O Silêncio nas Prateleiras

Economia

Elian Morvane
Elian Morvanehttps://www.arcananews.com/
Elian Morvane é autor e cronista do Arcana News, escrevendo atualmente na Revista Arcana News, sem deixar de colaborar também em peças noticiosas e em leituras estratégicas de política, economia e sociedade.

São Petersburgo, e o entrevistado é um jovem de 26 anos, leitor e trabalhador precário, que fala da vida, dos pais, da literatura e do medo — um retrato íntimo e político de uma geração.

“Falar é um risco que já não se mede”

Entrevista com um jovem leitor em São Petersburgo

(por Elian Morvane — Arcana News)

A neve cai devagar sobre a rua Liteiniy. Dentro da livraria, o ar está saturado de silêncio e papel. Entre estantes altas, um rapaz de olhar claro observa o mundo como quem o decifra linha a linha. Aceitou falar comigo, mas pediu para não ser identificado. Disse apenas a idade — vinte e seis anos — e que trabalha num café “onde se fala pouco e se pensa demais”.

Senta-se à mesa do fundo, o casaco molhado, o livro aberto entre as mãos. As perguntas começam devagar, como quem acende uma fogueira com cuidado.


Livrarias independentes em São Petersburgo resistem à nova vaga de censura, transformando a leitura num gesto de liberdade silenciosa.


— Porque aceitou falar, mesmo sabendo o risco?
Porque é mais difícil calar. O silêncio tem peso. Quando não dizemos nada, é como se estivéssemos a empurrar o país para dentro de uma caixa cada vez mais pequena. Não quero fazer disso heroísmo. Sou só um rapaz que lê e tenta compreender onde vive. Mas há momentos em que o medo de não falar é maior do que o de falar.


— De onde vem esse medo?
Do ar. Está em todo o lado, mesmo quando ninguém o nomeia. Na universidade, já não discutimos certos livros. No trabalho, aprendi a mudar de assunto depressa. O medo não precisa de polícia — basta o hábito. E nós habituámo-nos. Os meus pais também. Eles cresceram com essa prudência, eu apenas a herdei.


— Fala dos seus pais com ternura.
Sim. O meu pai era eletricista, a minha mãe professora de biologia. Em casa, o dinheiro nunca sobrou, mas havia livros. A minha mãe dizia que os livros eram a única herança que não se podia confiscar. Às vezes, lia-me em voz alta o Doutor Jivago, e eu não entendia tudo, mas sabia que aquilo era perigoso. Talvez o amor pela literatura tenha começado nesse medo bonito: o de abrir um livro e sentir que o mundo podia ser outro.


— E hoje, o que é que lê?
Leio devagar. Leio tudo o que ainda não conseguiram proibir. Agora estou a ler Um Passado Inconveniente, de Nikolai Epple. Às vezes leio ensaios, outras vezes poesia. Gosto de Pasternak, de Tsvetáieva, e descobri recentemente a portuguesa Sophia de Mello Breyner — encontrei um exemplar em segunda mão, e foi como descobrir o mar dentro de um quarto.
Leio também os novos autores russos, mesmo os banidos. Há quem os envie por PDF. Quando apagarem os livros, leremos nos ecrãs. E se apagarem os ecrãs, escreveremos à mão.


— Acha que ainda existe esperança?
A esperança aqui não é uma bandeira. É uma teimosia. Há gente a organizar leituras clandestinas, clubes de poesia, debates online. Tudo em voz baixa, mas existe. Cada vez que alguém lê um livro censurado, há uma faísca. Não precisamos de multidões; basta uma pessoa que não se rende à mentira. Eu vejo isso todos os dias.


— Sente-se sozinho?
Às vezes. Mas a solidão é o preço de pensar. E, mesmo assim, não é uma solidão vazia. Há pessoas como eu, que não se conhecem mas se reconhecem quando passam uma pela outra nas livrarias. Uma troca de olhares basta. É o nosso código secreto.


— Fala como se a leitura fosse um ato moral.
É. Ler é decidir que não vamos deixar o medo escrever por nós. Quando leio, lembro-me de quem fui, e percebo que ainda não me tornei aquilo que o poder quer. Cada livro é uma forma de resistência invisível — não grita, mas permanece.


— O que gostaria de dizer à sua geração?
Que não tenha vergonha de sentir. Que não acredite que pensar é inútil. Que há coragem até nos gestos pequenos: comprar um livro proibido, sublinhar uma frase, emprestá-la a outro. É assim que o pensamento sobrevive — de mão em mão, como uma carta sem remetente.


— E se tudo piorar?
Então escreverei mais. Escrever é a última forma de liberdade que resta. Mesmo que nunca publique. Mesmo que ninguém leia. Porque escrever, aqui, é continuar vivo.


Quando nos despedimos, a neve já cobria os degraus da livraria. O rapaz fecha o casaco, põe os auscultadores e desaparece no nevoeiro. Na mochila, leva um livro de capa preta e um caderno gasto. “Para anotar o que não posso dizer em voz alta”, explica antes de sair.

Ficou no ar um cheiro leve a café e papel molhado — e uma certeza: enquanto houver quem leia, o silêncio nunca será total.


Elian Morvane
Reportagem especial para o Arcana News
Fotografias: arquivo e correspondentes locais em São Petersburgo

Categoria: Mundo / Cultura / Reportagens

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