A Igreja Católica portuguesa pediu mais tempo. Outra vez.
As compensações financeiras prometidas às vítimas de abusos sexuais só deverão começar a ser pagas ao longo de 2026, admitiu o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. José Ornelas, perante a assembleia dos bispos.
Compensações às vítimas da Igreja só em 2026.
A notícia cai como um eco cansado de outras promessas. Em abril de 2024, a própria Conferência Episcopal aprovara — por unanimidade — a criação de um fundo de compensação, alimentado por dioceses e institutos religiosos. O objetivo seria simples e urgente: reparar, de forma simbólica e extrajudicial, quem sofreu o impensável.
Mas os prazos voltam a deslizar.
D. José Ornelas fala em “esforços”, em “dificuldades técnicas”, em “processos complexos”. Fala com o vocabulário da prudência institucional. Mas, para quem viveu décadas de silêncio e medo, cada adiamento é mais uma forma de negação. O tempo, que devia ser remédio, transforma-se em castigo.
Segundo dados divulgados pela Igreja, 84 pedidos de compensação foram já recebidos, e 77 validados. O número, embora trágico, não traduz o que está em causa. São pessoas concretas — hoje com 50, 60, 70 anos — que esperam que o país e a Igreja lhes devolvam, ainda que simbolicamente, a palavra “justiça”.
Há quem diga que a Igreja está a fazer o possível. Talvez esteja. Mas a lentidão da compaixão tem um custo moral incalculável. Cada reunião, cada prazo prorrogado, cada burocracia invocada, prolonga a dor de quem já foi vítima demais.
O problema, porém, não é apenas cronológico. É espiritual.
Uma Igreja que demora tanto tempo a reconhecer o sofrimento torna-se cúmplice da sua própria sombra. Quando o perdão se faz esperar, a fé torna-se incredulidade.
A Conferência Episcopal insiste que o fundo será solidário, transparente e sustentável. É possível que o seja. Mas há palavras que, repetidas em excesso, perdem o sentido. “Transparência” e “solidariedade” são, neste caso, verbos por cumprir.
A verdadeira reparação começa quando a Igreja deixar de falar em “vítimas” e começar a olhar para cada rosto.
Quando trocar o verbo “avaliar” pelo verbo “curar”.
E quando o tempo, em vez de desculpa, voltar a ser um ato de fé.
Artigo de Opinião de Alberto Carvalho
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