NOTÍCIA
Durante mais de uma década, um projeto mineiro no coração de África foi apresentado como exemplo do que o Ocidente precisava de fazer para reduzir a dependência de Pequim em matérias-primas críticas. A jazida de terras raras descoberta por uma empresa australiana na Tanzânia prometia alimentar cadeias de valor na Europa e nos Estados Unidos, fora da sombra chinesa. Hoje, o projeto está nas mãos de um gigante de Pequim – e a promessa evaporou-se.
O percurso da australiana Peak Rare Earths é um manual condensado de como a China conquistou, passo a passo, o controlo sobre minerais estratégicos, enquanto as democracias industrializadas hesitavam entre boas intenções, burocracia e fé cega no “mercado”.
Um plano “China-free” que nunca saiu do papel
Quando a Peak identificou, em 2010, uma das melhores reservas de terras raras do mundo em solo tanzaniano, o desenho parecia perfeito: extração em África, processamento no Reino Unido, cadeia de abastecimento alinhada com a transição energética europeia e norte-americana, sem depender de refinarias chinesas.
Havia uma lógica geopolítica evidente. A China já detinha a maioria das grandes minas de terras raras e controlava quase toda a capacidade de refinação. Ao exportar grandes volumes a preços muito baixos, esmagava margens e tornava quase impossível financiar novos projetos concorrentes no Ocidente. A mina da Peak pretendia romper esse ciclo.
Mas o tempo jogou a favor de Pequim. Os anos passaram, o financiamento não aparecia, e a Tanzânia atravessou um período de forte desconfiança em relação ao investimento estrangeiro. A administração Magufuli endureceu regras, contestou contratos e travou reformas legais que dessem previsibilidade aos investidores. Quando, já em plena guerra comercial entre Trump e a China, o então CEO da Peak procurou apoio público para arrancar com o projeto, era tarde.
Washington chegou a mostrar interesse, através de uma carta de intenções da agência de financiamento de projetos no estrangeiro. Londres ouviu propostas. Nenhum governo, porém, quis ser o primeiro a colocar dinheiro num ativo complexo, num país politicamente volátil, num sector com preços deprimidos por causa da concorrência chinesa.
Pequim espera, compra a preço alto – e ainda assim barato
Entretanto, a realidade mudou em Dar es Salaam. Com a morte de Magufuli, em 2021, a nova presidente Samia Suluhu Hassan passou a sinalizar abertura a projetos mineiros com investidores estrangeiros. No papel, a janela ideal para resgatar o plano “China-free”. Na prática, os apoios ocidentais continuaram a não chegar.
Quem não hesitou foi Shenghe Resources, um grupo chinês com participação estatal e longa experiência em operar em ambientes regulatórios difíceis. Em 2022, comprou a posição de 20% detida por um fundo britânico na Peak, tornando-se o maior acionista individual. Pouco depois, garantiu um lugar no conselho de administração e um contrato para ficar com entre 75% e 100% da produção da mina durante sete anos.
A partir desse momento, a perceção mudou. Agências de financiamento ocidentais passaram a olhar para a Peak como mais um elo do “ecossistema chinês”, o que, paradoxalmente, tornou ainda mais difícil levantar capital fora da órbita de Pequim. Ao mesmo tempo, a empresa tinha o relógio a contar: se não mostrasse progressos no terreno, corria o risco de perder a licença na Tanzânia.
A gestão foi encurralada em escolhas sucessivamente piores. Em 2024, tentou uma parceria formal com Shenghe; mais tarde, recuou, citando riscos geopolíticos e novas regras chinesas que restringem a exportação de tecnologia de refinação de terras raras. Mas o movimento seguinte já estava em marcha.
Na primavera deste ano, Shenghe avançou com uma oferta para comprar a totalidade da Peak, pagando um prémio muito acima da média das aquisições no sector. Para Pequim, era o preço justo por aquilo que há muito considerava “o melhor projeto de terras raras ainda por desenvolver no mundo”. Para os acionistas, era uma saída dourada após anos de incerteza. A oferta foi aceite. A Peak foi retirada da bolsa australiana. A jazida passou, de facto, para controlo chinês.
