Trump, Europa e o risco de uma aliança em fratura

Economia

Aurelian Draven
Aurelian Dravenhttps://www.arcananews.com/
Aurelian Draven é correspondente especial do Arcana News, dedicado ao estudo de conflitos, memória e territórios esquecidos. É focado em segurança internacional, zonas de conflito e dinâmicas do Médio Oriente.

ANÁLISE · Europa · Relações Transatlânticas

A nova Estratégia de Segurança Nacional divulgada pela Administração Trump cristaliza, em papel timbrado da Casa Branca, aquilo que há anos vinha sendo insinuado em comícios e entrevistas: os Estados Unidos deixam de se ver como garante automático da segurança europeia e passam a tratar a União Europeia mais como problema do que como parceiro.

Trump, Europa e a nova doutrina do desprezo.

No documento agora tornado público, Washington exige que os países do continente assumam a “responsabilidade primária” pela sua própria defesa, sugere que a NATO corre o risco de se transformar numa aliança “maioritariamente não europeia” em termos demográficos e acusa as instituições europeias de sufocarem a liberdade política. Em paralelo, recomenda que os EUA se aproximem de “forças patrióticas europeias” – formula que, na prática, abre a porta a uma sintonia deliberada com partidos da direita radical hostis ao projeto europeu.

Para muitos governos europeus, a mensagem é inequívoca: a potência que durante oito décadas ancorou a segurança do continente já não esconde o incómodo com a integração europeia e está disposta a instrumentalizar as divisões internas da UE.


De Washington a Moscovo: ecos que preocupam

A hostilidade pessoal de Donald Trump em relação à União Europeia não é nova. Já descreveu os aliados como “aproveitadores” que gastam pouco em defesa e chegou a dizer que o projeto europeu foi criado para prejudicar os interesses norte-americanos. A diferença é que, desta vez, a linguagem não surge num improviso de campanha; está sistematizada num texto oficial que pretende orientar a política externa dos EUA.

Vários analistas sublinharam, aliás, a proximidade entre esta visão e o discurso estratégico vindo de Moscovo. O texto norte-americano insiste na ideia de que as elites europeias prolongam a guerra na Ucrânia contra a vontade da maioria dos cidadãos, sugere que a UE é um obstáculo à verdadeira soberania nacional e apresenta a política externa como um exercício de equilíbrio entre grandes potências, mais do que como defesa de normas e direito internacional. É uma grelha de leitura estranhamente próxima da que se encontra em documentos oficiais russos e na propaganda do Kremlin.

Ao defender o apoio a partidos “patrióticos” hostis a Bruxelas, Washington aproxima-se ainda de uma táctica que a Rússia tem usado há mais de uma década: financiar, apoiar ou amplificar forças eurocépticas para enfraquecer o bloco por dentro. Para académicos em regimes autoritários, o novo texto americano representa uma inflexão ideológica clara: a prioridade deixa de ser proteger um espaço comum de regras e passa a ser gerir, de fora, uma Europa fragmentada e mais dócil.


Uma Europa mais armada, mas ainda dependente

Perante a previsível erosão da confiança transatlântica, vários Estados europeus começaram, nos últimos anos, a reforçar a despesa em defesa e a cooperar mais na área militar. A UE criou um comissário dedicado à indústria de defesa, os programas de aquisição conjunta de armamento multiplicaram-se e alguns países reintroduziram ou alargaram o serviço militar. A Alemanha – peça central de qualquer defesa terrestre do continente – aprovou recentemente legislação que prevê um aumento significativo dos efetivos.

Apesar destes movimentos, o diagnóstico continua a ser duro: a Europa não dispõe ainda de integração militar real, carece de capacidades críticas – desde defesa aérea integrada até projecção estratégica – e depende em larga medida do apoio logístico, tecnológico e de inteligência norte-americano. A guerra na Ucrânia tornou essa dependência visível: sem os sistemas, munições e dados fornecidos por Washington, Kiev não teria conseguido resistir da forma como resistiu.

