Durante décadas, o Estado Novo publicou jornais. “Toda a gente” lia jornais. Entre a redação e a impressão havia um passo intermédio que não era exatamente segredo: o censor lia o texto, e o que não devia existir era riscado a lápis azul. O que ficava era impresso. O que não ficava não chegava a existir em forma legível.
O curioso não é que os leitores fossem enganados. O curioso é o que acontecia com os leitores que sabiam — que conheciam o processo, que compreendiam que o jornal que tinham nas mãos era uma versão amputada da realidade. Liam na mesma. Comentavam as notícias. Discutiam o que liam nos cafés. O conhecimento do processo não alterava a prática. O jornal censurado e o jornal não censurado eram lidos da mesma forma, com o mesmo grau de atenção e de credulidade quotidiana, porque a alternativa — suspender o jornal, recusar a informação disponível — era, na prática, inviável. A vida continuava.
Este é o tipo de conhecimento mais difícil de nomear. Não é ignorância: a informação está disponível, o processo é compreendido. Não é cumplicidade ativa: não há benefício pessoal no ato de ler o jornal. É uma forma mais disfarçada — um conhecimento que existe na consciência mas não atravessa para o lado onde as decisões são tomadas, onde o comportamento seria alterado.
As línguas não costumam ter um termo preciso para este estado. “Saber sem agir” sugere cobardia deliberada. “Não saber” é inexato. “Ignorância voluntária” pressupõe uma decisão que, na maioria dos casos, não foi tomada conscientemente.
Talvez o mais honesto seja descrever o mecanismo em vez de o nomear.
Existe uma membrana entre o conhecimento disponível e o conhecimento que produz consequências. Na maior parte das vidas, a maior parte do tempo, essa membrana é funcional e saudável: não é possível habitar em simultâneo o presente imediato e toda a informação sobre o sofrimento do mundo. Não é uma falha — é uma condição do funcionamento.
O problema nasce quando esse mesmo mecanismo opera em relação ao que acontece não no outro lado do planeta, mas na cave do edifício da esquina.
Na Lisboa do Estado Novo havia um edifício no Chiado, na Rua António Maria Cardoso, que as pessoas que precisavam de saber sabiam o que era. A PIDE. Do lado de fora: uma rua normal, farmácias, pastelarias, o fluxo quotidiano de uma cidade. Do lado de dentro: ficheiros, interrogatórios, e, nos pisos inferiores, métodos que o Estado não reconhecia oficialmente mas que eram suficientemente conhecidos para que os mais prudentes regulassem o que diziam e onde o diziam.
Quantos dos que passavam nessa rua todos os dias tinham uma ideia aproximada do que acontecia lá dentro? Impossível saber com precisão. Provavelmente muitos. O que é possível observar é o que faziam com essa ideia aproximada: nada, ou quase nada, que perturbasse a gramática do dia. Iam ao café. Liam o jornal. Não juntavam os pontos que, juntos, produziriam uma imagem insuportável — e por isso insuportável que tornaria a vida quotidiana impossível de habitar.
Chamo-lhe a gramática da normalidade: o sistema de regras não escritas e não deliberadas que determina o que atravessa a membrana e o que fica retido. A primeira e mais fundamental dessas regras é que a vida tem de continuar. O café tem de existir. O trabalho tem de ser feito. Não por aprovação do regime, não necessariamente por medo, mas porque o fluxo da vida quotidiana é a única estrutura disponível para a maioria das pessoas na maior parte do tempo, e interrompê-lo exige um ato de vontade que o horror distante — mesmo o horror próximo, mesmo o horror que se conhece de forma vaga — raramente consegue produzir.
A lógica tem escala.
O que o Estado Novo demonstrou em versão doméstica, a Berlim de 1939 a 1945 demonstrou no extremo.
Berlim tinha, no início da guerra, perto de quatro milhões e meio de habitantes. Desses, uma fração infinitesimal operava o aparato de extermínio. Uma fração pequena estava na resistência ativa. A maioria — a esmagadora, vulgar maioria — ia ao trabalho, fazia filas para comprar manteiga quando havia manteiga, descia ao abrigo quando as sirenes tocavam, subia quando parava. Quando o regime exigia assinar qualquer coisa, assinava. Quando o vizinho judeu deixou de aparecer na escada, não perguntou.
Esta última frase é onde a gramática fica visível.
Não perguntar não é o mesmo que não saber. É uma operação que se realiza abaixo do nível da deliberação — evitar chegar à pergunta que, uma vez formulada, exigiria resposta. Não convocar informação que, convocada, produziria uma imagem incompatível com o funcionamento quotidiano. Não calcular o destino dos comboios que partiam de madrugada. A gramática da normalidade não é uma mentira que se conta a si próprio; é uma arquitetura de atenção que decide, automaticamente e sem instrução consciente, o que merece ser processado e o que não merece.
O que os diários da época revelam, quando se lêem com esta lente, é a gramática em funcionamento — registada com uma inadvertência que é, em si mesma, a prova mais convincente da sua natureza. As descrições de diversão, de dança, de concertos, de anos completamente normais, feitas por pessoas que não eram monstros nem eram ingénuas, que tinham acesso a informação suficiente para desconfiar — essas descrições não são mentiras nem amnésia. São o registo fiel de uma vida que decorreu dentro da gramática, sem a atravessar.
