As Táticas de Recrutamento Russas que Estão a Abalar a África do Sul

Economia

Elian Morvane
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Elian Morvane é autor e cronista do Arcana News, escrevendo atualmente na Revista Arcana News, sem deixar de colaborar também em peças noticiosas e em leituras estratégicas de política, economia e sociedade.

ANÁLISE · Mundo · África Austral

O desaparecimento de dezassete cidadãos sul-africanos na frente de batalha ucraniana expôs uma rede de promessas falsas, interesses políticos e ligações internacionais que ameaça reconfigurar o equilíbrio interno do país. O caso, que envolve figuras do partido uMkhonto weSizwe e alegadas ligações a intermediários russos, abriu uma investigação criminal e colocou Pretória sob pressão diplomática.

A rede de falsas promessas que liga o MK ao Kremlin e levou cidadãos sul-africanos para as trincheiras de Donbas.

Tudo começou com uma chamada telefónica atendida por um homem de 46 anos, desempregado e pai de três filhos, em julho deste ano. Do outro lado da linha, uma mulher com influência política oferecia um curso de guarda-costas na Rússia, seguido de um emprego num partido sul-africano. Parecia uma oportunidade rara. Seis semanas depois, o mesmo homem encontrava-se em Donbas, submerso na lama das trincheiras, rodeado por artilharia e longe de qualquer formação de segurança. Não foi o único.

O desaparecimento de dezassete cidadãos sul-africanos na frente de batalha ucraniana expôs uma rede de promessas falsas, interesses políticos e ligações internacionais que pode alterar o mapa político do país.

Do Parlamento às Trincheiras: As Táticas de Recrutamento Russas que Estão a Abalar a África do Sul.

O ponto de partida foi quase banal: uma chamada telefónica atendida por um homem de 46 anos, desempregado, pai de três filhos, em julho. A voz feminina do outro lado apresentava-se como alguém com influência política. Oferecia um curso de um ano para guarda-costas na Rússia, seguido de uma posição remunerada ao serviço de um partido nacional sul-africano. O argumento soava tentador, sobretudo num contexto de desemprego estrutural e escassez de oportunidades.

Seis semanas depois, o mesmo homem encontrava-se submerso na lama das trincheiras de Donbas, rodeado por artilharia pesada, drones e fogo contínuo. O curso prometido não existia. A formação em segurança privada jamais tinha sido real. Em seu lugar, surgiu a guerra. A mensagem que enviou para a família, já debaixo de fogo, era brutal: prometeram-lhe uma coisa, entregaram outra, e ele não tinha sido treinado para aquilo.

Ele não foi o único. Dezassete sul-africanos reportaram ao governo de Cyril Ramaphosa que estavam detidos, feridos ou colocados em zonas de combate sem conhecerem os termos do que assinaram. As denúncias chegaram ao fim de novembro e desencadearam um processo político e criminal que envolve nomes poderosos, acusações de aliciamento e suspeitas de ligações ao Kremlin.

Um escândalo que começa em casa

No centro da polémica está Duduzile Zuma-Sambudla, deputada de 43 anos que representava o partido uMkhonto weSizwe (MK), fundado pelo seu pai, o antigo presidente Jacob Zuma. A 22 de novembro, Nkosazana Bonganini Zuma-Mncube, meia-irmã de Duduzile, apresentou uma queixa criminal, alegando que esta entregou dezassete homens a intermediários russos sem que percebessem que se tratava de um recrutamento militar. Oito dos homens seriam membros da família alargada.

As acusações não ficaram confinadas à esfera familiar. A Aliança Democrática, o segundo maior partido do país, apresentou igualmente queixa, anexando capturas de ecrã de alegadas conversas de WhatsApp entre a deputada e alguns dos aliciados. A Direcção de Investigação de Crimes Prioritários, os Hawks, abriu uma investigação formal através da Unidade de Crimes Contra o Estado.

A pressão aumentou a cada dia. A 29 de novembro, sob um clima de contestação crescente, Duduzile renunciou ao cargo parlamentar e a funções no MK. O partido aceitou a demissão, mas sublinhou que isto não constitui uma admissão de culpa. Horas antes da conferência de imprensa, a própria Duduzile apresentou queixa às autoridades, declarando-se vítima de fraude e alegando que foi enganada por terceiros.

A versão da deputada e as falhas do argumento

Na versão apresentada às autoridades, Duduzile afirma que foi contactada via WhatsApp por um homem residente na Rússia, que se identificou como “Khoza” e lhe garantiu acesso a um programa de treino “legítimo, seguro e sem envolvimento em combate”. Diz ter participado num mês de formação, sem exposição directa aos combates, e que, convencida da seriedade do programa, recomendou-o a conhecidos e familiares.

