CONTEXTO · Mundo · China · História Económica
Durante grande parte do século XX, a história económica da China foi contada a partir de uma imagem simplista: um império agrícola, fechado sobre si mesmo, que teria ficado para trás enquanto a Europa disparava em direção à modernidade. O trabalho de Li Bozhong, hoje professor emérito em Pequim, desmonta linha a linha esse roteiro confortável para o Ocidente – e desconfortável para a própria China.
Li passou décadas mergulhado em arquivos locais da região de Jiangnan, o delta fértil a sul do Yangtzé, onde Xangai, Suzhou ou Hangzhou são hoje nomes familiares. A sua tese central é provocatória: antes da Revolução Industrial, sobretudo entre os séculos XVI e XVIII, essa região apresentava níveis de produtividade agrícola, densidade urbana, consumo e especialização artesanal comparáveis a algumas das zonas mais avançadas da Europa, como os Países Baixos. Em vez de atraso estrutural, encontra-se ali um tipo diferente de modernidade, enraizada noutra combinação de terra, trabalho e tecnologia.
A partir dessa base regional, Li reescreve duas histórias ao mesmo tempo. Por um lado, a da China, que deixa de ser apenas “o império imutável do arroz e da burocracia” para aparecer como um espaço de inovação agrícola intensa, de controlo deliberado da fertilidade, de utilização quase obsessiva de fertilizantes orgânicos, de redes comerciais internas densas, de famílias que produzem para o mercado e não apenas para subsistência. Por outro lado, a história do próprio capitalismo mundial, que deixa de ser uma saga exclusivamente europeia para se tornar numa teia de interdependências onde o espaço chinês ocupa um lugar central.
Uma das chaves está no comércio. Quando pensamos em rotas antigas, é quase inevitável imaginar caravanas sobre o deserto, a Rota da Seda, camelos carregados de tecidos e especiarias entre a China e o Mediterrâneo. Li não nega o peso simbólico dessa ligação terrestre, mas relativiza o seu impacto económico: trajectos perigosos, custos elevados, ciclos de abertura e encerramento sempre que a segurança se degradava. O verdadeiro salto, insiste, acontece pelo mar.
A partir das dinastias Tang e Song, e depois com mais força sob os Yuan e os primeiros Ming, a chamada “Rota Marítima da Seda” transforma o mapa. Portos como Guangzhou e, mais tarde, Quanzhou tornam-se nós globais onde se cruzam mercadores árabes, persas, indianos, judeus e chineses. A inovação técnica – compartimentos estanques nos cascos, bússola magnética, melhoria sistemática do desenho dos navios – reduz o risco das viagens e aumenta a capacidade de carga. O que sai são sobretudo sedas e, pouco a pouco, porcelanas; o que entra são especiarias, metais preciosos, produtos de luxo. A China não está isolada: é uma peça maior num sistema comercial indo-pacífico em expansão.
A certa altura, porém, a mercadoria decisiva deixa de ser pimenta ou cravo e passa a ser prata. Com a descoberta e exploração brutal das minas na América espanhola, toneladas de metal extraído nas encostas de Potosí, no Alto Peru ou no México começam a circular. Uma parte fica na Europa; outra segue em galeões até à Ásia. Os comerciantes europeus trazem a prata para comprar o que os consumidores europeus e asiáticos desejam – têxteis, chá, porcelanas, seda, produtos que a China produz com escala e qualidade. Nas contas de vários historiadores, uma porção muito relevante da prata mundial acaba enterrada, sob a forma de cunhagem, no interior da economia chinesa.
Li lê este fluxo de prata como um facto teimoso que obriga a repensar a “grande divergência”. Se metade do metal precioso que circula no mundo acaba na China, isso significa que os mercados globais dependem da capacidade dessa economia absorver moeda e fornecer mercadorias. Significa também que Pequim – ainda que sem o vocabulário contemporâneo – está ligada ao sistema financeiro e monetário global muito antes de termos bancos centrais modernos ou G20.
