Contexto · África · Nigéria / Raptos de crianças
A imagem da Nigéria entrou no ecrã global em 2014, quando 276 alunas foram raptadas em Chibok e o mundo repetiu a mesma frase nas redes sociais: #BringBackOurGirls.
A comoção internacional deu a impressão de que se tratava de um episódio isolado, um horror que, uma vez denunciado, seria travado. Não foi o caso. Mais de uma década depois, os raptos em massa de crianças continuam a marcar o país, agora sob o foco adicional das ameaças de Donald Trump de enviar militares norte-americanos “de armas na mão” para responder ao que descreve como perseguição a cristãos numa das nações mais estratégicas de África.
Na prática, os raptos nunca saíram de cena. O mais recente choque ocorreu numa escola católica no Estado do Níger, no centro do país. Homens armados cercaram o recinto, dispararam para o ar e obrigaram 303 alunos e 12 professores e funcionários a marchar para a floresta vizinha sob a mira de armas. Dias depois, cerca de 50 crianças conseguiram fugir e regressar às famílias, segundo a Igreja local. Entre os desaparecidos, permanecem dezenas de crianças de idade pré-escolar. Nenhum grupo reivindicou formalmente este ataque.
Mesmo para um país habituado à violência, o número impressiona. Mas está longe de ser exceção. Em 2023, mais de 280 alunos foram sequestrados em Kuriga. Em 2021, 317 raparigas desapareceram de um colégio interno em Jangebe. No final de 2020, 344 rapazes foram levados de uma escola em Katsina. Organizações como a Amnistia Internacional contabilizam pelo menos 17 raptos em massa desde 2014, com cerca de 1700 crianças retiradas das escolas por grupos armados, muitas vezes para alimentar um negócio de resgates que se tornou altamente lucrativo.
Uma geografia de medo que atravessa o país
A ameaça não se limita a uma região específica nem a uma única comunidade religiosa. A Nigéria, com cerca de 240 milhões de habitantes, está dividida quase a meio entre população muçulmana, concentrada sobretudo no norte, e população maioritariamente cristã, mais presente no sul. Aproximadamente 105 milhões de nigerianos são menores de idade, de acordo com a UNICEF, o que transforma escolas, internatos e carreiras escolares em alvos permanentes num país onde a segurança do Estado é frágil.
Na narrativa de Trump, o país surge quase exclusivamente como cenário de um suposto massacre de cristãos. A realidade é mais complexa. Ainda antes do ataque à escola católica no Estado do Níger, outro grupo armado invadiu um estabelecimento de ensino no Estado de Kebbi e raptou 25 estudantes, na sua maioria muçulmanos, segundo a polícia local. Em muitas zonas, os grupos que atacam escolas e aldeias escolhem alvos pela vulnerabilidade, não pela religião que professam.
As forças em presença variam de região para região. No nordeste, continua activo o espectro de Boko Haram, o movimento jihadista cujo nome é habitualmente traduzido por “a educação ocidental é proibida” e que ganhou notoriedade precisamente com o rapto das estudantes de Chibok. No noroeste, proliferam bandos armados menos ideológicos e mais interessados no lucro imediato: sequestram crianças, professores e viajantes, exigindo resgates de famílias, comunidades e autoridades.
Terra, fé e dinheiro: conflitos que se sobrepõem
No centro da Nigéria, a violência surge ainda sob outra forma: confrontos entre agricultores maioritariamente cristãos e pastores de gado de tradição muçulmana, numa disputa crónica por terras, água e pastagens. A degradação ambiental e o crescimento demográfico comprimem o espaço disponível, e as tensões acumuladas transformam-se em ataques, represálias e massacres. Estimativas da base de dados ACLED, que acompanha conflitos armados, apontam para mais de 12 mil mortos desde 2010 nestes confrontos entre comunidades agrícolas e grupos nómadas.