Nos documentos policiais consultados pela imprensa sul-africana, a deputada insiste que ninguém foi coagido e que todos decidiram aderir por iniciativa própria. A presença de membros da sua família no grupo é apresentada como prova da sua boa-fé: se soubesse que se tratava de uma rota para a frente de batalha, não teria exposto os seus.

Contudo, esta defesa colide com depoimentos obtidos junto de alguns dos homens actualmente retidos na Rússia ou na Ucrânia. Três deles sustentam que foram persuadidos por Duduzile a assinar documentos que não compreendiam, apresentados em russo, com explicações vagas sobre “treino de segurança”. Famílias que tentaram contactá-la quando perceberam que os homens tinham sido enviados para a guerra relatam que ela deixou de responder. Um dos irmãos de um recrutado foi claro: quando soube que o seu familiar estava na frente, telefonou-lhe; a partir daí, silêncio.

Esta contradição entre a versão da deputada e os relatos das vítimas é agora o núcleo da investigação criminal. Mas o caso não se esgota aí.

A sombra longa de Jacob Zuma e de Moscovo

Nenhum observador atento da política sul-africana ficou surpreendido com o facto de este caso tocar o universo Zuma. Durante anos, Jacob Zuma construiu uma relação estreita com Moscovo.

A história começa no exílio. Durante a luta contra o apartheid, o Congresso Nacional Africano manteve ligações estruturais com a União Soviética. Vários quadros do movimento receberam treino em território soviético. Investigações históricas e biográficas indicam que Zuma terá recebido formação de serviços militares soviéticos, incluindo treino na Crimeia, num contexto de cooperação entre o ANC e a GRU. Não se trata de um detalhe marginal: a matriz de confiança entre Zuma e Moscovo nasce dessa época.

Já na presidência (2009–2018), esta ligação ganhou um peso económico e estratégico muito maior. Zuma tentou empurrar a África do Sul para um megacontrato nuclear com a estatal russa Rosatom, avaliado em cerca de 1 trilião de rands, o equivalente a dezenas de milhares de milhões de euros. Segundo testemunhos prestados perante a Comissão Zondo, o acordo foi conduzido à margem dos procedimentos normais de contratação pública, com pressão intensa sobre o Ministério das Finanças para o aprovar. O então ministro, Nhlanhla Nene, declarou que a sua recusa em apoiar o negócio foi um dos factores que estiveram na origem da sua demissão em dezembro de 2015.

Mesmo fora do plano económico, a escolha de Moscovo como destino de confiança é recorrente. Quando adoeceu, Zuma viajou para a Rússia para tratamento. Quando enfrentou problemas jurídicos graves, em 2023, voltou a deslocar-se para Moscovo para “tratamento médico”, numa viagem classificada pelas autoridades como “privada, mas não secreta”. A constância destes gestos alimentou a percepção de um eixo político e pessoal que vai muito além da diplomacia formal.

O surgimento de uma filha sua no centro de um alegado esquema de recrutamento para as forças armadas russas reabre o debate sobre até que ponto antigas alianças ideológicas e militares estão a ser mobilizadas numa guerra que não é da África do Sul.

Um padrão que atravessa o continente

A história dos dezassete sul-africanos é apenas um fragmento de um fenómeno mais vasto. O envio de jovens africanos para treino militar no estrangeiro, fora de qualquer escrutínio claro, é rastreável pelo menos até meados da década passada.

Em 2016, por exemplo, uma investigação jornalística sul-africana revelou que Nathi Nhleko, então ministro da Polícia e hoje também membro do MK, esteve envolvido no envio de um grupo de sul-africanos para treino paramilitar não oficial numa academia militar chinesa em Langfang. O programa, que decorreu entre março e maio, terá sido financiado pela ONG Indoni, registada em nome da sua esposa. O objectivo formal nunca ficou totalmente esclarecido, mas o episódio ilustra que o recurso a “formações” no estrangeiro com contornos opacos não é novo.

Na Rússia, o padrão repete-se e amplia-se. De acordo com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Andrii Sybiha, mais de 1 400 cidadãos de 36 países africanos combatem actualmente em unidades ao serviço da Rússia. Os números não puderam ser verificados de forma independente, mas vários governos africanos – incluindo o Quénia, os Camarões e o Uganda – já reconheceram publicamente casos de cidadãos seus recrutados sob falsas promessas.

As táticas variam conforme o contexto. Em alguns países, os alvos são militares profissionais, a quem são oferecidos salários dez vezes superiores aos que recebem, bónus de alistamento de milhares de dólares e a perspectiva de um passaporte russo. Noutros, exploram-se migrantes em situação irregular na Rússia, pressionados a escolher entre deportação e alistamento. Noutros ainda, a porta de entrada é a promessa de empregos civis em construção, logística ou segurança privada, com contratos apresentados em russo a pessoas que não dominam a língua.

