Arquidiocese de NY oferece 300 milhões a vítimas de abuso

Economia

Elian Morvane
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Elian Morvane é autor e cronista do Arcana News, escrevendo atualmente na Revista Arcana News, sem deixar de colaborar também em peças noticiosas e em leituras estratégicas de política, economia e sociedade.

NOTÍCIA · Estados Unidos · Igreja Católica.

A Arquidiocese Católica de Nova Iorque entrou esta segunda-feira numa fase rara: a de admitir que precisa de negociar em bloco milhares de acusações antigas de abuso sexual.

Cardial Dolan vende património e corta custos para enfrentar 1.700 acusações.

O valor que colocou em cima da mesa — pelo menos 300 milhões de dólares — é apenas um ponto de partida, mas marca a primeira vez que a instituição aceita abrir uma via formal de mediação com representantes das vítimas.

O processo está longe de fechado.

O advogado Jeff Anderson, que representa cerca de 300 denunciantes, avisou que não existe ainda qualquer acordo, apenas “um caminho possível para lá chegar”.

Mesmo assim, admitiu que é um sinal que nunca tinha visto: a maior arquidiocese do país a aceitar discutir um entendimento global.

Para conseguir reunir verbas desta dimensão, a arquidiocese começou a cortar despesas, despedir funcionários e vender património — incluindo a sua sede histórica em Manhattan, alienada no ano passado por mais de 100 milhões de dólares.

O Cardeal Timothy Dolan explicou, numa carta enviada a centenas de milhares de fiéis, que não havia outra forma de enfrentar o peso das acusações: “A dor causada pelos abusos de menores há muito nos envergonha. Continuo a pedir perdão por quem falhou no dever de proteger.”

O mediador escolhido é o juiz aposentado Daniel J. Buckley, conhecido por ter conduzido as negociações que levaram ao grande acordo da Arquidiocese de Los Angeles com mais de mil sobreviventes de abuso. A escolha não é inocente: Nova Iorque enfrenta hoje uma pressão equivalente — e uma herança legal que cresceu de forma explosiva desde a aprovação das janelas extraordinárias para processos cíveis previstas no Child Victims Act (2019) e no Adult Survivors Act (2022).

Essas leis abriram espaço para que casos prescritos há décadas fossem apresentados nos tribunais. O resultado foi avassalador: cerca de 1.700 acusações contra a Arquidiocese de Nova Iorque e milhares noutras dioceses do estado, levando seis das oito a declarar falência para enfrentar indemnizações massivas. Enquanto Nova Iorque anuncia o início da mediação, outra arquidiocese encerra o processo. Em Nova Orleães, a igreja aceitou pagar pelo menos 230 milhões de dólares a centenas de sobreviventes, acordo aprovado na segunda-feira por um juiz federal.

O arcebispo Gregory Aymond reconheceu que, para muitos, não há resolução possível, mas espera que o acordo ofereça “algum tipo de fecho”. O caminho nova-iorquino está ainda carregado de obstáculos. Um dos maiores é a disputa com a seguradora Chubb, que tem recusado pagar indemnizações alegando que os abusos e as omissões da igreja são atos criminosos excluídos das apólices.

Sem que a seguradora assuma parte dos custos, o valor final do acordo pode exceder largamente os 300 milhões que a arquidiocese diz estar a reunir. Para uma instituição com 2,5 milhões de fiéis e enorme visibilidade pública, o processo será um teste duplo: financeiro e moral.

Por agora, há apenas uma certeza — depois de anos de resistência, a arquidiocese entrou formalmente na mesa das negociações. E isso, para os sobreviventes, é um princípio. Nunca o fim.

Autor: Arcana News

Imagem: by malaquiastimoteo, via pixabay.

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