guerra. A reconstrução posterior trouxe crescimento, mas também dependência. O modelo económico — baseado quase exclusivamente no petróleo — gerou riqueza fácil e desigualdade estrutural. Segundo o Centro de Estudos de Investigação Científica da Universidade Católica de Angola, entre 2002 e 2015 o país arrecadou cerca de 740 mil milhões de dólares em receitas petrolíferas.

Ainda assim, há sinais de esperança. O Presidente João Lourenço, no discurso de investidura em 2022, prometeu “diversificar a economia, combater a corrupção e devolver dignidade à vida pública”. Os primeiros passos foram tímidos, mas não inexistentes: maior fiscalização das contas públicas, revisão de contratos estatais e incentivos à agricultura familiar.

Apesar disso, as feridas são fundas. A ONU estima que 65% da população angolana tem menos de 25 anos e enfrenta desemprego crónico. O contraste entre as torres de Luanda e as aldeias do interior continua a definir o país. O “Homem Novo” de Neto nunca chegou a nascer — mas talvez ainda não tenha morrido a ideia de o fazer nascer.

Quem viveu em Angola sabe que o país é maior do que as suas feridas. Em cada bairro há crianças que estudam à luz das velas, agricultores que regressam à terra, jovens que tentam reinventar a política e a economia.

Cinco décadas depois, Angola continua à procura da sua própria promessa. A bandeira de 1975 ainda tremula — mas agora, talvez, o gesto mais importante seja o de quem a segura.

Por Arcana News — Luanda / Lisboa

Créditos (Fonte):
Imagem: by jorono / via Pixabay

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