Há um momento em que a gramática range. Não se parte — raramente se parte enquanto o regime ainda funciona — mas torna-se audível.
Em Berlim, esse momento não foi um bombardeamento nem uma derrota. Foi um discurso.
Em fevereiro de 1943, Joseph Goebbels subiu ao palco do Sportpalast e fez à multidão uma pergunta que os regimes totalitários em bom funcionamento nunca precisam de fazer: quereis a guerra total? A multidão respondeu com estrondo. O momento foi gravado e transmitido — a nação a consentir, em voz alta, no que até então tinha apenas tolerado em silêncio.
O gesto foi calculado como demonstração de unidade.
O que revelou foi outra coisa: que o contrato implícito precisava agora de ser explicitado, que a gramática da normalidade já não era suficientemente automática para dispensar a ratificação pública.
Quando um regime precisa de perguntar, é porque já não pode simplesmente presumir. A membrana tinha enfraquecido o suficiente para que a resposta não fosse garantida sem a encenação.
O que se passou a seguir nos documentos privados — nos diários, nas cartas que escaparam à censura, nas conversas que alguém registou — foi uma dissociação mais consciente: pessoas que ainda funcionavam dentro da gramática mas que já não o faziam sem o registar. O mecanismo continuava. Mas deixara de ser invisível para quem o operava.
Há nisto um padrão que os historiadores reconhecem sob vários nomes — acomodação, colaboração passiva, cumplicidade involuntária — mas que nenhum destes termos consegue descrever com precisão, porque todos pressupõem alguma medida de escolha deliberada. O que a gramática da normalidade faz é operar antes da escolha. É a estrutura dentro da qual as escolhas são formuladas — e que determina, portanto, quais as perguntas que chegam a ser feitas e quais nunca chegam a ser formuladas.
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A lição habitual que se tira disto é moral. Perante o horror, devíamos ter feito mais. Devíamos ter perguntado, recusado, resistido. A lição é verdadeira e insuficiente em simultâneo.
É verdadeira porque a responsabilidade existe — o horror não teria a escala que teve sem a cooperação silenciosa de populações com informação suficiente para agir de forma diferente. É insuficiente porque trata a gramática da normalidade como uma falha que se poderia ter corrigido por força de vontade ou de carácter. Uma deficiência moral que a educação adequada ou a consciência suficiente teria evitado.
O que a história revela não é uma falha. É uma característica. A mesma capacidade cognitiva que permite a uma pessoa funcionar numa segunda-feira de manhã banal — sem ser paralisada por toda a informação sobre o sofrimento do mundo que tecnicamente já possui — é a que lhe permite funcionar numa segunda-feira de manhã durante um extermínio. Não é a mesma intensidade moral. É o mesmo mecanismo.
Daqui vem um desconforto diferente do desconforto habitual perante o horror histórico. O horror organizado tem uma arquitetura identificável: uma máquina, operadores, uma lógica que pode ser analisada e, em teoria, travada. O desconforto que a gramática da normalidade produz é de outra natureza, porque a máquina não funciona sem a participação passiva dos que não são maus — e essa participação não é uma anomalia histórica. É uma constante.
Visto de Lisboa, há algo nisto que não é novidade. É reconhecimento.
Portugal teve o seu próprio laboratório, mais pequeno e menos mortífero, mas mecanicamente familiar. A PIDE funcionou durante décadas. Os presos políticos existiram, as deportações existiram, as sessões de interrogatório existiram. E o café continuou a existir ao lado, e o jornal continuou a ser lido, e as conversas sobre futebol continuaram — incluindo entre pessoas que sabiam, ou que preferiam não saber com mais precisão do que já sabiam.
Não é para equivaler as escalas nem para distribuir culpa retroativa. É para reconhecer o mecanismo com a familiaridade que ele merece — não como monstruosidade específica de uma cultura ou de um momento histórico particular, mas como uma capacidade que as sociedades ativam quando o custo de habitar a realidade completa excede o que é quotidianamente suportável.
Este reconhecimento é o que o olhar de Lisboa permite, de uma forma que outros olhares não conseguem da mesma maneira. O espanto moral de quem nunca esteve dentro de uma estrutura assim é genuíno — mas é o espanto de quem não reconhece o mecanismo no próprio espelho. Daqui é mais difícil fazer essa separação confortável. A monstruosidade não é suficientemente estranha.
Em Berlim, nos anos finais da guerra, os berlinenses desenvolveram uma forma peculiar de falar sobre si próprios que os linguistas viriam mais tarde a documentar: uma ironia de sobrevivência que não era resistência nem era aprovação, mas um terceiro estado sem nome — a língua de quem sabe que está dentro de algo que não escolheu e não consegue sair, e que encontrou na formulação oblíqua o único espaço ainda disponível entre o que se pensava e o que se podia dizer.
Não era heroísmo. Era a gramática a fazer o que as gramáticas fazem quando são suficientemente pressionadas: encontrar formas de dizer o que a gramática proíbe, dentro da gramática.
A gramática ainda funcionava. Mas sabia o seu nome.