O resultado é um mosaico de guerras sobrepostas, em que se cruzam religião, etnia, política local, tráfico de armas e interesses económicos. Em muitos casos, as vítimas são civis sem poder de escolha: aldeias queimadas, famílias que abandonam as casas durante a noite, crianças arrancadas às salas de aula e transformadas em moeda de troca. Cristãos e muçulmanos enterram os seus mortos lado a lado, ainda que por razões diferentes.
Boko Haram, que outrora simbolizou a principal ameaça, fragmentou-se em facções rivais e foi empurrado para áreas mais remotas do nordeste, onde quase já não há comunidades cristãs. Alguns dos raptos mais recentes não são reivindicados por qualquer grupo jihadista, o que indica que o sequestro de crianças se tornou também um método de financiamento para redes criminosas menos visíveis.
Trump, cristãos e a batalha pela narrativa
Foi neste contexto que Donald Trump, hoje de novo na Casa Branca, ameaçou publicamente enviar tropas dos Estados Unidos para a Nigéria, prometendo uma intervenção “de armas em punho” em resposta ao que descreveu como “massacres de cristãos”. As declarações reacenderam a atenção internacional sobre a Nigéria, mas obrigaram também o governo de Abuja a reagir rapidamente, para evitar ser etiquetado como cúmplice de um alegado genocídio religioso.
O Presidente nigeriano Bola Tinubu cancelou uma deslocação prevista a uma cimeira do G20 em África para se concentrar na crise de segurança e nos novos raptos. Em paralelo, uma delegação de alto nível, liderada pelo conselheiro de segurança nacional, deslocou-se a Washington para reunir com representantes do Congresso, da Casa Branca, do Departamento de Estado, do Conselho de Segurança Nacional e do Pentágono.
Numa nota oficial, o executivo nigeriano rejeitou a ideia de que esteja em curso um extermínio sistemático de cristãos, sublinhando que a violência afecta comunidades de várias religiões e origens étnicas. Segundo a mesma declaração, os Estados Unidos manifestaram disponibilidade para reforçar a cooperação em matéria de segurança, sem confirmar qualquer plano de intervenção directa.
A disputa já não é apenas pelos territórios e pelas crianças raptadas, mas também pela forma como a crise é narrada no exterior: se como perseguição dirigida a um grupo religioso específico ou como colapso mais amplo da ordem pública, em que a religião é muitas vezes um factor, mas não o único.
Uma geração afastada da escola
Num país em que o futuro depende do acesso à educação, o impacto mais silencioso destes raptos é o medo. Organizações humanitárias relatam escolas encerradas por impossibilidade de garantir segurança mínima e famílias que preferem manter os filhos em casa a arriscar um ataque durante as aulas ou nas deslocações diárias. A UNICEF estima que cerca de 18,3 milhões de crianças na Nigéria estejam fora do sistema de ensino, em parte por causa da insegurança e da ameaça de sequestros.
Para muitas comunidades, cada rapto não é apenas uma tragédia imediata; é também um aviso duradouro. Um internato atacado hoje pode nunca mais voltar a funcionar em pleno. Pais e mães que viram crianças levadas a tiro dificilmente confiarão de novo numa promessa de segurança vinda de um Estado que falhou repetidamente.
Depois de mais de uma década de raptos em massa, ataques jihadistas, bandos armados e conflitos por terra, os números são devastadores: dezenas de milhares de mortos por violência política e religiosa desde 2011 e uma geração inteira a crescer entre deslocações internas, escolas fechadas e traumas colectivos.
As palavras de Adewole Adebayo, antigo candidato presidencial que pretende voltar a concorrer em 2027, resumem uma sensação partilhada por muitos nigerianos: “Os cristãos estão a ser mortos, mas outros não cristãos também. O problema central é um Estado que falha em proteger os seus cidadãos, independentemente da fé que professam.” A guerra sem rosto que atravessa a Nigéria não cabe numa única hashtag nem numa única narrativa religiosa; é uma crise prolongada de segurança e governação, com as crianças no centro do alvo.


