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O governo de Netanyahu aprova o orçamento estatal de 662 mil milhões de shekels com gastos militares de 112 mil milhões, aumento de 25% face à versão anterior. O parlamento tem até março para aprovar ou o país enfrenta eleições antecipadas.
O governo israelita aprovou esta sexta-feira o orçamento estatal para 2026, fixando gastos totais em 662 mil milhões de shekels (aproximadamente 205 mil milhões de dólares), anunciou o gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.
O orçamento inclui 112 mil milhões de shekels (cerca de 30 mil milhões de euros) para despesas de defesa, representando aumento de 22 mil milhões face aos 90 mil milhões previstos em versão anterior do documento.
A aprovação ocorreu após negociações noturnas entre o Ministério da Defesa, liderado por Israel Katz, e o Ministério das Finanças, dirigido por Bezalel Smotrich. O acordo sobre a componente militar desbloqueou votação do orçamento global pelo conselho de ministros, concluindo maratona negocial que se prolongou desde quinta-feira.
O orçamento segue agora para o Knesset (parlamento israelita) para votação inicial, devendo passar por três leituras antes do prazo legal de 31 de março de 2026. Caso não seja aprovado até essa data, serão automaticamente convocadas eleições antecipadas, a realizar-se no prazo de 90 dias.
Contexto Orçamental
O montante final de 112 mil milhões de shekels para a defesa situa-se significativamente abaixo da exigência inicial do establishment militar, que solicitara 140 mil milhões. Simultaneamente, ultrapassa em mais de 20 mil milhões o teto que o Ministério das Finanças inicialmente propusera. O compromisso reflete o equilíbrio entre pressões de segurança e constrangimentos fiscais.
O orçamento militar de 2026 representa um aumento de 47 mil milhões de shekels comparado com o orçamento de 2023, antes do início da guerra em Gaza. Em 2024, Israel gastou 31 mil milhões de dólares em operações militares em Gaza e no Líbano, custos que esgotaram reservas fiscais e forçaram revisão das projeções orçamentais.
O Ministério das Finanças confirmou que o défice orçamental para 2026 ficará em 3,9% do PIB, valor superior à meta de 3,2% anunciada anteriormente por Smotrich. A projecção inicial de 3,6%, com que os ministros iniciaram reunião de quinta-feira, mostrou-se insustentável face às necessidades de defesa e outras despesas comprometidas.
Dimensão Militar
Segundo termos do acordo, o orçamento de defesa baseia-se em valores operacionais de mobilização média de 40.000 reservistas ao longo de 2026. A medida alinha-se com diretiva do ministro Katz de reduzir carga sobre reservistas, segmento que suportou um peso desproporcional das operações militares prolongadas em 2024.
“Continuaremos a agir decisivamente para reforçar as Forças de Defesa de Israel e atender plenamente às necessidades dos combatentes, reduzindo o fardo sobre os reservistas, de forma a garantir a segurança do Estado de Israel em todas as frentes”, declarou Katz, citado num comunicado do Ministério da Defesa.
Adicionalmente, foi aprovado um pacote orçamental separado de 725 milhões de shekels, distribuídos ao longo de três anos, destinado a reforçar infraestruturas de segurança na Cisjordânia. Os fundos financiarão proteção de eixos de circulação, construção de estradas, estabelecimento de bases militares e projetos ao longo da fronteira oriental.
Netanyahu anunciou ainda um compromisso de aumentar o orçamento de defesa em 350 mil milhões de shekels ao longo da próxima década, adição estrutural que não integra o orçamento anual de 2026 mas sinaliza prioridade estratégica de longo prazo.
Outras Dotações
Para além da componente militar, o orçamento prevê 700 milhões de shekels para acelerar o lançamento de concursos habitacionais, agilizar processos construtivos e subsidiar desenvolvimento em regiões periféricas. Outros 250 milhões destinam-se a renovação e manutenção de habitação pública.
O governo alocou 20 milhões de shekels por ano em 2026 e 2027 para reforço dos transportes públicos. Documentos do Tesouro advertem que congestionamento rodoviário custa a Israel aproximadamente 24 mil milhões de shekels anualmente, podendo atingir 40 mil milhões até 2040 sem intervenção.
Foi ainda aprovada dotação de 40 milhões de shekels para apoiar voos regulares entre Aeroporto Ben-Gurion e Aeroporto Ramon, visando garantir conectividade acessível para residentes de Eilat e Arava. A medida responde a críticas sobre isolamento de comunidades no sul do país.
Uma prevista revogação da isenção de IVA para turistas foi removida da Lei de Acordos após forte oposição do Ministério do Turismo e grupos industriais, que argumentaram que prejudicaria sector já fragilizado.
