O Irão não é um dossiê técnico

Como sete décadas de intervenção americana no Irão produziram sempre um problema estratégico maior do que aquele que pretendiam resolver

Economia

Elian Morvane
Elian Morvanehttps://www.arcananews.com/
Elian Morvane é autor e cronista do Arcana News, escrevendo atualmente na Revista Arcana News, sem deixar de colaborar também em peças noticiosas e em leituras estratégicas de política, economia e sociedade.

Força sem projeto é demolição. Não é política.

Há uma forma específica de falhar que não se parece com fracasso. Parece vitória. Produz manchetes, gera satisfação imediata, deixa a sensação de que algo foi finalmente resolvido. É só mais tarde — meses, anos, às vezes décadas — que se percebe o que ficou por fazer. A relação entre os Estados Unidos e o Irão é, em larga medida, a história dessa forma de falhar repetida com variações ao longo de setenta anos.

O padrão não é incompetência. É um erro de categoria que nunca foi corrigido na raiz: a convicção de que destruir capacidade equivale a produzir solução. De que eliminar um problema técnico resolve um problema político. De que um país pode ser tratado como peça de engenharia — identificado o defeito, removido o defeito, sistema restaurado — sem que a história, a memória e os interesses dos que habitam esse país interfiram com o resultado.

O Irão interferiu sempre. E cada vez que o fez, Washington ficou surpreendida.


O golpe que não acabou em 1953

A origem documentada deste equívoco tem data e local precisos: Teerão, agosto de 1953. Mohammad Mosaddegh, primeiro-ministro eleito, havia nacionalizado a indústria petrolífera iraniana dois anos antes, reclamando receitas que fluíam maioritariamente para a Grã-Bretanha. A resposta britânica foi um bloqueio económico. A resposta americana — depois de resistência inicial — foi uma operação encoberta que combinou desinformação, agitação paga e pressão sobre o monarca constitucional para que agisse contra o seu próprio governo.

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A operação foi rápida e tecnicamente limpa. Mosaddegh foi preso. O Xá Mohammed Reza Pahlavi consolidou o poder. O petróleo continuou a fluir. A CIA considerou-a uma demonstração das suas possibilidades — o modelo para dezenas de intervenções que se seguiram noutros países durante a Guerra Fria.

O que a avaliação técnica não registou foi o que o golpe depositou no interior do Irão: não apenas ressentimento difuso, mas uma narrativa estruturante. A ideia de que o país havia sido sequestrado por fora, de que a sua soberania era uma ficção mantida por potências externas, de que qualquer modernização dependente do Ocidente era uma forma de vassalagem. Essa narrativa não desapareceu quando o Xá governou. Cresceu por baixo do aparato de Estado, alimentada pela repressão do sistema de segurança que Washington apoiava e pela distância entre a modernização superficial e o bloqueio político sistemático.

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Em 1979, quando a revolução eclodiu, havia iranianos nas ruas que tinham vivido o golpe e iranianos que apenas o conheciam como memória familiar. Mas a memória tinha a mesma força operativa que o facto. O ayatollah Khomeini não inventou o ressentimento contra os Estados Unidos — soube articulá-lo com uma coerência que o tornou irresistível. A tomada da embaixada americana pelos estudantes, nesse mesmo ano, não foi espontânea: foi a expressão concentrada de vinte e seis anos de acumulação.

Um dos reféns norte-americanos ouviu então a frase que resumia tudo: «Não têm direito a queixar-se. Em 1953, foi o vosso país que nos fez reféns a nós.»

Washington recebeu a crise dos reféns como agressão e humilhação. Era também, lida de outro ângulo, a conta de uma decisão tomada uma geração antes e nunca verdadeiramente contabilizada.


Vitórias táticas, problemas estratégicos maiores

O que se seguiu nas décadas seguintes confirma o padrão com variações que parecem diferentes mas obedecem à mesma estrutura interna.