Ao mesmo tempo, a história de Jiangnan mostra como essa globalização precoce se entrelaça com práticas profundamente locais. A própria região não tinha terras infinitas para plantar algodão, mas dominava, como poucas, a arte de transformar fibra em tecido. Comerciantes britânicos e americanos, no final do século XVIII e início do XIX, chegam ao ponto de enviar algodão de outras partes da Ásia para ser fiado e tecido ali, aproveitando séculos de experiência acumulada. Miúdas e miúdos começam a aprender a fiar aos cinco ou seis anos, dominam o tear antes dos dez, e o resultado é um produto que encontra compradores à escala mundial. Não há aqui uma história de autarcia, mas sim de especialização e de divisão internacional de trabalho.
Tudo isto ajuda a perceber a insistência de Li numa distinção que parece técnica, mas é política: mais do que nas “relações de produção”, gosta de olhar para as “forças produtivas” – tecnologias, recursos, organização do trabalho. Em vez de ler a história chinesa como uma sucessão de regimes que bloqueiam ou libertam a economia, prefere seguir pistas concretas: como se recolhia e utilizava o lixo humano como fertilizante; como se regulava, na prática, a natalidade; como se organizavam contratos entre comerciantes e artesãos; como circulavam bens, pessoas e ideias.
No fim, a imagem que resulta é ambígua para todos. Não confirma o mito ocidental de um Oriente eternamente atrasado, mas também não encaixa na narrativa triunfalista de uma China que teria sido sempre superior e apenas humilhada por dois séculos de agressão. Mostra, antes, uma sociedade complexa, capaz de atingir níveis de desenvolvimento avançado em certos espaços e sectores, e simultaneamente vulnerável a choques externos, rigidez políticas e mudanças globais que não controla.
Como é que esta leitura do passado fala ao presente? Li tem sublinhado, em conferências recentes, que o comércio, na sua essência, é um encontro entre iguais – ou, pelo menos, um encontro que só se realiza quando as duas partes julgam ganhar alguma coisa. O próprio carácter do carácter 商 (shang), lembra ele, está associado a consultar, negociar, ponderar. O camponês pode cultivar sozinho; o artesão pode trabalhar sozinho; mas o comerciante tem de falar, de reajustar, de aceitar limites.
A linguagem de hoje é outra. Falamos de “guerra comercial”, de “desacoplamento”, de “dependência estratégica”. Os instrumentos também mudaram: tarifas punitivas, sanções tecnológicas, listas negras, controlos de exportação. Mas por baixo da espuma, o problema permanece próximo daquele que Li identifica quando analisa séculos de intercâmbio sino-mundial: como manter canais de troca que sejam, ao mesmo tempo, politicamente aceitáveis e economicamente eficientes?
Quando Li olha para as tensões actuais entre Pequim e Washington, ou entre a China e os parceiros asiáticos, não o faz a partir de slogans, mas de uma memória longa. Sabe que as rotas nunca foram puramente pacíficas, que a pirataria, os monopólios e a força bruta sempre caminharam ao lado do comércio. Mas sabe também que, sempre que se fecham excessivamente os canais, todos pagam um preço: regiões inteiras empobrecem, cidades portuárias murcham, tecnologias deixam de circular.
No fundo, o que a obra deste historiador deixa como incómodo é a recusa em aceitar fatalismos fáceis. A ideia de que a China esteve sempre isolada não resiste aos dados. A ideia de que a globalização é um fenómeno exclusivamente contemporâneo também não. A ideia de que o comércio, por si só, garante paz é ingénua, mas a ideia de que se pode cortar, sem custos, os fios que ligam economias densamente interdependentes é, talvez, ainda mais perigosa.
Num momento em que a própria China procura redefinir o seu modelo de crescimento, deslocando o eixo das infraestruturas para o consumo interno, e em que o resto do mundo discute como gerir a exposição à segunda maior economia do planeta, olhar para Jiangnan, para a prata americana que entrou pelos seus portos, para os teares de algodão que trabalhavam para mercados distantes, não é um exercício académico. É lembrar que a fronteira entre “dentro” e “fora” sempre foi mais porosa do que os discursos políticos gostam de admitir – e que qualquer projecto de futuro, em Pequim ou em Washington, que ignore essa evidência histórica, estará a construir em cima de um mapa errado.
Autor: Elian Morvane
Imagem: Entrada de templo chinês antigo com arquitetura tradicional, janelas redondas e telhado de telhas, by, 大 董 , via pexels.