Dinâmica Política
Netanyahu abriu sessão extraordinária do conselho de ministros sobre orçamento afirmando que o governo está unido e completará mandato integral. “É bom que vamos votar o orçamento e terminá-lo antes do Shabat. Vejo a abordagem objectiva e positiva dos ministros e de você, Ministro das Finanças, e estamos a caminho de apresentar um orçamento — um orçamento que são boas notícias para o Estado de Israel. Este governo, para todos os que se preocupam com o assunto, completará o seu mandato”, declarou.
A retórica visa dissipar especulações sobre instabilidade coaligacional. A coligação de Netanyahu, que reúne partidos de direita, ultraortodoxos e nacionalistas religiosos, enfrenta tensões internas sobre múltiplas questões, incluindo lei de recrutamento militar para ultraortodoxos, reformas judiciais e estratégia em Gaza.
O prazo de março para aprovação parlamentar coloca pressão sobre coligação. Caso orçamento não seja ratificado, eleições antecipadas ocorreriam provavelmente em junho de 2026, seis meses antes do fim natural do mandato em outubro. Netanyahu rejeitou explicitamente esse cenário, insistindo que coligação permanecerá até ao fim.
Bezalel Smotrich, ministro das Finanças e líder do partido Sionismo Religioso, defendeu equilíbrio fiscal: “Estamos a alocar orçamento enorme para fortalecimento do exército este ano, mas também um que permite devolver o Estado de Israel a caminho de crescimento e alívio para os cidadãos.”
A declaração reflecte compromisso entre gastos militares elevados e objectivo político de evitar aumentos fiscais. Smotrich comprometeu-se publicamente a não elevar impostos, posição que limita margem orçamental mas que considera politicamente essencial para manter base eleitoral.
A aprovação de orçamento militar de 30 mil milhões de euros para 2026 ocorre num contexto paradoxal: Israel alcançou cessar-fogos com Hamas em Gaza e com Hezbollah no Líbano, mas mantém gastos de defesa em níveis de guerra ativa. A aparente contradição reflete avaliação estratégica de que ameaças permanecem elevadas apesar de tréguas.
O aumento de 25% face à versão anterior do orçamento sinaliza que establishment militar e liderança política não interpretam cessar-fogos como resolução estrutural de conflitos. Pelo contrário, parecem antecipar necessidade de manter prontidão operacional elevada, seja por desconfiança sobre durabilidade das tréguas, seja por preparação para eventuais confrontos com atores regionais não abrangidos pelos acordos atuais.
A decisão de basear orçamento em mobilização de 40.000 reservistas evidencia dilema social e económico. Israel mobilizou centenas de milhares de reservistas em 2024, causando disrupção severa em economia civil. Empresas perderam trabalhadores qualificados, famílias sofreram perda de rendimento, sectores económicos inteiros contraíram. Reduzir carga sobre reservistas é imperativo social, mas mantê-los parcialmente mobilizados indica que tensão persiste.
O défice de 3,9% do PIB ultrapassa limites fiscais prudentes para economia do tamanho e estrutura de Israel. Défices prolongados acima de 3% geram riscos macroeconómicos: aumento de dívida pública, pressão sobre taxa de juro, potencial degradação de rating creditício. O governo aposta que crescimento económico compensará desequilíbrios, mas essa aposta depende de estabilidade regional que o próprio orçamento militar sugere não estar garantida.
A componente política é igualmente significativa. Netanyahu enfrenta processos judiciais por corrupção, pressão pública sobre gestão da guerra, tensões com aliados internacionais e fragmentação interna da coligação. Aprovação de orçamento é vitória táctica essencial: demonstra controlo sobre governo, estabiliza coligação temporariamente e adia ameaça de eleições antecipadas que poderiam resultar em derrota.
Mas vitória táctica não resolve questões estratégicas. Israel gastou 31 mil milhões de dólares em guerra durante 2024 sem alcançar objectivos declarados: eliminação de Hamas como entidade governante em Gaza, recuperação de reféns, neutralização permanente de Hezbollah. Os cessar-fogos são frágeis, temporários, condicionados. O orçamento de 2026 reflecte essa fragilidade: prepara país para continuação de estado de conflito indefinido, não para transição para paz.
A questão não é se Israel pode financiar 30 mil milhões de euros em gastos militares anuais. Pode, embora com custo fiscal e social significativo. A questão é se essa alocação massiva de recursos produz segurança efetiva ou apenas perpetua ciclo de confronto militar sem resolução política. O orçamento de 2026 sugere que, para liderança israelita atual, segunda opção é aceitável — ou inevitável.
Autor do Texto: Arcana News


