O Projecto Arcana estreia-se com uma reflexão sobre as palavras que moldaram a história de Israel e do judaísmo.
Centro de Estudos do Mundo Antigo
Para o Projecto Independente Arcana News
Há palavras que nasceram com mais peso do que outras. Algumas arrastam séculos, carregam desertos, impérios e memórias de exílios. Outras são apenas etiquetas passageiras. As palavras hebreu, israelita, judeu e sionista pertencem à primeira espécie: sobrevivem à areia do tempo, às guerras e às fronteiras. Mudam de som, mudam de contexto, mas nunca perdem a inquietação que as fez nascer.
Compreender a diferença entre elas é mais do que um exercício linguístico; é tentar perceber como a história escolheu os seus nomes e, por vezes, como os nomes moldaram a própria história.
O termo hebreu é o mais antigo — e talvez o mais poético. Designava um povo nómada que atravessava terras e séculos, trazendo consigo um idioma, uma promessa e uma forma de estar que se confundia com o caminho. Da palavra hebreu veio o hebraico, a língua que fixou na escrita o eco das suas preces e das suas leis. Quando se diz “hebraico”, fala-se já de uma forma de comunicar com Deus e com o mundo, uma casa feita de sons e de símbolos.
Mais tarde surgiu o nome israelita, nascido de Jacob, a quem, diz a tradição, o próprio Deus chamou Israel. O nome tornou-se reino e o reino tornou-se memória. “Israelita” é, portanto, o que pertence a essa linhagem — primeiro uma tribo, depois um povo e, muitos séculos mais tarde, um Estado moderno. Hoje o termo designa tanto o cidadão do Estado de Israel como, em sentido bíblico, o descendente espiritual de um pacto antigo.
Judeu veio depois, quando o antigo reino de Judá se impôs na história e o exílio babilónico espalhou o povo pelas margens do mundo. “Judeu” passou a significar o que guardava a fé, a lei e as tradições do judaísmo, independentemente do território. Assim, nem todos os judeus são israelitas, e nem todos os israelitas foram judeus. Há uma pertença de alma que se mantém mesmo longe da geografia — e é por isso que o judaísmo é, antes de mais, uma fidelidade.
O termo semita, muitas vezes mal usado, não é uma nacionalidade, mas uma família de povos que inclui hebreus, árabes e outras culturas do antigo Próximo Oriente. Ligam-nos as raízes linguísticas, um mesmo ramo de palavras que floresceu em alfabetos diferentes. Quando se fala de “antissemitismo”, fala-se, na verdade, de um ódio dirigido ao povo judeu, mas que se estende simbolicamente a todos os que partilham essa herança comum.
Já sionista é um nome recente — filho do século XIX e das dores da modernidade. O sionismo começou como um ideal político e espiritual: o de reunir num mesmo território o povo disperso, restaurando a sua dignidade e a sua soberania. Com o tempo, o termo foi ganhando camadas e controvérsias. Houve o sionismo humanista, que sonhava um lar partilhado e livre; e houve também o sionismo instrumental, que se tornou bandeira de políticas concretas, algumas tão contraditórias com o sonho inicial quanto o deserto é com o mar.
Usar estes termos indistintamente — hebreu, israelita, judeu, sionista — é empobrecer a própria história que os gerou. Cada um nasce de um tempo, de uma dor e de uma esperança diferente. As palavras parecem sinónimas, mas não o são. Dizer hebreu é falar de origem; israelita, de pertença; judeu, de fé; sionista, de um projeto. Cada uma contém uma época, uma geografia e uma alma.
Ainda assim, é verdade que nenhuma delas vive isolada. São fios de uma mesma tapeçaria humana — e é dessa trama que depende tanto a memória do sofrimento como a possibilidade da paz.
Saber de onde vêm as palavras é saber de onde vimos nós. Talvez seja aí, nesse encontro entre a curiosidade e a justiça, que comece o verdadeiro trabalho da compreensão: não para escolher um lado, mas para reconhecer que todas as línguas são tentativas de nomear o mesmo mistério.
O Arcana News inaugura-se, assim, com um princípio simples: o de que compreender é um acto político e moral. Saber de onde vêm as palavras é saber de onde vimos nós. E talvez seja aí, nesse encontro entre a curiosidade e a justiça, que comece o nosso jornal — ou, se quisermos ser mais precisos, a nossa oficina de entendimento.
Autor
Coordenação editorial: Arcana News.
Arcana News é um projeto independente de informação e reflexão pública, com secções de Política, Economia, Arte, Cultura e Sociedade. Rigor, liberdade e pensamento crítico.


