Japão aprova defesa recorde: 9,04 triliões de ienes

Economia

Aurelian Draven
Aurelian Dravenhttps://www.arcananews.com/
Aurelian Draven é correspondente especial do Arcana News, dedicado ao estudo de conflitos, memória e territórios esquecidos. É focado em segurança internacional, zonas de conflito e dinâmicas do Médio Oriente.

ANÁLISE · Mundo · Ásia-Pacífico · Japão/China · Defesa.

Na sexta-feira, 26 de Dezembro, (num daqueles dias em que os governos fazem contas como quem fecha portas), o gabinete japonês aprovou um orçamento de defesa recorde para o próximo ano fiscal: 9,04 triliões de ienes — perto de €49,29 mil milhões (euros) .

Japão aprova orçamento de defesa recorde: ¥9,04 triliões para mísseis e drones (a olhar para a China).

É o quarto ano consecutivo de aumentos dentro do plano de cinco anos que pretende levar o Japão a gastar, de forma sustentada, cerca de 2% do PIB em defesa.

O ministro da Defesa, Shinjiro Koizumi, chamou-lhe (com a frieza típica destas frases) “o mínimo necessário” perante o “ambiente de segurança mais severo e complexo” da era pós-guerra. E, como é quase obrigatório em Tóquio, acrescentou a ideia de que o país não abandona a sua identidade pacífica — (como se a palavra ainda chegasse para segurar a realidade).

O contexto: China, Taiwan e a pressão no sudoeste.

O problema é que a realidade já não cabe inteira dentro da expressão “nação amante da paz”. E todos sabem porquê, mesmo quando ninguém precisa de o dizer.

A China que ninguém precisa de nomear (porque toda a gente a vê)

O aumento — cerca de 9,4% face ao ano anterior — surge num momento em que as tensões com Pequim deixaram de ser um sobressalto de fundo e passaram a ser (quase) o argumento central da política de segurança japonesa.

Em Novembro, a primeira-ministra Sanae Takaichi ligou, de forma explícita, a segurança do Japão a um cenário de força contra Taiwan — e Pequim respondeu como responde sempre quando sente que alguém lhe toca no assunto: com indignação pública, pressão diplomática e aviso.

Depois veio a parte que, no Indo-Pacífico, é a mais perigosa: a parte operacional.

Em Dezembro, Tóquio acusou caças chineses J-15, a operar a partir do porta-aviões Liaoning, de terem apontado um radar de controlo de tiro a F-15 japoneses perto das ilhas do sudoeste — um gesto que, na linguagem militar, (não é metáfora) é sinal de ameaça. O Japão convocou o embaixador chinês; a China negou e devolveu a acusação.

E isto encaixa num padrão que Tóquio tem seguido com apreensão crescente: operações chinesas cada vez mais largas, cada vez mais frequentes, (cada vez) mais longe.

Em Junho, o Japão disse ter observado, pela primeira vez, dois porta-aviões chineses a operar quase em simultâneo no Pacífico.

Mísseis, drones e a mudança de gramática

É aqui que o orçamento deixa de ser apenas um “número” e passa a ser (uma frase estratégica).

O plano reserva mais de 970 mil milhões de ienes para reforçar as capacidades de mísseis de longo alcance — os chamados “standoff”, pensados para disparar de longe, mantendo distância. Dentro desse bloco está a compra de 177 mil milhões de ienes em mísseis Tipo-12 melhorados, superfície-para-navio, com alcance na ordem dos 1.000 quilómetros.

O primeiro lote deverá ser destacado na Câmara de Kumamoto até Março — um ano mais cedo do que o previsto. (E há coisas que não precisam de ser explicadas duas vezes.)

Kumamoto não é um ponto abstrato no mapa: fica na zona onde o Japão olha para Taiwan e para as rotas de acesso; onde a distância é geografia e a geografia é cálculo.

Depois há o outro eixo: o das plataformas não tripuladas.

O orçamento inclui 100 mil milhões de ienes para drones aéreos, de superfície e subaquáticos — “massivos”, na formulação do plano — integrados num sistema chamado SHIELD, com meta de implementação até Março de 2028. Num país a envelhecer, com dificuldades de recrutamento e uma força armada sob pressão demográfica, isto é (ao mesmo tempo) tecnologia e necessidade.

Indústria, alianças e exportação (o Japão a sair da sua própria sombra)

O orçamento não serve só para comprar. Serve para empurrar uma indústria. O Japão mantém o projeto do caça de próxima geração com o Reino Unido e a Itália (com um horizonte em 2035) e abre espaço para drones com IA a operar em conjunto com esse aparelho — uma forma de dizer que o futuro não é apenas “mais aviões”, mas outra lógica de combate.

E há um sinal que, por si só, muda o tom: a Austrália selecionou um modelo japonês (baseado na fragata Mogami, numa versão melhorada) para substituir a frota ANZAC. Para Tóquio, é mais do que um contrato: é o Japão a reaparecer, por via industrial, no tabuleiro de defesa do Indo-Pacífico.

Quem paga (e até onde vai isto)

O plano faz parte de um orçamento nacional recorde (122,3 triliões de ienes) e segue agora para o parlamento, com aprovação esperada até Março. Para financiar a trajetória, o governo prevê aumentos fiscais — em empresas e tabaco — e um aumento do imposto sobre o rendimento a partir de 2027.

Se o programa for executado como desenhado, o Japão atinge a meta dos 2% mais cedo do que o previsto e aproxima-se do patamar dos maiores gastadores militares do mundo. (E é precisamente aqui que a frase “nação amante da paz” começa a ganhar outro significado.)

No fim, o Japão está a construir a capacidade de ataque à distância, a acelerar destacamentos no sudoeste e a apostar em drones como espinha dorsal. Koizumi pode chamar-lhe continuidade. Mas, quando um país que viveu décadas a limitar-se à autodefesa começa a falar — e a comprar — “capacidade de atingir alvos”, a palavra “paz” deixa de ser inocente.

Passa a querer dizer: preparação (na esperança de que a preparação evite a guerra).

Até agora, tem funcionado. (Mas a história das corridas armamentistas é sempre a mesma: ninguém quer a guerra, todos se preparam para ela — e a preparação, por si, muda o mundo.)

Imagem: by marcellinusjerricho, via pixabay


Últimos Artigos:

- Advertisement -spot_img

Mais artigos

Edição Arcana Newsspot_img

Leitura Essencial