No dia 28 de fevereiro, enquanto os primeiros F-35 descolavam de porta-aviões no Golfo Pérsico, uma bomba caiu no lugar errado. Não se sabe ainda com certeza se foi erro de coordenadas, falha de intelligence ou o acaso bruto que acompanha qualquer operação de escala suficiente. Sabe-se que a bomba caiu numa escola primária. Sabe-se que morreram quase duzentas pessoas. Sabe-se também que nesse mesmo dia os Estados Unidos assassinaram o Líder Supremo do Irão, Ayatollah Ali Khamenei, num ataque que a administração descreveu como cirúrgico, preciso, decisivo.
A administração Trump tentou manter os dois factos separados — um era vitória histórica, o outro era o ruído inevitável de qualquer operação deste tipo. Mas as duzentas pessoas mortas numa escola primária recusam-se a ser ruído. Simplesmente ficam.
A guerra americana contra o Irão começou em fevereiro de 2025 e ao fim de um mês produziu uma coisa estranha: não uma vitória, não uma derrota reconhecida, mas um espetáculo que cresceu além do que pretendia representar, e que depois ficou sem saber como terminar.
Pete Hegseth chegou à Secretaria de Defesa com uma convicção formada no Iraque e no Afeganistão — simples no enunciado, complexa nas suas consequências não vistas. A convicção era esta: perdemos porque nos amarramos. As regras de empenhamento, os advogados militares embarcados nas operações, a obsessão com o dano colateral — tudo isso tinha funcionado como travão numa máquina que podia ter corrido mais depressa e mais longe.
Era uma leitura com adeptos em todas as democracias que perderam guerras longas — a tentação de localizar o problema não no adversário mas na contenção própria é uma das mais persistentes da psicologia política. É também, quase sempre, incompleta. As guerras de contrassubversão falham sistematicamente não por falta de bombas mas por excesso de inimigos criados no processo de largar essas bombas. A violência indiscriminada alimenta o recrutamento dos grupos que combate.
Hegseth não ignorou esta objeção. Nunca chegou a encontrá-la.
Em 2019, quando ainda era apresentador num canal de televisão, foi pessoalmente ao Presidente Trump pedir clemência para dois soldados acusados ou condenados por alegados crimes de guerra. Conseguiu. Quando Trump o nomeou Secretário de Defesa — saltando diretamente da televisão para o cargo mais alto na cadeia de comando militar, abaixo apenas do Presidente — Hegseth trouxe essa convicção transformada em doutrina.
Chamou-lhe “letalidade máxima”. Em setembro de 2024, numa reunião com altos responsáveis militares em Quantico, explicou o que significava: sem regras de empenhamento, com autoridade total delegada aos combatentes, uma única métrica de sucesso. “Matam pessoas e destroem coisas para ganhar a vida”, disse. A frase traía a sua origem mais do que revelava a realidade do combate — a televisão, o comentário político, a necessidade de clareza para uma câmara.
A teoria subjacente à guerra do Irão tinha uma lógica que merecia ser levada a sério, mesmo que a sua execução a tenha destruído. O regime iraniano estava sob pressão interna acumulada há anos. Os protestos de 2022 e 2023, desencadeados pela morte de Mahsa Amini e prolongados muito além do que a República Islâmica esperava, tinham revelado uma fratura profunda entre o Estado e uma parte significativa da sua população. O regime respondera com a brutalidade que lhe é característica — milhares de detenções, execuções públicas, um terror sistemático que conseguiu suprimir a manifestação visível da dissidência sem conseguir suprimir a dissidência.
Numa situação destas, a teoria da decapitação tem algum fundamento. Eliminar a liderança, criar vácuo de poder, esperar que surja algo mais maleável. Requeria, porém, uma condição que a doutrina da letalidade máxima tornava impossível: a distinção cuidadosa entre regime e população civil, entre os elementos mais duros do aparelho de Estado e os moderados que poderiam ser interlocutores de uma transição.