É neste contexto que a nova doutrina de Washington soa a alarme. A mensagem para as capitais europeias é simples: reforcem a vossa capacidade de defesa – e rapidamente – porque o guarda-chuva norte-americano é cada vez mais condicional e politicamente volátil.


Entre a humilhação e o despertar estratégico

Curiosamente, a primeira reação pública de muitos líderes europeus ao novo documento foi contida. Kaja Kallas, alta representante da UE para os Negócios Estrangeiros, apressou-se a sublinhar que os Estados Unidos continuam a ser “o principal aliado” e que a parceria transatlântica permanece essencial. A leitura implícita é conhecida: reagir com indignação poderia oferecer a Trump o confronto que ele procura e fragilizar ainda mais a cooperação em áreas vitais, da Ucrânia ao comércio.

Mas por detrás da contenção diplomática cresce uma sensação de encruzilhada. Até que ponto pode a Europa continuar a depender de uma potência cujo presidente oscila entre a crítica aberta e o desdém estratégico? É sustentável, a prazo, manter um modelo em que a integração económica e política depende de um garante externo que questiona esse mesmo modelo?

Alguns veteranos da política europeia, como Romano Prodi, defendem que a resposta tem de ser estrutural: não se trata de “cortar laços” com Washington, mas de construir uma política de defesa e segurança que permita à UE ter voz própria à mesa das grandes decisões, em vez de ser apenas objeto das escolhas norte-americanas.


Integração, soberania e o risco de um continente à mercê

O desafio é tanto político como militar. A integração europeia, pensada em grande medida para neutralizar rivalidades históricas – em especial o poder alemão – e evitar novos conflitos internos, foi uma das histórias de sucesso do pós-guerra. O mercado único, a livre circulação, as políticas comuns em múltiplas áreas criaram riqueza e consolidaram democracias.

É precisamente esse processo que está sob ataque de fora e de dentro. De fora, através de uma Casa Branca que, ao cortejar formações nacionalistas, procura enfraquecer a capacidade da UE para regular grandes empresas, incluindo tecnológicas norte-americanas. De dentro, através de partidos eurocépticos que apresentam Bruxelas como inimigo da identidade nacional e encontram agora, em Washington, um aliado inesperado.

Para figuras como Nathalie Tocci, especialista em política europeia, o risco é claro: uma Europa dividida em blocos concorrentes, sem massa crítica geopolítica, torna-se um espaço “colonizável” pelas grandes potências – sujeita às pressões alternativas dos Estados Unidos, da Rússia ou da China, sem verdadeira autonomia estratégica.


A hora das escolhas europeias

Perante esta nova doutrina do desprezo, a Europa não tem respostas fáceis. Romper com Washington seria estrategicamente temerário e militarmente impraticável no curto prazo. Fingir que nada mudou seria, porém, uma forma de negar a realidade.

O caminho mais exigente – e provável – passa por um duplo movimento: manter a cooperação com os Estados Unidos em tudo o que for possível, mas, ao mesmo tempo, acelerar de forma séria a construção de uma capacidade europeia de defesa que não dependa do humor de um presidente americano. Isso implica decisões difíceis: investir mais e melhor, aceitar que há soberania que só se exerce em comum, enfrentar resistências internas à integração militar e, sobretudo, explicar aos cidadãos que a segurança tem um custo.

Durante oitenta anos, o continente pôde prosperar sob um guarda-chuva transatlântico que parecia garantido. A nova Estratégia de Segurança Nacional de Trump lembra aos europeus que esse tempo acabou. A questão, agora, é se esta será apenas mais uma humilhação digerida em silêncio ou o início de um verdadeiro despertar estratégico – antes que outros escrevam, em seu lugar, o futuro da Europa.

Autor: Aurelian Draven

Imagem gratuita, licença Pexels – autor: Dante Muñoz.

- Advertisement -spot_img

Mais artigos

Edição Arcana Newsspot_img

Leitura Essencial