Trump promete fortes cortes de juros, mas enfrenta uma Reserva Federal em rutura

Economia

Arcana News
Arcana Newshttps://www.arcananews.com/
Arcana News é uma publicação independente dedicada à informação, à cultura e à consciência pública. A sua missão é pensar com liberdade e pluralidade, dando voz a diferentes olhares e defendendo o valor da palavra como espaço de verdade.

NOTÍCIA

Donald Trump garantiu na semana passada que, assim que conseguir colocar “o seu” presidente à frente da Reserva Federal, as taxas de juro nos Estados Unidos vão cair de forma significativa já a partir de maio do próximo ano.

A promessa, politicamente poderosa, choca porém com a realidade interna do banco central: a decisão de um eventual novo corte em dezembro já está a gerar a maior contestação dentro da instituição em quase oito anos de liderança de Jerome Powell.

O que Trump quer da Reserva Federal

Trump tem dito em público que a economia norte-americana precisa de juros muito mais baixos e que a Reserva Federal está a travar o crescimento. A sua expectativa é simples: com um novo presidente escolhido pela Casa Branca, a partir de maio a política monetária passaria a alinhar-se com a agenda da Administração, acelerando os cortes.

Mas mesmo dentro do comité de política monetária da Fed — o Federal Open Market Committee (FOMC), que reúne sete governadores nomeados pelo presidente e cinco responsáveis dos bancos da Reserva Federal regionais — ninguém decide sozinho. O presidente funciona mais como “quarterback” de uma equipa de 12 votantes do que como comandante único. Precisa de construir maioria a cada reunião.

Hoje, essa maioria está longe de ser garantida. Depois de dois cortes consecutivos nas últimas reuniões, que colocaram a taxa diretora num intervalo em torno dos 3,75%–4%, uma parte relevante dos responsáveis, sobretudo nos bancos regionais, resiste a um novo alívio já em dezembro. Uns temem que a inflação se aproxime perigosamente dos 3%, acima da meta de 2%; outros querem sinais mais claros de abrandamento do mercado de trabalho antes de descer mais os juros.

Uma Reserva Federal cada vez mais dividida

Desde a década de 1990 que os presidentes da Fed, de Alan Greenspan a Ben Bernanke e Janet Yellen, cultivaram um modelo de decisão assente num consenso tão amplo quanto possível. Votações decididas por margens mínimas eram vistas como exceção. Desde 1993 houve apenas cinco reuniões com três votos de dissidência e, desde 1992, nenhuma em que quatro membros tenham votado contra a decisão final.

Esse padrão está agora em risco. Analistas próximos da instituição admitem que, qualquer que seja a escolha em dezembro — cortar ou manter as taxas —, é real a hipótese de três ou mais votos contra. E avisam que, se este tipo de divisão se tornar rotina, a cultura de consenso que deu previsibilidade à política monetária norte-americana pode ficar para trás.

“Estamos a assistir ao esfarelar de um processo que funcionou durante mais de 30 anos”, alertou Krishna Guha, antigo responsável da Fed de Nova Iorque, defendendo que o comité arrisca entrar num ciclo de decisões tomadas por maiorias simples e instáveis.

Pressão política e risco para a independência do banco central

Por detrás da discórdia técnica está também a política. Vários veteranos da Reserva Federal temem que Trump não aceite um cenário de cortes mais lentos do que aquilo que promete nas campanhas e tente redesenhar a instituição para garantir juros sempre mais baixos.

Quando os nomeados por Trump passarem a ser maioria no conselho de governadores, terão poder formal para substituir presidentes dos bancos regionais — figuras que, até aqui, funcionam como almofada não partidária, porque não resultam de nomeações políticas. Em paralelo, um novo presidente da Fed poderá tentar afastar parte da equipa de economistas que produz previsões independentes para a instituição.

Trump já ameaçou publicamente demitir Powell e tem atacado responsáveis como Lisa Cook, governadora acusada de alegadas irregularidades financeiras que ela rejeita. O Supremo Tribunal terá de decidir se o presidente pode ou não afastar membros do conselho com base em motivos políticos, decisão que pode abrir caminho a novas substituições.

Vários dos nomes mais falados para suceder a Powell, alguns antigos governadores e economistas ligados à Casa Branca, defendem que o banco central se tornou demasiado político — uma crítica que, na prática, pode servir de argumento para uma purga interna e para a instalação de uma direção mais alinhada com a agenda da Administração.

Independência em teste

Dentro da própria Fed há quem veja benefícios em mais debate e mais votos de dissidência, sobretudo num momento em que a instituição tenta conciliar dois objetivos que hoje parecem contraditórios: controlar a inflação e proteger o emprego. Mas muitos avisam que, se as clivagens começarem a alinhar-se claramente com linhas partidárias, a independência do banco central ficará em causa.

Christopher Waller, um dos governadores que tem figurado nas listas de possíveis sucessores de Powell, resumiu o dilema: alguma divergência é saudável, mas decisões por margens de 7–5 em cada reunião deixariam a política monetária refém de pequenas mudanças de voto. Bastaria um responsável mudar de posição para virar por completo a trajetória das taxas.

Para já, o que está em jogo em dezembro é uma terceira descida de juros num ano marcado pelo choque das políticas comerciais e migratórias, que ao mesmo tempo travam o emprego e empurram preços para cima. Mais do que a decisão em si, será a forma como o comité votar — e como Trump reagir — que dirá até que ponto a Fed consegue preservar a sua margem de independência num ciclo político cada vez mais tenso.

- Advertisement -spot_img

Mais artigos

Edição Arcana Newsspot_img

Leitura Essencial