NOTÍCIA
A liderança chinesa está a reforçar, em simultâneo, a propaganda nacionalista e a pressão militar no Estreito de Taiwan, numa estratégia descrita por figuras próximas de Pequim como “caneta e espingarda”: modelar a opinião pública interna enquanto aumenta o custo político, económico e psicológico para Taipé e para os seus apoiantes internacionais.
China intensifica estratégia de pressão sobre Taiwan com propaganda interna e ações militares.
A televisão estatal chinesa estreou uma nova série histórica, Silence of Glory, que glorifica operações clandestinas de agentes comunistas em Taiwan após 1949. A produção foi lançada em horário nobre e apresentada como homenagem a “mártires da reunificação”. Paralelamente, companhias públicas de teatro foram instruídas a privilegiar temas de guerra e luta nacional, sinalizando uma orientação oficial para reforçar o discurso patriótico.
Este ambiente interno agressivo coincide com um endurecimento verbal e operacional no exterior. Após a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, alertar para o risco de um conflito regional caso a China atacasse Taiwan, o cônsul-geral chinês em Osaka ameaçou “cortar o pescoço sujo” da governante — uma mensagem amplamente interpretada como um teste deliberado da reação japonesa. O post foi apagado, mas fontes próximas do governo chinês afirmam que foi autorizado ao mais alto nível.
Ao mesmo tempo, a China intensificou movimentos militares em áreas disputadas com o Japão, enviou navios da guarda costeira armados para perto das ilhas contestadas e forçou Tóquio a lançar caças para acompanhar um drone militar chinês perto de Yonaguni, o ponto mais próximo de Taiwan.
Para analistas em Washington e Taipé, esta combinação de propaganda, pressão diplomática e atividade militar faz parte de um “Plano A” destinado a forçar Taiwan a negociar sob coerção, sem que Pequim tenha de disparar. O objetivo seria tornar a vida política, económica e internacional de Taiwan tão difícil que o diálogo nas condições impostas por Pequim pareça inevitável. O “Plano B”, reconhecido como possibilidade real mas ainda distante, continua a ser a opção militar.
A ofensiva chinesa ocorre num momento em que Pequim avalia que o compromisso dos EUA com Taiwan pode estar menos firme. O presidente Donald Trump evitou declarações públicas sobre defesa direta da ilha e atrasou algumas vendas de armamento, aumentando a ansiedade em Taipé. A Casa Branca descreve esta mudança como “dissuasão pragmática”: incentivar Taiwan a reforçar a sua própria defesa sem provocar gestos simbólicos que possam escalar o confronto com a China.
Apesar disso, Washington aprovou na semana passada uma nova venda de peças aeronáuticas, no valor de 3,3 milhões de dólares, e o secretário da Defesa, Pete Hegseth, transmitiu a Pequim preocupação com a presença naval chinesa em torno da ilha.
Para Pequim, há também uma corrida contra o tempo. A identidade taiwanesa consolidou-se de forma significativa na última década: a maioria dos cidadãos identifica-se apenas como “taiwaneses”, ao contrário das gerações anteriores, mais abertas à ligação cultural com a China. Essa mudança explica, segundo fontes em Pequim, a insistência em narrativas históricas que reforcem um sentido de “destino comum”.
Além disso, a China tem ampliado as medidas de pressão sobre o Japão — da suspensão temporária de filmes a alertas para que estudantes e turistas evitem o país — afetando empresas japonesas e o setor do turismo.
Para os EUA e aliados regionais, permanece a grande incógnita: estas ações representam apenas o novo normal da pressão chinesa ou o prelúdio para uma fase mais arriscada?
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