ANÁLISE · China · Economia
Um dos economistas mais influentes da China avisou que a explosão de investimento em inteligência artificial nos Estados Unidos tem todas as características de uma bolha especulativa — e que o seu rebentamento poderá acontecer nos próximos cinco anos.
Justin Yifu Lin, antigo economista-chefe do Banco Mundial, defende uma resposta radical: política fiscal e monetária expansionista para acelerar crescimento chinês acima dos 8% anuais.
O objetivo declarado é claro — fazer Washington desistir do cerco a Pequim através de superioridade económica esmagadora.
Justin Yifu Lin, ex-economista-chefe do Banco Mundial, traça paralelo com bolhas da Internet e imobiliária.
Justin Yifu Lin não é um economista qualquer na hierarquia chinesa. Ex-vice-presidente do Banco Mundial entre 2008 e 2012, dirige hoje o Instituto de Nova Economia Estrutural na Universidade de Pequim e tem acesso direto às elites do Partido Comunista. Quando fala, Pequim escuta. Por isso o discurso que proferiu a 23 de novembro no Fórum dos Economistas em Xangai merece atenção — é provavelmente a primeira articulação doutrinária completa dos desafios macroeconómicos chineses na era da inteligência artificial.
A tese central é simples mas explosiva. Segundo Lin, o investimento maciço em IA nos Estados Unidos replica os padrões de bolhas especulativas anteriores — a do sector da Internet no início dos anos 2000, a imobiliária em 2008. Quando esta rebentar, o choque será comparável à crise financeira global de 2008, que abriu para as economias desenvolvidas duas décadas perdidas.
Os números que Lin apresenta sustentam o diagnóstico. Quando entrou para o Banco Mundial em junho de 2008, o índice Dow Jones mal passava dos 12 mil pontos — um nível que economistas do FMI e do Banco Mundial já consideravam perigosamente especulativo. Hoje, com a economia real americana ainda a recuperar, o índice ultrapassa os 46 mil pontos. Se havia risco de bolha aos 12 mil, argumenta Lin, o risco aos 46 mil é obviamente maior.
O problema não é apenas a valorização das ações. É o facto de enormes volumes de liquidez injetados através de alívio quantitativo ilimitado não terem ido para a economia real. Foram para mercados bolsistas altamente especulativos. O boom atual da IA mostra sinais idênticos ao que precedeu o colapso da Internet. Lin estima que a bolha rebentará durante o período coberto pelo 15º plano quinquenal chinês, entre 2026 e 2030.
A análise de Lin sobre o ambiente económico internacional é particularmente sombria. Desde a crise de 2008, os países desenvolvidos viveram efetivamente duas décadas perdidas. Entre 1960 e 2008, os Estados Unidos cresceram em média 3,3% ao ano. Entre 2008 e 2024, esse número caiu para 2,1% — uma redução de um terço. Na zona euro, a quebra foi ainda mais dramática: de 3,1% para 1,1%, cerca de um terço do ritmo anterior.
A recuperação americana foi mais forte que a europeia por uma razão específica. Washington aproveitou o papel dominante do dólar como principal moeda de reserva internacional e adotou alívio quantitativo ilimitado. Mas esta política teve efeitos secundários graves — enormes operações de arbitragem, fluxos maciços de capital especulativo para países em desenvolvimento seguidos de retiradas súbitas, e a acumulação de riscos especulativos nos mercados financeiros.
Face a este diagnóstico, Lin propõe uma solução que rompe com dogmas estabelecidos da política económica. Defende que a China deve abandonar limitações teóricas artificiais — como o teto de 3% do PIB para défice orçamental ou a ideia de neutralidade das políticas monetárias — e mobilizar de forma estratégica crédito público e investimento, desde que a produtividade continue a crescer.
O argumento é tecnicamente sofisticado. Os modelos teóricos que se opõem a política monetária expansionista baseiam-se na hipótese de que o dinheiro é neutro e que expansão monetária só provoca inflação. Lin nota que esses modelos assumem uma economia que oscila em ciclos sem qualquer aumento de produtividade. Na realidade chinesa, a produtividade continua a crescer. Se o dinheiro adicional for usado para apoiar inovação tecnológica e modernização industrial que aumentam produtividade, e se o ritmo da expansão monetária não exceder o crescimento da produtividade e da produção real, então a inflação não aumentará.
A mesma lógica aplica-se à política orçamental. Lin rejeita a chamada equivalência ricardiana — a teoria de que aumentos nos gastos públicos são compensados por reduções na consumo privado porque as famílias antecipam impostos futuros mais altos. Este modelo também assume que o PIB não cresce e a produtividade não aumenta. Numa economia em expansão como a chinesa, investimentos públicos em infraestruturas que eliminam obstáculos ao crescimento criam empregos imediatamente e aumentam produtividade a médio prazo. O governo pode então usar receitas adicionais futuras para pagar dívida atual sem aumentar impostos.
Lin oferece evidência histórica. A China usou política orçamental expansionista com sucesso para resistir à crise financeira asiática de 1998. A dívida pública subiu de 25% para 36% do PIB entre 1998 e 2003. Mas antes da crise de 2008, tinha voltado aos 25%, mesmo com reduções de impostos, porque o crescimento acelerado gerou receitas suficientes para absorver a dívida.
Por detrás desta argumentação técnica está um objetivo político claramente definido. Lin afirma que a contradição fundamental entre China e Estados Unidos só terminará quando o PIB per capita chinês atingir 50% do nível americano e a produção económica total da China duplicar a americana. Nesse ponto, argumenta, Washington não terá escolha senão cessar a política de contenção.
