Cessar-fogo em Gaza, demolições continuam no terreno

Economia

Alberto Carvalho
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Alberto Carvalho é cronista e editor convidado do Arcana News. Escreve sobre política, cultura e vida pública, com uma atenção permanente ao impacto social das decisões coletivas. Os seus textos combinam rigor crítico, clareza jornalística e uma voz literária própria, orientada por valores humanistas e democráticos.

Mais de dois meses depois de Israel e o Hamas terem acordado um cessar-fogo em Gaza, a destruição no terreno não parou. Uma análise baseada em imagens de satélite conclui que, desde o início da trégua, foram demolidos mais de milhares de edifícios no enclave, num processo concentrado sobretudo nas áreas que ficaram sob controlo militar israelita.

A destruição prossegue apesar da trégua.

A contagem resulta do cruzamento de imagens de alta resolução fornecidas pela Planet Labs e de comparações temporais feitas em vários pontos da Faixa de Gaza. O padrão observado mostra quarteirões inteiros a desaparecerem entre captações feitas logo após o cessar-fogo e registos obtidos semanas mais tarde.

Um dos episódios visíveis em vídeo, datado de 30 de outubro, já com a trégua em vigor, sugere uma demolição controlada em grande escala numa zona de Shejaiya, bairro de Gaza City que se encontra sob controlo israelita. A sequência decorre de noite e mostra uma explosão extensa, compatível com operações de engenharia destinadas a derrubar estruturas de forma planeada.

O cessar-fogo previa uma retirada israelita para lá de um limite interno do enclave, representado em mapas divulgados por Israel como uma linha amarela. Essa linha deixou Israel com controlo sobre cerca de metade da Faixa de Gaza. A maior parte das demolições identificadas ocorreu dentro dessas áreas controladas.

Ainda assim, a mesma análise detetou dezenas de edifícios destruídos para além da linha amarela, em zonas onde, pela lógica do acordo, a atividade militar deveria ter sido suspensa. Em alguns casos, as marcas de destruição aparecem para lá do limite indicado nos mapas.

O grau de dano pré-existente torna a leitura mais complexa. Um levantamento das Nações Unidas indicava, já a 11 de outubro, que mais de 80% das estruturas de Gaza estavam danificadas ou destruídas, após dois anos de bombardeamentos. Muitos edifícios agora demolidos poderiam estar estruturalmente comprometidos e as populações residentes, em larga medida, já tinham sido deslocadas por ordens de evacuação sucessivas.

Israel enquadra as demolições como parte de um esforço de “desmilitarização” do território, visando túneis subterrâneos e edifícios armadilhados. Durante a fase mais intensa da guerra, autoridades israelitas estimaram que a rede de túneis se estendia por centenas de quilómetros, com milhares de entradas, sendo usada por grupos armados para armazenar armamento, esconder reféns e criar pontos de emboscada.

Imagens comparativas que também circulam na Internet mostram alterações significativas em zonas agrícolas do leste do enclave, incluindo estufas e pomares, além de áreas urbanas onde ruas e blocos habitacionais foram reduzidos a terreno nu. O efeito acumulado é a expansão de “faixas vazias” junto às áreas sob controlo israelita, com implicações diretas para qualquer regresso de populações e para a recuperação económica local.

A destruição contínua coloca pressão adicional sobre a sustentabilidade do cessar-fogo e sobre a fase seguinte do processo político. O acordo foi apresentado como pausa para travar operações militares, mas inclui igualmente a intenção de eliminar infraestruturas ofensivas. O equilíbrio entre essas duas dimensões — suspensão de operações e neutralização de meios militares — é hoje o ponto mais sensível.

Não é claro como será fiscalizada, no terreno, a fronteira operacional definida pela linha de retirada, nem que mecanismos existem para confirmar se demolições observadas fora dessa linha resultam de operações diretas, de colapsos induzidos por explosões subterrâneas ou de ataques à distância. A ausência de verificação independente plena deixa partes do quadro dependentes de análise técnica e de leituras por satélite.

O cessar-fogo foi assinado. Desde então, os sinais recolhidos por satélite sugerem que a guerra, mesmo sem a mesma cadência de bombardeamento, continua a redesenhar Gaza por via da demolição.


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