O Governo apresentou como novidade o maior investimento estrangeiro de sempre em Portugal — o centro de dados da Microsoft em Sines —, já revelado em 2022 pelo executivo de António Costa e associado à polémica Operação Influencer.
Por Arcana News — Redação
O Parlamento ouviu esta semana o ministro da Economia, Manuel Castro Almeida, destacar um feito que descreveu como “o maior investimento direto estrangeiro de sempre em Portugal”: 8,5 mil milhões de euros para a construção de um centro de dados da Microsoft em Sines.
A afirmação soou imponente, mas tinha um detalhe incómodo — não era nova. O projeto, apresentado como inédito, foi anunciado pela primeira vez em 2022 pelo então primeiro-ministro António Costa, tendo sido classificado como de Potencial Interesse Nacional e citado no processo que mais tarde originou a Operação Influencer.
O projeto que atravessou governos
O investimento corresponde à criação do Sines Data Center, um complexo de alta capacidade dedicado à computação em nuvem e à inteligência artificial.
A infraestrutura deverá entrar em funcionamento até 2030, será alimentada por energia 100% renovável e utilizará sistemas de arrefecimento com água do mar — aproveitando parte das estruturas da antiga central a carvão.
O consórcio responsável, liderado pela Start Campus e em parceria com a britânica Nscale, pretende colocar Sines no mapa global das comunicações digitais, tornando Portugal um ponto estratégico na ligação de cabos submarinos que ligam a Europa, África e América.
Um investimento que vale por um país
Segundo projeções do estudo da Copenhagen Economics, o centro poderá contribuir com mais de 26 mil milhões de euros para o PIB nacional até 2030 e gerar dezenas de milhares de empregos diretos e indiretos.
Além disso, reforça o objetivo de tornar o país um hub tecnológico soberano, capaz de acolher dados críticos europeus num contexto de transição digital e segurança energética.
Para o Ministério das Infraestruturas, trata-se de um “projeto-âncora” da política de inovação e sustentabilidade, enquanto a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) o descreve como uma aposta que “posiciona o país entre os líderes da transformação digital europeia”.
A sombra política
A reedição do anúncio provocou desconforto nas bancadas parlamentares. Vários deputados lembraram que o mesmo projeto foi apresentado há mais de dois anos, sob o Governo anterior, e questionaram a intenção política por detrás da repetição.
A coincidência é delicada: o investimento da Microsoft foi um dos elementos centrais investigados no âmbito da Operação Influencer, processo que envolveu suspeitas de tráfico de influência e precipitou a demissão de António Costa em novembro de 2023.
Agora, sob nova liderança, o mesmo investimento volta a ser celebrado — mas com menos euforia e mais cautela.
Entre a inovação e a memória
Com o primeiro edifício já em funcionamento e outros cinco previstos, o Sines Data Center é hoje uma das peças-chave da presença tecnológica da Microsoft na Europa.
O projeto insere-se numa estratégia de longo prazo que combina energia verde, cabos submarinos e inteligência artificial — e que pode redefinir o papel de Portugal na geopolítica digital.
Mas, politicamente, o episódio revela algo mais profundo: a fragilidade da memória institucional.
Num país onde os anúncios se repetem e as promessas mudam apenas de voz, a fronteira entre novidade e reapresentação torna-se cada vez mais difícil de distinguir.


