EUA e Ucrânia afinam esboço de acordo de paz

Economia

Elian Morvane
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Elian Morvane é autor e cronista do Arcana News, escrevendo atualmente na Revista Arcana News, sem deixar de colaborar também em peças noticiosas e em leituras estratégicas de política, economia e sociedade.

NOTÍCIA · Europa · Guerra na Ucrânia

Representantes dos Estados Unidos e da Ucrânia voltam este sábado à mesa das negociações, em Miami, para tentar avançar um quadro político e de segurança que possa servir de base a um eventual acordo de paz com a Rússia, anunciou o Departamento de Estado norte-americano.

EUA e Ucrânia afinam em Miami esboço de acordo de paz com mediação de Witkoff e Kushner.

Num comunicado divulgado na sexta-feira à noite, o gabinete do porta-voz indicou que o enviado do Presidente Donald Trump, o empresário Steve Witkoff, e o seu genro e assessor Jared Kushner mantiveram, durante dois dias, “discussões construtivas” com a delegação ucraniana sobre “um caminho credível para uma paz duradoura e justa na Ucrânia”.

Segundo Washington, as duas equipas chegaram a um entendimento de princípio sobre garantias de segurança e capacidades de dissuasão que, na leitura norte-americana, poderiam sustentar uma “paz duradoura” entre Kiev e Moscovo. O texto não especifica, porém, que tipo de mecanismos está em cima da mesa nem que obrigações envolveriam os Estados Unidos ou outros aliados.

Kiev insiste em garantias sólidas

A delegação ucraniana é chefiada por Rustem Umerov, secretário do Conselho de Segurança e Defesa Nacional. De acordo com o mesmo comunicado, Umerov reiterou que qualquer solução aceitável terá de proteger a independência e a soberania do país, garantir a segurança da população e servir de alicerce a “um futuro democrático e próspero”.

A posição repete o que o Presidente Volodymyr Zelensky tem afirmado nos últimos meses: não haverá paz sem garantias concretas dos parceiros ocidentais, com destaque para os Estados Unidos, que impeçam uma nova agressão russa no futuro. Kiev teme que um cessar-fogo sem enquadramento de segurança apenas permita ao Kremlin rearmar-se e preparar uma nova ofensiva.

Antes do arranque do encontro em Miami, Zelensky escreveu nas redes sociais que a missão da sua equipa passava por obter “toda a informação possível” sobre o que foi discutido em Moscovo durante a visita de Witkoff e Kushner no início da semana, bem como sobre “novos pretextos” que Vladimir Putin possa estar a usar para prolongar a guerra e pressionar a Ucrânia.

O chefe de Estado sublinhou ainda que o objectivo ucraniano continua a ser “uma paz digna”, que ofereça verdadeira segurança, algo que, reconheceu, exigirá por muito tempo o apoio político, militar e financeiro dos aliados.

Mediação condicionada pela posição de Moscovo

O Departamento de Estado confirmou que, em Miami, os negociadores norte-americanos partilharam com a parte ucraniana detalhes do encontro mantido com Putin no Kremlin e discutiram “passos que poderiam levar ao fim da guerra”.

Ainda assim, o próprio comunicado admite que quaisquer avanços dependem da disponibilidade russa para assumir compromissos sérios com uma paz de longo prazo, incluindo medidas de desescalada e fim das hostilidades.

Até agora, os sinais públicos vindos de Moscovo vão no sentido contrário. O Kremlin mantém exigências maximalistas, entre as quais a retirada ucraniana de territórios no leste que continuam, pelo menos em parte, sob controlo de Kiev. A liderança ucraniana rejeita essas condições como inaceitáveis, por equivalerem a sancionar a ocupação de facto de regiões internacionalmente reconhecidas como ucranianas.

Nos últimos dias, Putin tem procurado projectar confiança. Falou de uma “dinâmica positiva” em quase toda a linha da frente, apesar das elevadas baixas russas relatadas por Kiev e da ausência de ganhos territoriais decisivos. O Presidente russo chegou mesmo a afirmar que a Rússia está “disposta, em princípio, a lutar até ao último ucraniano”, frase que em Kiev é lida como prova de que Moscovo não está, por enquanto, interessada num compromisso equilibrado.

Diplomacia em paralelo com ataques em larga escala

Enquanto diplomatas e enviados especiais discutiam cenários de paz na Florida, a guerra continuou a um ritmo elevado. A Força Aérea ucraniana informou este sábado que a Rússia lançou, durante a noite, 653 drones e 51 mísseis, dos quais 17 de tipo balístico, contra múltiplos alvos no país.

Segundo Kiev, a defesa aérea conseguiu abater ou neutralizar 585 drones e 30 mísseis, mas foram registados impactos em 29 localidades, com novos danos em infra-estruturas civis e energéticas. Imagens divulgadas pelo serviço de emergência ucraniano mostram incêndios de grande dimensão na região de Kiev após ataques aéreos.

Moscovo apresentou, por seu lado, uma narrativa espelhada: o Ministério da Defesa russo afirmou ter destruído pelo menos 121 drones ucranianos entre sexta-feira e a madrugada de sábado, em várias regiões fronteiriças e na Crimeia ocupada.

Os números ilustram que, apesar da ofensiva diplomática patrocinada pela Casa Branca, as duas partes mantêm campanhas intensas de ataques à distância, numa tentativa de desgastar a capacidade militar e o moral do adversário.

Paz possível, mas distante

Para já, as conversas em Miami representam sobretudo uma fase de sondagem: os Estados Unidos procuram perceber até onde Kiev está disposta a ir numa negociação e que tipo de garantias seriam consideradas suficientes, ao mesmo tempo que testam o grau de flexibilidade de Moscovo através de contactos directos com Putin.

O resultado desses exercícios diplomáticos está longe de garantido. Como reconhece o próprio comunicado do Departamento de Estado, não haverá progresso real sem um sinal claro do Kremlin de que está disposto a recuar nas exigências territoriais e a aceitar mecanismos de verificação e segurança que dêem à Ucrânia alguma proteção efectiva.

Até lá, Miami será apenas mais uma etapa num processo em que a linguagem da diplomacia continua a conviver, todos os dias, com o barulho dos drones e o impacto dos mísseis sobre o território ucraniano.

Autor: Arcana News

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