ANÁLISE · Mundo · Austrália · Política
Nas horas que se seguiram ao massacre durante uma celebração de Hanukkah em Bondi Beach, em Sydney, o guião parecia conhecido. Tragédia nacional, sobriedade pública, e uma tentativa de resposta comum — a ideia de que, perante a morte, a política baixa o tom e fala a uma só voz.
Anthony Albanese, primeiro-ministro, pediu união e enquadrou o ataque à comunidade judaica como um ataque ao país inteiro. Do lado conservador, Sussan Ley ofereceu ao governo apoio total, sem reservas. Por momentos, a Austrália pareceu fazer aquilo que tantas vezes reclama para si: conter a crispação, fechar fileiras, pôr as vítimas no centro.
Esse momento durou pouco.
À medida que a indignação crescia dentro da comunidade judaica — e à medida que se tornava mais audível a acusação de que o governo de centro-esquerda ignorara alertas repetidos sobre a subida do antissemitismo nos últimos dois anos — a oposição começou a transformar a tragédia em munição. Em poucos dias, surgiram ataques directos a Albanese, com alguns adversários políticos a responsabilizarem-no pelo atentado. Outros escolheram alvos laterais: criticaram membros do governo por não terem estado presentes nos funerais das 15 vítimas e trataram como “desvio” a iniciativa de endurecer regras sobre armas, como se falar de controlo de armamento fosse uma manobra para evitar a discussão sobre ódio antijudaico.
A resposta do executivo veio com uma lista de medidas já adoptadas e de novas linhas de actuação: a nomeação do primeiro enviado australiano para o antissemitismo, o avanço de legislação para criminalizar discurso de ódio e a condenação explícita do que o governo descreveu como motivação antissemita por detrás do ataque. O problema, porém, é que em política a eficácia não depende apenas do que se faz; depende do tempo, do tom e da credibilidade com que se comunica. E, desta vez, a comunicação parece ter chegado ao público já com o ar carregado.
Quem está habituado ao clima político dos Estados Unidos reconhecerá o padrão: tragédia seguida de corrida para ocupar o centro do palco. Para muitos australianos, a surpresa foi a velocidade. A política australiana tem, em regra, uma tendência para o centro, com incentivos menores ao confronto permanente e um hábito de consensos mínimos em momentos de crise. Ver o país entrar tão depressa num ciclo de acusações e ressentimentos soou, para alguns, como um sinal de mudança estrutural.
Mark Kenny, director do Instituto de Estudos Australianos da Universidade Nacional Australiana, resumiu o choque de forma simples: raramente vira uma tragédia nacional convertida tão rapidamente em vantagem partidária.
O ataque, e o que se seguiu, expôs fracturas que já estavam abertas. A comunidade judaica australiana representa menos de 1% dos 27 milhões de habitantes do país, mas vive há meses com uma sensação crescente de vulnerabilidade. Essa ansiedade agravou-se após os ataques de 7 de Outubro de 2023 e a guerra subsequente em Gaza. Em várias sociedades, a reação à guerra confundiu-se: a crítica ao governo israelita, legítima na esfera política, misturou-se com hostilidade antissemita, ilegítima numa democracia. A Austrália não escapou a essa tensão.
Antes de Bondi, o governo de Albanese já enfrentava críticas por não avançar mais depressa com recomendações do seu enviado para o antissemitismo. Entre as propostas discutidas estavam a criação de uma base de dados nacional de incidentes antissemitas e a possibilidade de retirar financiamento a universidades que não actuassem contra casos de ódio. Alguns grupos de direitos consideraram parte dessas recomendações excessivas; outros, sobretudo dentro da comunidade judaica, viram nelas um mínimo tardio.
A oposição conservadora, tradicionalmente mais alinhada com Israel do que o Partido Trabalhista, também contestara a iniciativa australiana de reconhecer a Palestina como Estado, em Setembro. Após o ataque de 14 de Dezembro, Benjamin Netanyahu fez a ligação de forma directa, responsabilizando a decisão por um ambiente permissivo. Ley não foi tão longe na formulação, mas acusou o governo de deixar o antissemitismo “fermentar” e insistiu que o executivo falhou na proximidade com os enlutados. Numa intervenção particularmente dura, atacou um ministro por, na sua leitura, não demonstrar empatia pública no momento certo.
Para Albanese, o dano não foi apenas político; foi emocional e simbólico. Kenny apontou um factor delicado: Albanese não é visto como um comunicador excepcional e terá tido dificuldade em corresponder ao que muitos esperavam de um líder numa crise desta natureza. Para parte dos judeus australianos, a resposta pareceu pouco convincente — não necessariamente por falta de medidas, mas por falta de presença efectiva.
