A Resistência Silenciosa que Sobrevive na Rússia

Economia

Elian Morvane
Elian Morvanehttps://www.arcananews.com/
Elian Morvane é autor e cronista do Arcana News, escrevendo atualmente na Revista Arcana News, sem deixar de colaborar também em peças noticiosas e em leituras estratégicas de política, economia e sociedade.

Não havia slogans nem cartazes. Apenas uma fila discreta de pessoas, cada uma com uma petição sobre temas aparentemente neutros: qualidade do ar, parques urbanos, estacionamento pago.

À primeira vista, uma manhã banal em Moscovo. Mas o gesto tinha outro alcance: mostrar que, mesmo depois de anos de repressão crescente, ainda há russos que não querem calar-se.

Rússia: a resistência silenciosa que tenta sobreviver entre linhas vermelhas.

Boris Nadezhdin, político veterano, foi um dos organizadores. Disse que o espaço para contestação “encolheu drasticamente”, mas que é preciso aproveitar cada brecha. A sua ideia: juntar cidadãos em torno de reivindicações aparentemente inofensivas para testar até onde pode ir a dissidência sem desencadear punições imediatas.

Desde o início da guerra na Ucrânia, a repressão tornou-se mais dura e imprevisível. O que antes podia resultar numa multa transformou-se em prisão. Músicos foram detidos por cantarem temas considerados “sensíveis”, observadores eleitorais acabaram atrás das grades por simples tarefas de rotina e qualquer crítica pública à intervenção militar pode ser usada como prova criminal.

Com o campo político reduzido a mínimos, muitos opositores enfrentam um dilema: partir e continuar a luta no exílio, ou ficar e abdicar da política formal. Alguns recusam ambas as opções e tentam existir num espaço intermédio.

Há grupos que organizam encontros para escrever cartas a presos políticos. Outros promovem pequenas ações cívicas que o Kremlin não considera ameaçadoras, como recolhas de fundos ou eventos culturais discretos. Partidos marginais, como o Yabloko, tentam manter alguma atividade, mesmo depois de vários dos seus membros terem sido rotulados como “agentes estrangeiros”.

Nikolai Lyaskin é um exemplo dessa adaptação forçada. Antigo aliado de Alexei Navalny, regressou à esfera pública através de temas ambientais e de reciclagem. Reconhece que muitos o criticam por fugir ao tema central — a guerra — mas afirma que prefere manter-se ativo “onde ainda é permitido”.

Nem todos se limitaram a causas locais. Nadezhdin, que chegou a lançar uma campanha presidencial anti-guerra, viu a sua candidatura ser travada depois de milhares de pessoas terem formado filas para o apoiar. Mesmo assim, diz que vai tentar concorrer ao Parlamento no próximo ano, apesar de esperar que as autoridades considerem inválidas as assinaturas recolhidas.

Outros, como Yulia Galyamina — investigadora e antiga deputada local — tentam sobreviver ao estatuto de “agente estrangeira”, que anula quase toda a sua capacidade legal de atuar em público. Hoje dedica-se a treinar ativistas de bairro, procurando “entrar em todas as fendas que ainda não foram seladas”.

Esta atividade de baixa intensidade tem ajudado muitos russos a manter um mínimo sentido de participação, segundo investigadores de centros académicos europeus. Mas o regime não tem hesitado em punir até estes gestos. No mês passado, Maxim Kruglov, dirigente do Yabloko, foi detido devido a um comentário antigo sobre alegados crimes de guerra em Bucha.

Analistas acreditam que o Kremlin receia que até os atores mais moderados possam transformar-se em polos de concentração de descontentamento. Se tiverem espaço para falar de temas que o governo tenta evitar — sobretudo a guerra — podem obrigar todo o restante sistema político a responder. E isso é precisamente o que o poder quer evitar.

No meio de tudo isto, as vozes dissidentes que permanecem no país continuam a procurar pequenas formas de existir. Alguns recolhem lixo para reciclar. Outros escrevem cartas. Outros tentam ensinar. Todos tentam, à sua escala, mostrar que o silêncio imposto não é unanimidade — apenas medo.

Autor do texto: Arcana News

Autor da Imagem: MarcelloRabozzi, via Pixabay

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