Os primeiros ataques mataram Khamenei. Mas também mataram, segundo o próprio Trump, “a maioria das pessoas que tínhamos em mente” para o período pós-guerra. Os mais radicais sobreviveram — estavam protegidos, em bunkers, tinham calculado esta possibilidade. Os moderados, os que teriam podido ser convocados para uma outra configuração do poder, estavam mortos.
Trump disse isto numa conferência de imprensa, entre outras declarações, e a frase foi absorvida pela cadência normal da comunicação desta administração — que produz afirmações com tal velocidade e volume que nenhuma afirmação individual tem peso suficiente para se fixar. Não há silêncio onde uma admissão extraordinária possa sedimentar.
Em 1956, Anthony Eden convenceu-se de que Gamal Abdel Nasser era uma versão árabe de Mussolini e de que a nacionalização do Canal de Suez era o equivalente da Renânia — o momento em que a cedência criaria um precedente catastrófico. Eden tinha lutado na Primeira Guerra Mundial, resistido ao apaziguamento nos anos trinta, e tinha razões pessoais e históricas para acreditar que o momento exigia ação decisiva. A operação conjunta britânico-franco-israelita de outubro de 1956 tinha objetivos militares claros e foi executada com competência.
Depois os Estados Unidos, sob Eisenhower, recusaram-se a apoiar a operação e forçaram uma retirada que equivalia a uma humilhação pública. O Império Britânico — aquilo que restava dele — não sobreviveu ao abalo. Eden resignou em janeiro de 1957, desgastado e doente. O canal ficou com o Egito.
Uma ação concebida como demonstração de firmeza pode revelar, em vez disso, os limites reais daquele que a empreende — e esses limites, uma vez visíveis, são difíceis de desfazer por qualquer afirmação posterior de que se está a ganhar.
Suez não estava na biblioteca de referências de Hegseth. A sua biblioteca era diferente — e mais recente, e mais pessoal.
O Estreito de Ormuz tem quarenta quilómetros de largura no ponto mais estreito. Por ele passa aproximadamente um quinto do petróleo negociado mundialmente. Os Guardiões da Revolução Iraniana — dispersos, enterrados, concebidos para sobreviver a exatamente este tipo de operação — continuavam a controlar as suas margens orientais. O mercado global de energia reagiu como os mercados reagem quando não conseguem calcular a exposição ao risco: com uma nervosidade que se expressa em preços e afeta, em cascata, tudo o que depende da energia.
Os aliados europeus tentaram, em privado e em público, pressionar por uma solução negociada. Tinham relações próprias com o Irão, anos de diplomacia acumulada, canais abertos que a administração não queria nem usava. Trump respondeu com escárnio. “Construam alguma coragem atrasada”, disse dos governos europeus que pediam negociação. Se querem que o petróleo flua, “vão ao estreito e tomem-no.” Hegseth, numa conferência de imprensa, zombou da Royal Navy britânica com uma condescendência que dispensava argumento.
Em fevereiro de 2025, Trump dissera a Volodymyr Zelensky, no Salão Oval, que a Ucrânia estava “enterrada” no campo de batalha — como se a clareza brutal sobre a situação de um aliado fosse realismo útil em vez de humilhação pública com câmaras ligadas. Saul Bellow chamou a algo parecido “instrução da realidade”: o prazer cínico em explicar aos idealistas como o mundo realmente funciona, o gozo de ser o que sabe e diz o que os outros recusam admitir. O problema é que a realidade, quando responde, não está obrigada a confirmar a lição ensinada.
Trump discursou à nação numa quarta-feira à noite. Disse que os Estados Unidos tinham “derrotado e completamente dizimado o Irão”. Disse que “nunca na história da guerra um inimigo sofreu perdas tão devastadoras num prazo tão curto”. Os Guardiões da Revolução continuavam a controlar o país. O estreito continuava na sua esfera de influência. O regime não tinha caído. Ainda assim, Trump anunciou que a missão estava “a chegar ao fim” e que as forças americanas iniciariam um recuo.
Acrescentou que, se Teerão não aceitasse um acordo, seria atingido “muito duramente nas próximas duas a três semanas”. Seriam levados “à Idade da Pedra, onde pertencem.”
