Foi a primeira mulher a empunhar o malhete da Câmara dos Representantes — e talvez a última capaz de o fazer com verdadeira autoridade.
Nancy Pelosi foi a última grande oradora de um Congresso ingovernável.
Nancy Pelosi, filha de uma dinastia política de Baltimore, transformou décadas de disciplina partidária num instrumento de poder pessoal e institucional que dificilmente voltará a repetir-se.
No tempo em que os líderes ainda comandavam maiorias, Pelosi governou o caos com cálculo e lealdade — duas virtudes cada vez mais incompatíveis com o Congresso americano.
Durante os seus dezassete anos de liderança, Pelosi revelou uma capacidade singular de unir uma bancada frequentemente fragmentada e de impor votações impossíveis. Foi assim em 2010, quando garantiu a aprovação da reforma da saúde de Barack Obama mesmo depois de os democratas perderem a maioria qualificada no Senado; e novamente em 2022, quando empurrou pela Câmara o ambicioso pacote climático e social de Joe Biden, apesar da resistência interna.
A sua força não era carismática, mas estratégica. Pelosi sabia contar votos, medir vontades e usar o tempo como uma arma. Quando um deputado hesitava, não o intimidava — cercava-o de factos, de prazos, de lealdades antigas. Sabia que a vitória política raramente se conquista na tribuna: constrói-se nos corredores, ao telefone, no silêncio dos compromissos.
Com ela, a palavra “liderança” manteve ainda o peso de uma instituição. Depois dela, a Câmara dos Representantes entrou num período de convulsão que transformou o cargo de speaker num posto precário. Entre 2015 e 2025, os republicanos conheceram uma sucessão de quedas e renúncias: John Boehner, Paul Ryan, Kevin McCarthy — todos vítimas da própria bancada. A regra que permite a qualquer congressista propor a destituição do presidente tornou-se um instrumento de chantagem política. O cargo sobrevive, mas o prestígio morreu.
Pelosi nunca o permitiria. Durante a sua segunda passagem pela presidência da Câmara (2019–2023), blindou o regimento para impedir golpes internos. Sabia que a autoridade, num partido dividido, depende mais da previsibilidade do que da simpatia. Não era amada por todos — nem pretendia sê-lo. O respeito bastava.
Quando decidiu afastar-se, fê-lo sem dramatismo nem derrota. A maioria democrata tinha-se esfumado nas eleições intercalares, e a agressão violenta ao seu marido, Paul Pelosi, simbolizou o clima de ódio que ajudara a envenenar o debate político americano. Ainda assim, saiu como entrou: consciente de que o poder só vale quando serve uma causa.
Para uns, essa causa foi a disciplina; para outros, a defesa obstinada de uma agenda social progressista. Em qualquer caso, Nancy Pelosi será lembrada como a última presidente da Câmara a exercer o cargo com autoridade real — não apenas sobre o seu partido, mas sobre a própria instituição.
Os seus adversários chamaram-lhe arrogante, moralista, implacável. Os seus aliados preferem outra palavra: eficaz.
Eficaz ao ponto de deixar atrás de si uma pergunta que, no novo caos de Washington, soa quase teológica: quem governará o ingovernável depois de Nancy Pelosi?
Autor do texto: Alberto Carvalho
📸 Office of Public Affairs from Washington DC – domínio público (NPOMS 2019-128)


