A COR DO MEDO
por Alberto Carvalho
(Parte II — A Fronteira do Medo)
Onde o deserto encontra o arame, a liberdade perde nome e rosto.
As fronteiras nunca são apenas linhas no mapa — são cicatrizes na consciência. A de Tijuana, vista de longe, parece uma ferida aberta sobre a areia, meio curvada, meio resignada, como se o próprio deserto pedisse perdão. Durante o dia, o sol encandeia as chapas metálicas; à noite, refletem os faróis das patrulhas, e o ar cheira a desconfiança e suor.
Lá, os rostos confundem-se entre a esperança e o medo. Mulheres com crianças adormecidas nos braços esperam um sinal que nunca vem. Homens esgotados sussurram nomes de familiares, memorizam números de telefone que talvez nunca possam usar. Do outro lado, homens de uniforme apontam lanternas, armas, megafones. Todos obedecem. Poucos compreendem.
A América transformou a fronteira num palco de redenção nacional — uma espécie de penitência coletiva em que o estrangeiro paga pelos pecados internos. A ideia de pureza, reciclada pela retórica de Trump, é a velha doença do império: a crença de que o mal está sempre fora.
Mas o mal, quando o procuramos nos outros, regressa sempre disfarçado de ordem.
Nos Estados Unidos, ele chama-se ICE — Immigration and Customs Enforcement. É um nome técnico, quase burocrático, mas carrega o frio daquilo que se tornou: uma máquina de medo. Sob Trump, o medo adquiriu protocolo, farda, manual de operações. Entrou pelas escolas, pelas fábricas, pelas igrejas. Tornou-se normal ouvir relatos de cidadãos de pele morena algemados à frente dos filhos, de casas arrombadas por agentes mascarados em busca de “ilegais” que, afinal, eram americanos.
Essas imagens não são apenas violações legais; são liturgias da humilhação. Cada homem arrastado pela rua, cada mulher calada à força, cada criança que chora num banco traseiro de carro é um capítulo de uma pedagogia autoritária: ensinar pelo terror quem manda e quem deve calar.
Trump, com a sua retórica da grandeza, devolveu à América o pior da sua infância — a escravatura moral. Fê-la acreditar que a força é um argumento e que o medo é uma vacina. E a América, cansada e confusa, acreditou.
Mas há algo mais grave do que o abuso: é a indiferença. A indiferença dos que, não sendo alvos, decidem olhar para o lado. Esse silêncio cúmplice é o cimento do autoritarismo. É nele que assentam os muros mais duradouros: os que não se veem.
Em Portugal, esse silêncio também cresce. Não nas patrulhas noturnas, mas nos comentários das redes, nos cafés, nas tribunas de certos programas de televisão onde se aplaude quem humilha. Quando Ventura fala de “devolver Portugal aos portugueses”, há quem aplauda sem perceber que ele começa por lhes roubar a alma. E o medo — sempre o medo — vai mudando de objeto: hoje é o imigrante, amanhã será o pobre, o doente, o diferente, até que já não reste ninguém puro o bastante para não ter medo.
As fronteiras portuguesas não são de arame farpado, são de preconceito. Mas não são menos cortantes. No discurso público, nas páginas anónimas da internet, o insulto substitui a análise, e a mentira, a compaixão.
O medo deixa de ser um sentimento e torna-se doutrina.
E é assim que a cor do medo se dilui na nossa pele. Ele não grita; sussurra.
Começa no riso fácil com a desgraça alheia, no “eu até não sou racista, mas…”, no “eles vêm cá tirar-nos tudo”.
Essas frases são os degraus invisíveis da fronteira portuguesa — a que separa quem ainda reconhece o outro de quem já só reconhece a si mesmo.
A América de Trump e o Portugal de Ventura partilham um mesmo credo: o de que o medo pode ser um projeto nacional. Um acredita que o estrangeiro destrói a pátria; o outro, que o diferente corrompe a tradição. Mas ambos se ajoelham diante do mesmo altar — o do ressentimento.
O medo é, afinal, o idioma comum dos autoritários. Não precisa de tradução, nem de partido: apenas de um público cansado.
(continua — Parte III: O Rosto e a Máscara)
Capítulos:
- I — A Estátua e a Sombra
- II — A Fronteira do Medo
- III — O Rosto e a Máscara
- IV — Portugal ao Espelho
- V — A Luz que Resta
SÉRIE — “A COR DO MEDO”
Autor: Alberto Carvalho
Categoria: Opinião / Ensaio
Língua: Português (Portugal)
Selo editorial: Caderno de Alberto Carvalho — Arcana News


