“Durmo em casas emprestadas” — entrevista a um homem cansado de pedir desculpa
Há histórias que não cabem nas estatísticas — e há vidas que, quando terminam, não deixam rasto em lado nenhum.
Miguel (nome protegido), 51 anos, é uma dessas vidas. Viveu quase sempre a trabalhar: primeiro em estúdios de som, depois em montagens de eventos, concertos, congressos.
Nos últimos anos, vive sobretudo à espera de uma chamada que não vem. Carrega um pequeno rádio a pilhas como quem carrega um símbolo — diz que gosta de ouvir o “som do nada”, a estática, porque “é o barulho de quem ainda existe, mesmo sem emissão”.
Encontrámo-nos num bairro antigo, à beira da linha do comboio. O quarto que ocupa é de um amigo de infância que vive agora na Suíça; deixou-lhe a chave e o pedido discreto de não deitar nada fora.
Há caixas de livros, uma cadeira de plástico, duas mantas dobradas, e uma janela que não fecha bem.
“É temporário”, repete Miguel, com uma serenidade cansada.
Mas temporário é uma palavra que, no seu caso, já dura cinco anos.
A casa emprestada
“Cheguei aqui em 2020, depois de me separarem do apartamento onde vivia.
A senhoria quis vender. Eu já devia dois meses de renda. Pedi tempo, ela pediu silêncio.
Um amigo soube, chamou-me e disse: ‘usa o quarto do meu pai, ele já cá não vive’.
E cá fiquei. Pago a luz, compro o gás, mantenho tudo limpo.
Não é casa minha, mas também não é de mais ninguém.”
A casa tem cheiro de mofo e de decência.
No canto, há uma moldura com a fotografia da filha, hoje com 23 anos, estudante de enfermagem.
“Vemo-nos pouco. Eu não quero que ela me veja assim, a meio do caminho.”
Fala devagar, com frases que parecem ter passado por uma censura íntima antes de serem ditas.
Família e ausências
Pergunto-lhe pelos pais. “Morreram cedo.
O meu pai era serralheiro, a minha mãe trabalhava numa fábrica de tecidos.
Aprendi com eles a não pedir nada a ninguém — talvez por isso tenha chegado aqui.”
Tem um irmão, reformado por invalidez, que vive em Setúbal.
“Falamos ao telefone. Cada um com as suas vergonhas.
Não é falta de amor, é falta de força.”
O tema da família atravessa a conversa como uma sombra constante: amor calado, distância assumida, um pudor que o impede de aceitar ajuda.
“Quando não tens onde cair, começas a construir dentro de ti um lugar para ficar.
Mas não é casa — é abrigo. E o abrigo é frágil.”
Trabalho, corpo, tempo
Trabalhou quase trinta anos em produção técnica de eventos.
Sabe de cor o som de uma plateia antes de a luz se acender.
“É o segundo antes do aplauso que me faz falta — aquele silêncio tenso, cheio de expectativa.
Hoje vivo o contrário: um silêncio sem expectativa.”
Desde 2019 não tem contrato fixo. Vive de biscates e pequenas reparações elétricas.
“Já fiz de tudo. Até entregas de comida.
Mas com cinquenta anos, a bicicleta cansa e o corpo já não responde.”
Mostra-me as mãos — grossas, marcadas. “Este corpo foi ferramenta.
Agora é peso.”
O Estado e o esquecimento
Pergunto-lhe se recebe algum apoio.
“Recebo o RSI há oito meses.
Demorou um ano e meio a sair o papel.
Fui ao centro de emprego, disseram-me que era preciso provar que estava vivo.
Achei graça: passei a vida a provar que estava vivo, e mesmo assim não chegam a acreditar.”
Sente-se invisível?
“Mais do que invisível — transparente.
As pessoas olham através de nós.
Quando dizes que não tens casa, ficas automaticamente suspeito: será droga, será culpa tua, será preguiça.
É sempre culpa de alguém, nunca culpa do país.”
Vergonha e dignidade
“Há uma vergonha que é pior do que a pobreza: a vergonha de incomodar.
Eu ando sempre a pedir desculpa — por precisar, por existir, por ocupar espaço.
É como se o país quisesse que os pobres falassem baixinho para não estragar a paisagem.”
Fico em silêncio. Ele também.
Depois, acrescenta: “Mas a dignidade é teimosa.
Eu continuo a tomar banho todos os dias.
Lavo a roupa.
E quando passo por uma montra, ainda me endireito.
Mesmo que ninguém repare.”
O futuro e o medo
Pergunto-lhe o que imagina daqui a cinco anos.
“Gostava de voltar a ter um contrato.
Não preciso de muito — só de um sítio onde saber que posso deixar a chave e voltar.
O medo maior não é morrer: é morrer sem endereço.”
Pega no rádio e muda de frequência.
Uma voz antiga anuncia a discussão do pacote laboral.
Miguel sorri: “Ouviste? Amanhã vai ser pior.
Pelo menos isso ainda avisam.”
Nota editorial
Esta entrevista integra o ciclo “Vidas Invisíveis”, uma série da Magazine Arcana dedicada a retratar histórias reais de pessoas que vivem nas margens da atenção pública.
Os nomes foram alterados por motivos de privacidade.
Por Alberto Carvalho — Magazine Arcana
Fotografia: Tumisu / Pixabay — uso editorial autorizado.