A tensão atingiu um ponto em que Albanese não esteve nos funerais, enquanto outros dirigentes, incluindo Ley, marcaram presença. Uma semana depois, num memorial em Bondi Beach, houve vaias dirigidas ao primeiro-ministro, que optou por não discursar. É, provavelmente, o desafio político mais sério desde a sua reeleição em Maio — e também um factor de coesão interna para a oposição, que vinha de meses de turbulência e disputas domésticas.
O episódio reabriu, ainda, uma discussão antiga na Austrália: armas e segurança interna. O massacre em Bondi Beach foi o tiroteio em massa mais mortífero desde 1996, quando 35 pessoas foram mortas na Tasmânia. Na altura, John Howard, então primeiro-ministro conservador, conseguiu apoio bipartidário para leis de controlo de armas que o país ainda hoje aponta como referência. A comparação, inevitável, torna-se politicamente corrosiva: quando Albanese tentou apertar regras, Howard foi dos primeiros a criticar, defendendo que o foco nas armas estaria a desviar a atenção do antissemitismo.
Outras medidas do governo também foram recebidas com cepticismo: o endurecimento contra discurso de ódio foi lido por alguns como “demasiado pouco, demasiado tarde”. E a decisão de rever a actuação da agência de inteligência e das forças de segurança surgiu num contexto de perguntas desconfortáveis: como foi possível que os atiradores escapassem à detecção, sobretudo quando um deles já estaria referenciado desde 2019 e fora classificado como não perigoso?
A oposição quer ir mais longe. Entre as propostas surgem a possibilidade de retirar cidadania a condenados por crimes de terrorismo e a criação de uma comissão real — o instrumento de inquérito mais pesado no sistema australiano — para apurar falhas e responsabilidades. Ao mesmo tempo, vozes de extrema-direita tentam puxar o debate para imigração. Um dos atiradores era indiano; o outro, o filho, nasceu na Austrália. O facto, por si, não explica nada; mas em clima de medo, factos são frequentemente usados como pretexto.
Um dos ataques mais duros ao primeiro-ministro veio de Josh Frydenberg, antigo dirigente liberal e judeu, que num discurso num memorial exigiu “responsabilidade pessoal” de Albanese pelas mortes. É uma acusação de elevada carga moral, e exactamente por isso tem impacto: em períodos de trauma, a sociedade procura uma figura a quem pedir explicações — mesmo quando a realidade é mais complexa do que um rosto.
Julianne Schultz, professora na Universidade Griffith e autora de um livro sobre a ideia de Austrália, descreveu a dor e a raiva na comunidade judaica como profundas. E acrescentou um aviso: em vez de contribuir para cura, sectores políticos amplificaram essa raiva com um estilo que ela associa ao tipo de polarização que se viu crescer nos EUA sob Donald Trump. Não é uma comparação leve. É um alerta sobre contágio cultural: quando a política aprende que o conflito rende, passa a procurá-lo.
Ainda assim, há um risco para quem tenta lucrar com a tragédia. A Austrália tem uma expectativa forte de estabilidade e de “governo sério”, e tende a punir a sensação de oportunismo. Kos Samaras, estratega e director de uma consultora de sondagens, foi directo: o público não quer ver a morte transformada num jogo entre equipas. Quer uma resposta nacional e teme algo maior — o colapso da coesão social.
A oposição rejeita a acusação de politização. Um dos seus deputados disse à emissora pública ABC que se limitavam a reflectir o que ouvem de uma comunidade judaica furiosa, que se sente abandonada e, por isso, exigente.
No fim, talvez seja esse o teste real. Schultz formulou-o em termos quase existenciais: a maneira como a Austrália responder a este ataque será um ensaio à sua capacidade de continuar a ser uma sociedade pluralista, onde diferenças religiosas e identitárias não se tornam linhas de inimigo. Quando a ameaça é percebida como existencial, o pluralismo não se mantém por inércia; exige trabalho — muito trabalho. E, uma vez quebrado, é difícil voltar ao ponto de partida.
A pergunta, portanto, não é apenas “quem ganha” a semana seguinte. É se a Austrália consegue impedir que a tragédia seja o gatilho de uma nova normalidade: a normalidade em que o medo manda, a política explora, e a convivência se desfaz sem ninguém dar por isso — até ser tarde.
Imagem: Patrick McLachlan