Uma promessa de destruição total com prazo de duas a três semanas não é uma ameaça estratégica. É uma confissão de que o tempo é escasso, de que as opções mais ambiciosas — uma invasão dos portos de Kharg Island, uma operação para extrair urânio de instalações nucleares — tinham ficado em promessa. As ameaças com prazo são a linguagem de quem precisa de terminar, não de quem pode esperar.
O discurso tinha a estrutura de todas as grandes declarações desta administração: hipérbole máxima no primeiro parágrafo, concessão real enterrada no terceiro, nova hipérbole no quinto para que a concessão não fique em evidência. Teerão leu o discurso. Os mercados leram o discurso. Os aliados europeus leram o discurso.
Na visita às bases na região, pouco antes do discurso presidencial, Hegseth encontrou uma aviadora num tarmac, ao pôr do sol, com um frio a instalar-se. Perguntou-lhe o que as tropas precisavam. Ela disse, com um sorriso que ele descreveu como astuto: “Mais bombas, senhor. E bombas maiores.”
Hegseth contou esta história numa conferência de imprensa como quem conta uma parábola. Tinha a estrutura certa para isso: o líder que desce até aos soldados, a voz que sobe do terreno, a simplicidade da resposta que confirma a doutrina. Talvez fosse verdadeira, talvez não fosse, talvez fosse verdadeira de uma forma que dependia de quem a contasse.
Entre o que uma aviadora pede numa tarde de inverno num tarmac do Golfo e o que uma administração deve à nação que governa e ao país que bombardeia existe uma distância que a parábola não atravessa. Uma pode pedir mais bombas e ter razão, nos seus próprios termos. A outra devia ter decidido antes o que a missão era — não em linguagem de briefing de imprensa, mas em arquitetura real: o que acontece se o regime cair, quem ocupa o vácuo, como se fecha o estreito, o que se oferece ao movimento de protesto iraniano para além de mais ataques que o tornam mais difícil de sustentar.
Não é falha de execução. É a distância entre governar e performar.
Há uma questão que sobrevive ao fim do espetáculo: o que acontece a uma potência que aprendeu a confundir as duas coisas?
Uma administração que governa para uma câmara pode ganhar guerras quando o adversário é suficientemente fraco, suficientemente isolado, suficientemente dependente de que a performance americana seja a última palavra. O problema surge quando o adversário não está obrigado a assistir ao espetáculo — quando tem os seus próprios objetivos, a sua própria audiência, a sua própria lógica de sobrevivência que não coincide com o guião escrito em Washington.
O Irão não estava. O mercado do petróleo não estava. Os aliados europeus, exasperados pelo escárnio, não estavam.
O que ficou, ao fim de um mês de letalidade máxima: um regime que sobrevivera, um estreito sujeito a pressão, uma população iraniana que perdera duzentas pessoas numa escola primária, e uma administração americana que prometia mais destruição enquanto organizava a retirada. Em algum lugar nessa sequência estava também a maioria das pessoas que “tinham em mente” para uma transição — mortas pelos mesmos ataques que deviam ter criado condições para as chamar ao poder.
E num tarmac de algures, ao pôr do sol, uma aviadora com um sorriso que Hegseth descreve como astuto — talvez porque sabe que está a dar ao Secretário de Defesa exatamente o que ele veio buscar. A confirmação da doutrina. O álibi narrativo. O final da parábola que já estava escrita antes da pergunta.
O problema é o que fica depois de as câmaras se desligarem.
Clube de Leitura Arcana
Grátis: leitura integral disponível.
O registo é gratuito, não exige dados de pagamento e após validação dá acesso imediato à leitura integral dos textos antigos e futuros no Arcana News.
Este artigo apresenta um excerto. A versão completa está disponível após entrada gratuita.
O registo é gratuito, não pede dados de pagamento, e dá acesso imediato à leitura integral deste texto e dos futuros no Arcana News.
Entrar (se já tem conta) · Criar conta (gratuito)



