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Cabul, 26 de novembro — O governo talibã acusou hoje o Paquistão de ter conduzido ataques aéreos durante a madrugada em três províncias do Leste do Afeganistão, alegando que as explosões causaram a morte de dez civis, incluindo nove crianças. Islamabad rejeita totalmente a acusação.
Segundo Zabihullah Mujahid, porta-voz oficial da administração talibã, um dos ataques terá destruído uma casa na província de Khost, provocando as mortes. O responsável afirmou ainda que ocorreram explosões adicionais nas províncias de Kunar e Paktika, que teriam ferido vários habitantes. Kabul classificou os incidentes como “violação da soberania afegã” e avisou que dará “resposta adequada no momento que considerar necessário”.
Horas mais tarde, o porta-voz militar paquistanês, Ahmad Sharif Chaudhry, negou categoricamente qualquer operação daquele tipo. Islamabad garante que não atacou civis e sublinha que as operações anteriores — conduzidas no início de outubro — visaram apenas posições da fação Tehrik-e-Taliban Pakistan (TTP), responsável por ataques no interior do país.
Tensão crescente entre dois governos e três grupos armados
As acusações surgem pouco mais de um mês após confrontos intensos ao longo da fronteira, desencadeados por alegados ataques de drones paquistaneses contra alvos em Cabul. Esses confrontos deixaram dezenas de mortos entre militares, civis e militantes, até que foi alcançado um cessar-fogo mediado pelo Qatar e pela Turquia em 19 de outubro. O acordo permanece formalmente em vigor, embora fragilizado pelas denúncias desta terça-feira.
Pelo lado afegão, residentes de Khost passaram a manhã a retirar destroços da casa destruída. Testemunhas locais afirmam que um drone sobrevoou a área por volta da meia-noite. Um líder tribal identificou a família vítima como “gente pobre, sem envolvimento com qualquer grupo armado”.
No dia anterior, o Paquistão tinha sido alvo de um ataque suicida na cidade de Peshawar, que matou três agentes da polícia paramilitar. Islamabad responsabilizou militantes que, segundo o exército, teriam atravessado a fronteira a partir do Afeganistão. O TTP, organização aliada dos talibãs afegãos mas independente destes, é considerado o principal suspeito.
Diplomacia em movimento
A escalada militar levou o Irão a oferecer-se como mediador. O secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional iraniano, Ali Larijani, reuniu-se em Islamabad com o ministro dos Negócios Estrangeiros paquistanês, Ishaq Dar, num encontro destinado a reduzir tensões.
Entretanto, a fronteira permanece praticamente encerrada desde outubro, bloqueando o comércio e dificultando a circulação de residentes que dependem das passagens para visitar familiares ou trabalhar. Nos dois lados, aumenta a pressão económica sobre comunidades já vulneráveis.
Conflito sem solução à vista
Islamabad afirma ter intensificado operações de contraterrorismo este ano, alegando ter neutralizado centenas de militantes desde janeiro. O Afeganistão, por seu lado, nega que o TTP utilize o seu território como base, e acusa o vizinho de violar repetidamente a sua soberania.
As duas rondas de negociações realizadas em Istambul no início de novembro terminaram sem acordo: o Paquistão exigiu uma garantia escrita de que combatentes da TTP seriam impedidos de operar a partir do Afeganistão, algo que Kabul se recusou a fornecer.
Com o cessar-fogo enfraquecido e a troca de acusações a ganhar intensidade, os diplomatas temem que os incidentes desta terça-feira possam desencadear um novo ciclo de violência na fronteira mais instável do Sul da Ásia.


