Líder chinês sai de Busan com redução de tarifas, suspensão de taxas portuárias e atraso nas restrições tecnológicas.
O encontro entre Xi Jinping e Donald Trump, realizado esta quinta-feira em Busan, na Coreia do Sul, terminou com um claro sinal de vantagem diplomática para Pequim. Ao final de várias horas de conversações, o presidente chinês conseguiu de Washington um pacote de concessões económicas: a redução de tarifas sobre produtos chineses, a suspensão temporária de taxas portuárias aplicadas a navios da China e o adiamento de controlos de exportação norte-americanos que poderiam limitar o acesso de empresas chinesas à tecnologia dos EUA.
As duas potências acordaram ainda prolongar por um ano o cessar-fogo comercial estabelecido no início de 2025, evitando novas escaladas de tarifas.
Para muitos analistas, o resultado confirma que Pequim soube explorar a sua força económica — desde a quase exclusividade na produção de rare earths (terras-raras, minerais indispensáveis à indústria tecnológica) até ao seu poder de compra sobre as exportações agrícolas dos EUA, em especial a soja.
“A China tornou-se mais assertiva no uso do seu peso económico e aprendeu a transformar cada gesto americano num ganho próprio”, afirmou Julian Gewirtz, antigo conselheiro de política chinesa na Casa Branca durante a administração Biden.
Pressão e cálculo
Durante a reunião, Xi Jinping adoptou um tom didático. Referindo-se às “reviravoltas” da guerra comercial, o líder chinês apelou a uma visão “de longo prazo e de cooperação mútua”, segundo o resumo oficial publicado pelo governo de Pequim.
Essas “reviravoltas” incluem meses de medidas retaliatórias entre as duas economias: tarifas, sanções e restrições à exportação. O golpe mais recente veio da própria China, que anunciou novos limites à venda de minerais estratégicos. A mensagem era clara — se os Estados Unidos pressionassem demasiado, Pequim poderia paralisar setores inteiros da sua indústria.
No final, Xi ofereceu uma trégua que beneficiou ambos: os EUA obtêm promessas de compra de soja e de combate ao tráfico de fentanil, e a China preserva o seu estatuto de fornecedor crucial para a economia global.
Um jogo de força e imagem
Para Donald Trump, o encontro também ofereceu dividendos políticos internos. O presidente americano apresentou o acordo como “uma vitória para os agricultores e as empresas dos Estados Unidos”, saudando Xi como “um grande líder e um grande amigo”. A bordo do Air Force One, Trump ergueu o punho e publicou nas redes: “Os nossos agricultores vão ficar muito felizes!”.
Em Pequim, a leitura foi oposta. Especialistas chineses sublinharam que o país saiu do impasse com a iniciativa nas mãos. “Desde 2018, a China foi o único Estado que enfrentou os EUA medida por medida”, comentou Zhu Feng, professor de Relações Internacionais na Universidade de Nanjing.
Segundo Zhu, “se Trump tivesse forçado a aplicação total dos controlos sobre as terras-raras, ambos os países teriam perdido — mas agora é Washington quem pensa duas vezes antes de provocar outra ronda de sanções”.
Trégua ou pausa táctica
A redução das tarifas, anunciada por Trump, corta pela metade os 20% aplicados anteriormente sobre bens chineses. No entanto, especialistas alertam que a trégua é frágil. Pequenas alterações na política de exportações ou no controlo tecnológico podem reacender o conflito.
“É uma diplomacia de táctica sem estratégia”, avaliou Jonathan Czin, investigador da Brookings Institution e antigo analista da CIA. “A administração Trump reage caso a caso, enquanto Pequim segue um plano coerente.”
Mesmo assim, o clima em Busan marcou uma inversão de tom. O tema sensível de Taiwan não foi mencionado no comunicado chinês, sinal de que Xi procurou evitar confrontos diretos. Ambos os líderes declararam vontade de “trabalhar juntos” na procura de uma solução para a guerra da Ucrânia e anunciaram visitas recíprocas para 2026 — primeiro Trump a Pequim, depois Xi a Washington.
Um equilíbrio precário
Apesar do aparente sucesso diplomático, analistas recordam que a estabilidade entre as duas potências continua dependente de gestos de curto prazo. “Estes acordos são fáceis de reverter e de acusar a outra parte de má fé”, comentou Ja Ian Chong, professor na Universidade Nacional de Singapura.
O encontro de Busan mostrou que a guerra comercial EUA-China entrou numa fase de contenção estratégica: ambos sabem o custo de avançar e o risco de recuar. Para Xi, o equilíbrio é uma demonstração de poder; para Trump, uma pausa conveniente antes da próxima eleição.
Autor: Redação Arcana News, com agências internacionais
Foto: Sabel Blanco / Pexels


