Rússia – Falar é um risco que já não se mede | Arcana News

Economia

Aurelian Draven
Aurelian Dravenhttps://www.arcananews.com/
Aurelian Draven é correspondente especial do Arcana News, dedicado ao estudo de conflitos, memória e territórios esquecidos. É focado em segurança internacional, zonas de conflito e dinâmicas do Médio Oriente.

Desta vez, a protagonista é uma mãe de 33 anos, grávida do segundo filho e com uma menina de sete, que continua a frequentar as livrarias de São Petersburgo apesar do medo.


“Continuo a comprar livros para a minha filha”

Entrevista com uma jovem mãe numa livraria russa

(por Elian Morvane — Arcana News)

O sino da porta toca suavemente. Lá fora, o frio corta, mas dentro há o murmúrio quente das páginas folheadas. A mulher entra devagar, com a filha pela mão.

Chama-lhe “minha estrela pequena” e, antes de escolher um livro, limpa o banco com o lenço do bolso. O gesto é simples, maternal, quase sagrado.

Aceita conversar, mas não quer o nome impresso. “Pode escrever apenas: uma mãe de São Petersburgo.”

Tem trinta e três anos, trabalha como designer gráfica e está grávida do segundo filho. Fala num tom baixo e luminoso, como quem não perdeu a ternura, mesmo em tempos de invernos longos demais.


— Porque continua a vir a esta livraria, sabendo que está sob vigilância?
Porque aqui ainda consigo respirar. Em casa, falo baixinho; no trabalho, penso antes de cada frase. Aqui, posso apenas ser. E quero que a minha filha aprenda isso — que há lugares onde o medo não tem o direito de mandar.


— O que procura nos livros?
Procuro memória. E também coragem.
Os livros lembram-nos de que as coisas já foram piores e, ainda assim, houve quem resistisse. Leio-lhe contos de Andersen e poesia de Akhmátova. Explico-lhe que Akhmátova viveu num tempo em que também não se podia falar, mas que continuou a escrever. Ela pergunta-me: “Mãe, também vão prender quem escreve histórias para crianças?” Eu não sei o que responder.


— Como explica a sua filha o que está a acontecer?
Não explico tudo. Digo-lhe apenas que há adultos que têm medo de palavras. Que acham que certas frases são perigosas. Ela riu-se e disse: “Então são como monstros dos sonhos — desaparecem quando acendemos a luz.”
Gostava de ter a fé dela. As crianças ainda acreditam que a verdade tem som de candeeiro aceso.


— E os seus pais, viveram tempos de censura?
Sim. O meu pai era funcionário público, a minha mãe bibliotecária. Ela escondia livros entre revistas técnicas, e eu achava que era um jogo. Quando cresci, percebi que era uma forma de resistência.
Agora sinto-me a repetir o gesto: escondo alguns livros na prateleira de brinquedos da minha filha. É triste, mas também belo — como se as gerações se passassem a tocha da coragem.


— Falou de resistência. É isso que sente ao comprar livros?
Sim, embora pareça pouco. Há quem vá à igreja, há quem vá a protestos — eu venho aqui. Cada compra é um voto em silêncio.
Quando me multaram por ter partilhado uma frase de Susan Sontag nas redes, prometi a mim mesma que nunca mais teria medo das ideias. E cumpro a promessa comprando livros, mesmo que os guardem numa sacola de papel pardo, sem título visível.


— E o seu marido, partilha essa coragem?
Ele é mais prudente. Diz que é perigoso, que tenho uma filha para cuidar. Tem razão. Mas eu digo-lhe: é por ela que o faço. Se não lhe mostrar agora o que é liberdade, quando for adulta talvez nem saiba que existiu.
Às vezes discutimos. Mas no fim, ele ajuda-me a escolher as histórias. Ontem trouxe A Menina que Roubava Livros. Disse-me: “É bom que ela saiba que roubar livros pode ser uma forma de amor.”


— O que sente quando vê livros riscados, trechos tapados com tinta?
Sinto que alguém tem medo do que não entende. E isso entristece-me mais do que revolta-me. A tinta não apaga nada — apenas confirma o poder das palavras.
A minha filha chama-lhes “livros feridos”. E pergunta: “Quem os magoou?” Eu respondo: “Quem não aprendeu a ler o coração das coisas.”


— Acha que a cultura pode sobreviver a isto?
A cultura é mais teimosa do que os regimes. Pode estar cansada, mas não morre.
Olhe à nossa volta: pessoas sentadas, a folhear livros que podem desaparecer amanhã. Este simples gesto é a prova de que ainda estamos aqui. A censura tenta apagar, mas o amor pela leitura é como a humidade destas paredes — infiltra-se por todo o lado.


— Que livros comprou hoje?
Um de contos ilustrados para ela, e outro para mim — Todo o Mundo, da Olivia Laing. Tive de o pedir discretamente; estava guardado na cave. O vendedor olhou-me nos olhos e disse: “Leve-o rápido, antes que nos obriguem a escondê-lo outra vez.”
Às vezes penso que o país inteiro vive como esta livraria — com beleza acima e medo no subsolo.


— Se pudesse deixar uma mensagem ao seu filho que vai nascer, qual seria?
Dir-lhe-ia: “Que nunca deixes de perguntar.” Porque quando deixamos de perguntar, o mundo encolhe. E um dia acordamos dentro de um país onde até as perguntas são crime.
Mas também lhe diria: “Há sempre alguém a ler, mesmo no escuro.” E isso basta para que a esperança não morra.


A menina adormece sobre o colo da mãe, com o livro aberto. A mãe acaricia-lhe o cabelo e diz baixinho: “Um dia, ela vai perceber que isto — este gesto, este silêncio — é o que nos mantém de pé.”

Lá fora, o vento sopra entre as fachadas antigas. Dentro, o som do sino volta a tocar. E por um instante, parece que o mundo inteiro cabe entre duas páginas.


Elian Morvane
Reportagem especial para o Arcana News
Fotografias: correspondentes locais em São Petersburgo

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