A Guerra que a ONU Não Consegue Parar

Economia

Aurelian Draven
Aurelian Dravenhttps://www.arcananews.com/
Aurelian Draven é correspondente especial do Arcana News, dedicado ao estudo de conflitos, memória e territórios esquecidos. É focado em segurança internacional, zonas de conflito e dinâmicas do Médio Oriente.

CONTEXTO

A guerra no leste da República Democrática do Congo é, há décadas, um labirinto estratégico onde se misturam fronteiras coloniais, memórias do genocídio ruandês, milícias étnicas, ambições regionais e uma riqueza subterrânea que nenhum dos actores quer perder.

Ruanda, Trump e a Paz Impossível no Congo.

A entrada de Donald Trump neste tabuleiro, apresentando-se como o mediador capaz de “acabar com o conflito”, não simplificou o quadro: apenas o tornou mais visível. E mais tenso.

A aproximação começou com entusiasmo. Washington promoveu encontros, Kigali enviou figuras de confiança, Kinshasa tentou ganhar tempo, e o Qatar financiou a arquitectura técnica do acordo. No papel, o plano norte-americano prometia o impossível: integrar politicamente os rebeldes do M23, retirar tropas ruandesas do território congolês, criar um corredor económico transfronteiriço e garantir que as minas de coltan e ouro seriam exploradas de forma “regularizada”. Na prática, cada peça do plano exigia que um dos lados abdicasse do principal instrumento de poder que possui.

Do lado ruandês, a retórica oficial mantém-se: Kigali nega controlar o M23, mas reivindica o direito de proteger populações tutsis transfronteiriças e assegura que as milícias hutu que restam na RDC continuam a ser uma ameaça existencial. O Presidente Paul Kagame diz isto com a frieza de quem sobreviveu ao genocídio e construiu um Estado disciplinado, eficaz e militarmente robusto. A sua mensagem é simples: “Não vamos esperar para ser atacados outra vez.”

Trump, por seu lado, encara o conflito como um negócio, não como um processo de reconciliação. O seu enviado, Massad Boulos, tentou convencer ambos os lados de que os Estados Unidos poderiam desbloquear investimentos, financiar infra-estruturas e dar garantias de segurança em troca de acesso privilegiado aos minerais estratégicos da região. A proposta foi recebida com diplomacia mas também com ironia: no Congo, todos sabem que nenhum acordo dura se não refletir o equilíbrio real de forças no terreno.

E esse equilíbrio é brutal. O M23 controla Goma e zonas estratégicas, detém armamento capturado ao exército congolês, arrecada impostos informais e gere parte do território com uma autoridade de facto. As milícias aliadas de Kinshasa multiplicam-se sem coordenação, representando ao mesmo tempo defesa local e caos armado. A MONUSCO, uma das missões mais caras da ONU, permanece impotente. E a própria presidência de Félix Tshisekedi está fragilizada por divisões internas, pressões externas e uma máquina militar corroída por corrupção.

Foi neste cenário que a iniciativa americana perdeu velocidade. Tshisekedi recusou assinar a fase final do acordo quando percebeu que Ruanda não estava disponível para retirar a maior parte das suas tropas. Kigali, por sua vez, não avançaria sem garantias sólidas de que Kinshasa controlaria as milícias hutu que sobrevivem no Kivu. E os diplomatas que acompanharam o processo sabem que nenhum dos lados está realmente pronto para desarmar: demasiado território, demasiado prestígio, demasiado dinheiro está em jogo.

As tentativas de Trump deixaram uma certeza amarga na região: sem uma transformação profunda da realidade militar e económica no terreno, qualquer paz será apenas uma pausa entre ofensivas. Ruanda quer segurança e influência. O governo congolês quer soberania e controlo. E os Estados Unidos querem estabilidade suficiente para garantir acesso aos minerais estratégicos da transição energética.

No meio de tudo isto, as populações de Kivu continuam a enterrar os mortos, a fugir das aldeias queimadas e a regressar no dia seguinte para recomeçar nos campos, como se a guerra fosse apenas uma estação do ano. A diplomacia internacional promete muito, mas no leste congolês ninguém confunde promessas com paz.

Informação e análise independentes, internacionais e plurais, dedicadas à liberdade, à memória e ao futuro.

Leia Mais em: Goma: A Cidade Que Cresce Sob a Guerra

Leia Mais em: O Rei Que Governa no Meio da Guerra

- Advertisement -spot_img

Mais artigos

Edição Arcana Newsspot_img

Leitura Essencial