ANÁLISE · Médio Oriente · Segurança / Conflitos
Há regiões do mundo onde o tempo não avança: apenas se dobra sobre si, como pergaminho antigo que resiste a ser lido. O deserto do nordeste sírio é um desses lugares. Ali, entre muralhas erguidas às pressas e campos cercados por arame farpado, existe um arquipélago de prisões e acampamentos que guarda os remanescentes de um califado já desfeito – e, no entanto, nunca inteiramente morto.
Prisões jihadistas em rutura na Síria.
Al Sina é o seu coração mais sombrio. Um edifício de paredes altas e corredores estreitos, onde os passos ecoam como lâminas a raspar pedra. Os guardas, quase sempre com o rosto escondido por tecido negro, movem-se em silêncio ritual, como se a própria respiração pudesse despertar algo que deve permanecer profundamente adormecido. Ali, informação é arma. Por isso é que nada entra.
Nem o rumor de quem governa Washington.
Nem o destino político de Damasco.
Nem a notícia de que o mapa da Síria mudou de mãos mais uma vez.
Os prisioneiros vivem numa noite contínua, uma noite sem janelas. Não sabem que o regime de Assad ruiu. Não sabem que certos antigos jihadistas circulam agora pelos corredores do poder. Não sabem que o mundo que deixaram para trás voltou a mover-se. A ignorância, dizem-me os responsáveis curdos, é o último bastião que resta contra a vingança da história.
A rede é vasta: mais de duas dezenas de instalações, milhares de combatentes e apoiantes, dezenas de milhares de mulheres e crianças que cresceram entre ruínas e a liturgia de uma ideologia que prometeu glória mas só entregou pó.
Em Al Hol, a poucos quilómetros de Al Sina, o caos não é hipótese – é rotina. Tendas queimadas, adolescentes recrutados na penumbra, mensagens clandestinas enviadas pelos telemóveis que ninguém sabe como entraram. Crianças que ainda não aprenderam a ler já decoraram versos usados como slogans bélicos. Mulheres ameaçadas por outras mulheres, homens que matariam por cinquenta euros, e famílias inteiras que vivem num purgatório onde não se morre, mas também não se volta a viver.
As forças curdas mantêm vigílias constantes, mas o deserto não ajuda. A escassez de recursos, agravada pelos cortes internacionais, abriu fendas: projetos de saúde desapareceram, espaços seguros para crianças fecharam, programas de apoio psicológico foram suspensos. Onde antes havia tentativa de reconstrução, agora cresce apenas um vazio onde o extremismo se alimenta.
Vários comandantes descrevem estes campos como “exércitos à espera de clarim”. E a metáfora, trágica, não é exagerada. A queda do regime anterior desencadeou esperanças e temores: que grupos jihadistas tentem libertar combatentes, que células adormecidas despertem, que o deserto volte a ser palco de uma guerra que nunca soube o que era cessar.
A comunidade internacional, com a regularidade de um sino quebrado, repete a mesma constatação: repatriar é necessário. Mas a coragem política é rara, e o medo de trazer de volta ao lar a sombra de um passado violento continua a paralisar governos que preferem ignorar o problema.
De cada vez que um país recusa acção, mais um ciclo se cumpre no interior das cercas: mais radicalização, mais violência, mais crianças empurradas para um futuro que ninguém deseja nomear.
Enquanto caminho por esta paisagem de pó e silêncio, penso sempre na forma como a memória se agarra às pedras. Este lugar é um livro que todos os países querem manter fechado, mas que insiste em permanecer aberto. Aqui, até o vento parece escrever notas marginais: lembrem-se, diz ele, que nada termina só porque viraram a página.
Os guardas passam junto a mim com passos medidos. Os prisioneiros, sentados no chão, tentam adivinhar o mundo através de perguntas que nunca recebem resposta.
De certo modo, todos aqui vivem num limiar: entre um passado que se recusa a morrer e um futuro que ninguém tem coragem de assumir.
E talvez seja essa a verdadeira tragédia deste território: o facto de que, no centro do deserto, o tempo não cura nada. Apenas conserva.
Imagem: – DIREITOS DE AUTOR (DA) – fahed27 / Pixabay
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