Ronald Reagan classificou os líderes iranianos como «terroristas fanáticos». Mas quando a organização libanesa Hezbollah — com ligações a Teerão — sequestrou cidadãos americanos no Líbano, a administração Reagan encontrou uma saída criativa: vender armas ao Irão, usar os fundos para financiar guerrilha nicaraguana, e recuperar os reféns pela via do acordo secreto. A operação, quando exposta, destruiu a credibilidade da Casa Branca durante meses. A vitória tática — reféns libertos, armas vendidas, guerrilha financiada — produziu um escândalo que revelou ao mundo que os EUA negociavam em segredo com o Estado que publicamente denunciavam. O custo estratégico foi a erosão da própria postura que a administração afirmava defender.

George W. Bush colocou o Irão no «eixo do mal» e a retórica de regime change circulou abertamente entre os seus mais próximos conselheiros. Havia, contudo, um obstáculo que a linguagem não resolvia: em 2003, os EUA tinham invadido o Iraque — o único contrapeso regional significativo ao poder iraniano. Com o Iraque desintegrado e os recursos americanos consumidos por uma ocupação sem fim à vista, o Irão saiu da invasão do Iraque com mais margem de manobra regional do que tinha antes. A vitória tática americana em Bagdade produziu um problema estratégico em Teerão. Em 2007, quando a inteligência americana concluiu que o programa nuclear iraniano tinha sido suspenso anos antes, qualquer justificação pública para um ataque ao Irão desapareceu. Bush tinha destruído o contrapeso regional ao Irão e ficado sem argumento para o atacar diretamente.

Barack Obama tentou uma lógica diferente: o envolvimento como instrumento de transformação gradual. O acordo nuclear de 2015 — o JCPOA — limitava o enriquecimento iraniano e submetia as instalações a inspeção internacional, em troca de alívio parcial das sanções. Era tecnicamente robusto. Politicamente, sobreviveu ao escrutínio porque Obama ameaçou vetar qualquer tentativa congressual de o bloquear. O problema não estava na letra do acordo: estava no facto de ter sido negociado com uma administração americana, assinado como compromisso de uma administração americana, e poder ser desfeito por uma administração americana seguinte sem consequências formais.

Trump retirou-se em 2018. A vitória tática — reimpor pressão máxima, isolar Teerão, forçar nova negociação em condições mais favoráveis — produziu o efeito oposto. O Irão acelerou o enriquecimento de urânio, expandiu capacidades que o acordo pretendia travar, e chegou ao estatuto de «Estado limiar nuclear» — tecnicamente capaz de produzir material para uma arma em prazo relativamente curto — precisamente por ter sido libertado, pela saída americana, das restrições a que tinha acordado submeter-se.

Cada ciclo seguiu a mesma mecânica: uma ação americana produziu um resultado imediato legível como sucesso, e um resultado diferido que agravou a situação que pretendia resolver.


O que o dossiê nuclear encobre

Tratar o problema iraniano como problema nuclear é um erro de escala que convém a quem prefere uma solução técnica a uma solução política.

O programa existe, tem dimensão real, e as suas implicações para a estabilidade regional são sérias. Mas é também o produto direto de décadas de pressão que ensinaram às lideranças iranianas uma lição simples: os Estados que abdicaram de programas semelhantes sob pressão ocidental não sobreviveram. A dissuasão própria é o único seguro de vida que nenhum acordo externo pode garantir de forma irreversível, porque os acordos dependem de quem os assina e o signatário muda.

Este raciocínio não exige malevolência especial. Exige apenas que os decisores iranianos observem o que aconteceu noutros casos e tirem conclusões racionais. O paradoxo é estrutural e autoalimentado: a insistência americana em que o Irão não pode ter programa nuclear reforça o incentivo iraniano para avançar nessa direção, porque é precisamente a capacidade nuclear que torna qualquer ataque ao regime genuinamente custoso para quem o considera.

Os atores iranianos não são monolíticos, e essa distinção tem consequências práticas. O presidente e o governo eleito operam dentro de margens de manobra que os Guardiões da Revolução Islâmica — que controlam frações substanciais da economia, das forças militares e das redes regionais no Líbano, no Iémen, no Iraque e na Síria — podem estreitar ou bloquear. Quando acordos negociados com o executivo iraniano colapsam por mudança de administração americana, o argumento dos setores mais intransigentes em Teerão sai invariavelmente reforçado: negociar com Washington é trabalhar sobre areia.

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