A matemática demográfica sustenta esta previsão. A China tem 1,4 mil milhões de habitantes, os Estados Unidos cerca de 330 milhões. Mesmo com envelhecimento populacional chinês e crescimento demográfico americano, a população chinesa continuará a ser cerca de quatro vezes maior. Se o PIB per capita chinês atingir metade do nível americano, o PIB total será aproximadamente o dobro, e os recursos materiais que Pequim poderá mobilizar em todos os domínios serão também o dobro.
Mais importante, nesse ponto as regiões mais avançadas da China — Xangai, Pequim, Tianjin e as cinco províncias costeiras orientais, com população total de cerca de 400 milhões — terão PIB per capita comparável ao americano. Os Estados Unidos perderão então vantagem tecnológica clara. E empresas americanas de alta tecnologia, que dependem de orçamentos massivos de investigação financiados por lucros e acesso a grandes mercados, enfrentarão uma escolha existencial: acesso ao mercado chinês ou exclusão dele.
Lin estima que a China tem potencial para crescimento económico anual de 8% até 2035. A estimativa baseia-se em comparações históricas. Quando a Alemanha em 1946, o Japão em 1956 e a Coreia do Sul em 1985 tinham cada uma um PIB per capita representando cerca de 22 a 23% do nível americano, registaram depois crescimento médio anual superior a 8% durante dezasseis anos seguintes. A China está numa posição semelhante hoje.
Mas Lin acrescenta um fator que esses países não tiveram. A quarta revolução industrial, impulsionada por inteligência artificial e big data, criou uma oportunidade para a China ultrapassar economias avançadas. Nesta transformação industrial, China e economias desenvolvidas partem em pé de igualdade. E a China tem vantagens consideráveis: mais de seis milhões de graduados anuais em disciplinas STEM, mais que todo o G7 combinado; o maior mercado doméstico do mundo; a cadeia de fornecimento industrial mais completa globalmente; e vantagens institucionais que combinam “mercados eficientes” com “governo eficaz”.
Lin dedica parte significativa do discurso a desmontar narrativas sobre o abrandamento chinês. Responde diretamente à alegação de que o avanço das empresas estatais estaria a sufocar o sector privado e a causar estagnação. Argumenta que a realidade é oposta. Depois de 2008, o colapso do comércio global afetou principalmente empresas exportadoras privadas chinesas. As exportações chinesas cresciam 24% ao ano até 2008; caíram depois para 3-5% anuais. Este colapso criou sobrecapacidade massiva, reduziu oportunidades de investimento e minou confiança dos investidores privados.
Neste contexto, o governo interveio para sustentar crescimento e preservar emprego através de grandes projetos de infraestruturas — todos financiados e construídos por empresas estatais. Estes investimentos beneficiaram empresas privadas: a maioria do aço, cimento e materiais usados vem do sector privado; os projetos criaram empregos que geraram rendimento e consumo, maioritariamente em produtos do sector privado. Não houve avanço predatório das empresas estatais, mas resposta necessária a choque externo.
Lin também rejeita o argumento de que o envelhecimento demográfico explica o abrandamento. Nota que 53 países enfrentam envelhecimento populacional. Para estas economias, o crescimento do PIB per capita nas dez anos antes e depois do início do envelhecimento foi globalmente similar. Mais: em países que “envelhecem antes de enriquecer” — onde o envelhecimento começou antes do PIB per capita atingir 50% do nível americano — o crescimento económico acelerou depois do início do envelhecimento.
A razão é que governos podem antecipar declínio no número de trabalhadores e reagir aumentando investimentos em educação. O resultado é aumento na oferta efetiva de mão-de-obra. Na China, pessoas que atingem idade de reforma têm em média sete anos de escolaridade; novos entrantes no mercado de trabalho têm mais de catorze. A mão-de-obra efetiva aumenta com o tempo.
O discurso de Lin termina com um apelo à mudança de mentalidade. Afirma que a China ainda tem oportunidades abundantes e potencial de crescimento considerável. É possível atingir taxas superiores a 5% — mas isso requer mudança nas perceções prevalentes tanto sobre as causas do abrandamento atual como sobre a margem de manobra para usar ferramentas políticas. Uma tal mudança necessita, conclui, de inovação na teoria económica.
O que torna este discurso particularmente significativo não é apenas o conteúdo técnico. É o facto de vir de alguém com o perfil e acesso de Lin, num momento em que Pequim prepara o 15º plano quinquenal. O discurso funciona como balão de ensaio doutrinário — testar reações a uma mudança radical na política macroeconómica chinesa.
A aposta de Lin é clara. Se Washington enfrenta o colapso iminente de uma bolha especulativa massiva, e se Pequim conseguir acelerar crescimento através de política fiscal e monetária expansionista bem direcionada, o equilíbrio económico global mudará de forma irreversível nos próximos dez anos. A questão não é se a China vai crescer mais depressa que os Estados Unidos — Lin considera isso garantido dado os diferenciais de produtividade. A questão é se Pequim terá coragem política para romper com limitações teóricas artificiais e mobilizar totalmente a sua capacidade económica.
A ironia histórica não escapará a observadores atentos. Lin propõe essencialmente que a China adopte uma versão muito mais agressiva das políticas keynesianas que o Ocidente abandonou há décadas por pressão de ortodoxia neoliberal. E fá-lo precisamente quando os Estados Unidos, depois de injetar trilhões em alívio quantitativo, enfrentam as consequências de ter alimentado especulação financeira em vez de investimento produtivo.
Se Lin estiver correto sobre a bolha da IA — e os paralelos históricos que traça são perturbadores — os próximos cinco anos definirão não apenas o futuro económico da China, mas o equilíbrio de poder global para o resto do século. Pequim está a preparar-se para esse momento. A questão é se Washington percebe o que vem aí.
Autor do texto: Elian Morvane
Imagem: Licença Pixabay.


