O desporto não precisa de se curvar perante ninguém

Economia

Aurelian Draven
Aurelian Dravenhttps://www.arcananews.com/
Aurelian Draven é correspondente especial do Arcana News, dedicado ao estudo de conflitos, memória e territórios esquecidos. É focado em segurança internacional, zonas de conflito e dinâmicas do Médio Oriente.

OPINIÃO · Desporto · Geopolítica

A cerimónia grotesca em que a FIFA entregou um prémio de paz inventado a Donald Trump não é apenas mais um episódio de má comédia institucional. É sintoma de uma deriva perigosa: organizações desportivas que trocaram qualquer pretensão de independência pelo acesso a poder e dinheiro, esquecendo-se que a sua legitimidade vem precisamente de não pertencerem a ninguém.

Infantino transformou a FIFA num instrumento de propaganda para autocratas.

Há gestos que dizem mais do que mil declarações oficiais. Quando Gianni Infantino segurou aquele troféu ridículo no Kennedy Center e o entregou a Donald Trump numa cerimónia que transformou o sorteio do Mundial 2026 num comício político mal disfarçado, ficou claro que a FIFA desistiu completamente de fingir que ainda tem alguma dignidade institucional.

O FIFA Peace Prize foi criado em novembro, aparentemente do nada, depois de Infantino ter manifestado publicamente a sua deceção por Trump não ter ganho o Nobel da Paz. Não houve critérios divulgados, não houve processo de seleção, não houve sequer o pudor de esperar algum tempo antes de entregar o prémio ao destinatário óbvio. Foi uma operação tão transparente que beirou o insulto à inteligência de quem assistia.

Mas importa perceber que isto não é um caso isolado de um dirigente bajulador. É o culminar de uma estratégia deliberada que Infantino tem seguido desde que assumiu a FIFA em 2016, prometendo restaurar a reputação da organização depois dos escândalos de corrupção que afastaram a liderança anterior. A restauração, como se viu, consistiu em substituir a corrupção discreta por uma promiscuidade ostensiva com qualquer autocrata ou líder autoritário que possa ajudar a expandir o negócio.

A lista é longa e bem documentada. Infantino esteve em Davos com Trump, na assinatura dos Acordos de Abraão, na segunda tomada de posse trumpista entre bilionários, em cimeiras sobre Gaza, em jatos privados do Qatar, em jantares de Estado para Mohammed bin Salman. Cada aparição pública ao lado de figuras controversas é apresentada como diplomacia desportiva, como se a FIFA fosse uma espécie de Nações Unidas do futebol. Não é. É uma organização privada que gere um negócio lucrativo e que tem usado essa posição para se insinuar junto de quem tem poder real.

O argumento de defesa é sempre o mesmo: expandir o jogo, levar o futebol a novos mercados, aumentar receitas que depois são redistribuídas pelas federações nacionais. É verdade que as receitas da FIFA dispararam desde que Infantino assumiu. É verdade que o Mundial de 2026 terá quarenta e oito equipas, dezasseis cidades anfitriãs, setenta e dois jogos só na primeira ronda. É verdade que os números impressionam.

Mas também é verdade que esta expansão tem um preço que vai muito além dos bilhetes cada vez mais caros. O Mundial do Qatar foi uma catástrofe de direitos humanos disfarçada de evento desportivo. O Mundial de 2034 será na Arábia Saudita, numa candidatura que não enfrentou oposição porque ninguém se atreveu a desafiar uma decisão que já estava tomada. E o Mundial de 2026 vai realizar-se em países onde o presidente anfitrião ameaça anexar os outros dois anfitriões, criou proibições de viagem que podem impedir adeptos de dezenas de países de assistir aos jogos, e passou o mandato a atacar precisamente as comunidades de imigrantes que mais amam futebol nos Estados Unidos.

Aqui reside a questão central: o desporto de alto nível sempre precisou de dinheiro e de infraestruturas que só os Estados podem fornecer em determinada escala. Mas durante décadas existiu um entendimento tácito de que as organizações desportivas mantinham alguma distância do poder político, precisamente para preservar a ideia de que o desporto transcende fronteiras e ideologias. Essa distância não era sempre respeitada, claro, mas a sua violação causava escândalo e consequências.

Infantino destruiu esse equilíbrio. Não por ingenuidade ou erro de cálculo, mas por estratégia. Percebeu que num mundo onde autocratas controlam recursos financeiros colossais e onde líderes populistas perceberam o valor propagandístico de eventos desportivos, havia uma oportunidade de negócio. A FIFA podia posicionar-se como intermediária entre esses líderes e as massas que adoram futebol, cobrando caro por essa posição.

O problema é que esta estratégia corrói a única coisa que torna o desporto verdadeiramente valioso: a ideia de que existe um espaço onde as regras são iguais para todos, onde o que conta é o mérito em campo, onde não importa de onde vens ou quem conheces. Quando a FIFA se transforma em mais um instrumento de soft power para regimes autoritários, quando prémios de paz são distribuídos a políticos que ameaçam anexar países vizinhos, essa ideia morre um pouco.

E não se trata de moralismo ingénuo. O desporto sempre teve política, sempre teve dinheiro sujo, sempre teve dirigentes corruptos. Mas havia limites ao que era considerado aceitável em público. A grande conquista de Infantino foi normalizar o inaceitável, fazer com que pareça perfeitamente natural que o presidente da FIFA seja fotografado sistematicamente ao lado de figuras que representam tudo aquilo que o desporto supostamente combate.

O Mundial de 2026 vai acontecer e provavelmente será um sucesso desportivo. Haverá grandes jogos, momentos memoráveis, histórias que ficarão para sempre. O futebol é suficientemente forte para sobreviver aos seus dirigentes. Mas não devíamos precisar de escolher entre amar o jogo e desprezar quem o gere. Não devíamos ter de aceitar que para ver as melhores equipas do mundo a competir temos de engolir cerimónias grotescas onde o desporto se ajoelha perante o poder.

A questão que fica é simples: para quê? A FIFA já é obscenamente rica. O futebol já é o desporto mais popular do planeta. Que valor acrescentado traz esta subserviência constante a líderes autoritários? A resposta é igualmente simples: nenhum. Serve apenas os interesses pessoais de Infantino e de um círculo de dirigentes que perceberam que há mais dinheiro e influência a ganhar sendo cúmplices do poder do que defendendo a integridade do desporto.

O desporto não precisa de se curvar perante ninguém. Tem força própria, história própria, legitimidade própria. Mas enquanto as suas instituições forem geridas por pessoas dispostas a trocar essa força por acesso a palácios e jatos privados, continuaremos a assistir a cenas patéticas como a do Kennedy Center. E continuaremos a perguntar-nos quando é que alguém com autoridade vai ter a coragem de dizer que basta.

Autor do Texto: Aurelian Draven

Imagem: Crédito: Alena Darmel via Pexels

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