O caso de Richard Kanu, um militar da Serra Leoa, tornou-se emblemático. Convenceu-se de que estava a candidatar-se a um trabalho em São Petersburgo. Ao chegar, encontrou uma base militar em Rostov-on-Don, perto da fronteira ucraniana. Nos meses seguintes, viu dezenas de africanos como ele morrerem em Donetsk. Muitos pensavam, até ao último momento, que estavam num programa de emprego civil.

A necessidade russa e o papel do Sul Global

A razão do interesse russo é directa: falta de pessoal militar numa guerra prolongada. Segundo estimativas ocidentais, a Rússia pode perder centenas de soldados por dia na Ucrânia; em fases de ofensiva intensa, alguns serviços de inteligência apontam picos próximos de mil baixas diárias. Para o Kremlin, uma mobilização interna alargada é politicamente perigosa, sobretudo nas grandes cidades como Moscovo e São Petersburgo, onde o descontentamento é mais visível.

O resultado é um desvio do esforço de recrutamento para o Sul Global. Há um terreno histórico favorável: a memória da solidariedade soviética com os movimentos de libertação africanos, a fragilidade económica de muitos países, a erosão da presença ocidental em várias regiões e um espaço informativo onde a fiscalização é irregular. Em cima disso, actua uma estrutura militar especializada: o chamado “Africa Corps”, criado em 2023 a partir dos remanescentes do Grupo Wagner e integrado no Ministério da Defesa russo. Este corpo opera simultaneamente em África e na Ucrânia, servindo tanto para proteger interesses russos no continente como para alimentar a frente de guerra.

Relatórios do Ministério da Defesa britânico e de outros serviços apontam para a presença de elementos do Africa Corps em sectores-chave da frente de Kharkiv, o que indica que Moscovo está disposta a deslocar unidades originalmente pensadas para o teatro africano para reforçar as linhas de combate na Europa de Leste. Na prática, África torna-se reserva de homens para uma guerra distante.

Para os recrutados, a realidade é devastadora. Muitos são enviados para operações de assalto em posições fortificadas, com taxas de sobrevivência muito baixas. Quando são capturados, nem sempre o seu nome entra nas negociações de troca de prisioneiros. E, quando regressam, enfrentam a possibilidade de acusação criminal nos países de origem por participação em actividades mercenárias.

As ondas de choque em Pretória

No plano interno sul-africano, o caso dos dezassete homens apanhados na guerra tem consequências que vão além da responsabilidade penal individual. O MK, que obteve 58 lugares em 400 na Assembleia Nacional nas eleições de 2024, vê a sua credibilidade abalada. O partido nasceu organizado em torno da figura de Jacob Zuma, com um discurso de resistência contra o ANC e o sistema judicial. Agora, tem de lidar com suspeitas de que figuras suas participaram, directa ou indirectamente, num esquema de recrutamento para uma guerra estrangeira.

Jacob Zuma terá intervindo junto de contactos russos na tentativa de assegurar o regresso dos homens. Até ao momento, os esforços não produziram resultados visíveis. A Presidência de Cyril Ramaphosa descreveu a situação como “sensível e complexa”, prometendo trabalhar para repatriar os cidadãos. O governo lembra que a legislação sul-africana proíbe o serviço em forças armadas estrangeiras sem autorização e que, em teoria, os envolvidos podem responder por isso.

Tudo isto coloca à prova a política externa de Pretória. A África do Sul tenta manter uma posição de “não-alinhamento” em relação à guerra na Ucrânia, ao mesmo tempo que integra o bloco BRICS, onde a Rússia é parceiro central. O escândalo mostra como essa neutralidade declarada pode ser corroída por redes políticas internas que têm interesses e lealdades próprios.

A história que fica

Para os dezassete homens, as leituras geopolíticas contam pouco. O que importa é sobreviver. O pai de três filhos que atendeu a chamada de julho descreveu, numa mensagem recente, a situação em que se encontra: fisicamente esgotado, sem equipamento adequado, num ambiente que nunca lhe foi explicado. Pede apenas uma coisa: regressar vivo.

A sua experiência é um sinal do que está a acontecer em vários pontos de África. A guerra na Europa alonga-se por canais discretos, mas eficazes, que exploram desigualdades antigas, fragilidades estatais e lealdades políticas herdadas da Guerra Fria. Cada telefonema com uma promessa de “formação no estrangeiro” pode esconder uma bilhete só de ida para as trincheiras.

É esta a verdadeira dimensão do escândalo sul-africano: não é apenas uma história sobre a família Zuma, nem apenas sobre o Kremlin. É a história de como a vulnerabilidade de comunidades inteiras pode ser transformada em munição humana para uma guerra travada a milhares de quilómetros de casa.

Autor do texto : Arcana News

Crédito da Imagem / Direitos de Autor: Giuseppe Di Maria / Pexels Licença: Pexels License

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