ANÁLISE · Ásia · Defesa e Segurança
O governo talibã acusou esta terça-feira o Paquistão de realizar ataques aéreos mortais em três províncias do leste do Afeganistão. Segundo Zabihullah Mujahid, porta-voz oficial em Cabul, um bombardeamento atingiu uma casa na província de Khost, provocando a morte de nove crianças e uma mulher. Outras operações, alegadamente em Kunar e Paktika, teriam deixado vários feridos. Cabul classificou o incidente como uma “violação de território” e prometeu responder “no momento apropriado”.
Islamabad rejeitou prontamente a acusação. O porta-voz militar paquistanês, Ahmad Sharif Chaudhry, afirmou que o país “não ataca civis” e que nenhuma operação foi realizada durante a noite. Recordou ainda que os ataques assumidos pelo Paquistão, em outubro, visavam esconderijos do Tehrik-e-Taliban Pakistan (TTP), responsáveis por uma série de atentados no país.
Escalada fronteiriça entre Afeganistão e Paquistão reacende tensão regional.
O episódio reacende a tensão entre dois governos que, apesar de partilharem laços históricos e fronteiriços, mantêm relações profundamente instáveis. O cessar-fogo mediado por Qatar e Turquia em outubro permanece formalmente em vigor, mas ambos os lados trocam acusações de violações pontuais e ações hostis.
A situação deteriorou-se ainda mais após o ataque de segunda-feira em Peshawar, onde militantes armados invadiram o quartel-general da polícia paramilitar paquistanesa, matando três agentes. O Paquistão responsabiliza elementos do TTP, grupo que opera a partir de zonas tribais próximas da fronteira e que mantém afinidades com os talibãs afegãos. Cabul nega qualquer apoio.
Além dos confrontos e acusações, a crise tem impacto direto na vida quotidiana. A fronteira permanece praticamente encerrada há semanas, afetando o comércio bilateral e impedindo famílias divididas entre os dois países de se deslocarem.
Enquanto isso, atores regionais procuram posicionar-se. O Irão ofereceu-se para intervir como mediador, e encontros diplomáticos recentes sublinham o receio de que os incidentes possam desencadear uma escalada mais séria num dos corredores estratégicos mais sensíveis da Ásia.
Para já, os factos permanecem contestados. E o risco central mantém-se: uma fronteira historicamente volátil, dois governos em permanente desconfiança e grupos armados capazes de arrastar ambos os países para uma espiral de violência difícil de controlar.
Autor: Arcana News