Houve uma tentativa de última hora por parte de um fundo norte-americano, com uma proposta superior em valor. Mas a falta de histórico no sector, dúvidas sobre a capacidade de financiamento e um contrato de exclusividade com Shenghe transformaram essa alternativa num balão de ensaio mais político do que real.
O resultado: Tanzânia entra no mapa chinês dos minerais críticos
A consequência vai muito além de uma linha de balanço. Com esta compra, a China assegura, na prática, o domínio sobre todo o fluxo de terras raras que sairá da Tanzânia nos próximos anos. Analistas já comparam a situação à sua posição no cobalto produzido na República Democrática do Congo: uma combinação de participações em minas, contratos de fornecimento a longo prazo e influência política que lhe confere poder de fogo sobre cadeias industriais inteiras.
Para especialistas em minerais críticos, o caso Peak é mais do que um fracasso empresarial. É uma derrota estratégica. Significa mais concentração de mercado num player que já demonstrou estar disposto a usar controlos de exportação como arma de política externa – como se viu quando Pequim restringiu as vendas de certas terras raras, provocando pânico em indústrias automóvel, aeroespacial e de defesa no Ocidente.
O despertar tardio do Ocidente
Só depois deste desfecho é que Estados Unidos, Austrália e União Europeia começaram a falar em “travar” a compra de minas estratégicas por empresas ligadas ao Estado chinês. Washington e Camberra anunciaram mecanismos reforçados de análise de investimentos em minerais críticos; Bruxelas abriu investigações a negócios de níquel e outros metais em que grupos chineses surgem como compradores de referência.
Mas os instrumentos legais são limitados, sobretudo quando se trata de empresas listadas em bolsas ocidentais que vendem ativos situados em países terceiros. Na prática, pouco impede um grupo com recursos financeiros abundantes, respaldo estatal e elevada tolerância ao risco de oferecer mais do que qualquer concorrente privado. E é exatamente isso que as empresas chinesas têm feito.
Ao mesmo tempo, companhias ocidentais enfrentam obstáculos adicionais: regras ambientais e de transparência mais exigentes, processos de licenciamento longos, opinião pública hostil à mineração e a necessidade de demonstrar rentabilidade num horizonte relativamente curto. Do outro lado, conglomerados apoiados por Pequim operam com uma lógica diferente: sacrificar margens no presente para assegurar controlo sobre cadeias de valor que serão vitais na transição energética e na defesa.
O que a história da Peak diz sobre o futuro
O caso Peak Rare Earths pode ser lido como a crónica de uma perda anunciada: durante anos, governos ocidentais falaram de “autonomia estratégica” em minerais críticos, mas hesitaram sempre que chegou a hora de investir, assumir risco político ou acelerar decisões. A China, pelo contrário, avançou sem grandes hesitações, combinando cheques generosos, diplomacia paciente e uma presença física constante no terreno.
Para África, a mensagem é dupla. Por um lado, confirma que o continente é peça central na disputa pelos recursos da transição energética. Por outro, reforça a ideia de que, na ausência de alternativas credíveis, Pequim continua a ser o parceiro que aparece com dinheiro e capacidade de execução, mesmo que o preço a pagar seja uma dependência prolongada.
Para o Ocidente, a lição é desconfortável: não basta falar de resiliência das cadeias de abastecimento, nem multiplicar relatórios sobre minerais críticos. É preciso aceitar que, num mundo em reconfiguração, projetos como o da Peak não são apenas investimentos privados; são decisões estratégicas com impacto directo na segurança económica. E, como mostrou a Tanzânia, quem não está disposto a pagar esse preço cedo ou tarde vê a sua “autonomia” embarcar no voo seguinte para Pequim.
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Autor / Créditos: Keegan Checks / Pexels
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